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Transexuais lutam para adequar mente e corpo

06 de Ago de 2005 - 21h09min

Eduardo Gregori,
do Espaço GLS

Conquistar o direito de ser e viver como mulher. Este é o objetivo da campineira Bruna Lopes, de 21 anos. A meta só será atingida quando a estudante de enfermagem puder desembolsar R$ 20 mil ou esperar que o Sistema Único de Saúde (SUS) realize a cirurgia de gratuitamente.

Bruna sofre de hermafroditismo psíquico, enfermidade mais conhecida como transexualismo. "Sou uma mulher dentro do corpo de um homem", revela a estudante. O transexualismo é uma doença que consta no Código Internacional de Doenças (CID) e que no Brasil é reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina (CFM). "No cérebro de transexuais femininos existe uma parte igual a das mulheres", revela o cirurgião plástico Jalma Jurado, de 69 anos. As vítimas do transexualismo, diferentemente de homossexuais, bissexuais e travestis, não aceitam o próprio corpo e em muitos casos, quando não amparadas pela psicologia, podem se mutilar, extirpando os próprios órgãos genitais. "O indivíduo transexual sofre com o conflito gerado pela incompatibilidade entres seus sexos biológico e psíquico", revela a psicóloga Maria Angélica Fonseca Soares, de 46 anos, especialista em tratamento de transexuais. A doença se revela durante a infância. "Desde criança eu sabia que era diferente, só não conseguia definir como", conta Bruna. Segundo a estudante, a descoberta de sua condição de transexual se deu em fases. "Eu comecei me vestindo com roupas femininas apenas à noite. Depois fui descobrindo que isso não era o bastante. Queria ser uma mulher 24 horas por dia. Uma mulher com emprego, com uma relação amorosa e uma vida social", explica. Para as transexuais, o maior desafio, além da cirurgia de transgenitalização, é a falta de informação sobre o assunto. "Até há bem pouco tempo ninguém falava sobre isso", conta. Para Bruna, a falta de informação é a responsável pelo não-esclarecimento sobre a sexualidade da própria transexual e também pela não-aceitação da família "Meus pais achavam que eu era um homossexual radical que queria se vestir de mulher", lembra.

A estudante diz ainda que só foi aceita pela família depois de pesquisar sobre o assunto em livros e na internet. "Provei que tenho uma doença e que eles têm um filho que por dentro é uma filha. O transexualismo, assim como várias doenças, tem cura. Porém, antes de atingir a paz entre mente e corpo, o indivíduo transexual precisa passar por um acompanhamento psicológico.

A terapia, com duração mínima de dois anos, tem o objetivo de avaliar a real condição de transexual da pessoa, para depois prepará-la para sua nova vida pós-cirúrgica. Em Campinas, Maria Angélica coordena um grupo de transexuais que se encontra regularmente no espaço Companhia da Pessoa para troca de experiências. "Temos a participação de transexuais de todo o Estado de São Paulo. É uma terapia em grupo", conta. Além de coordenar uma reunião mensal em grupo, a psicóloga atende também individualmente e, dependendo da situação financeira da pessoa, o atendimento é gratuito. "Queremos transformar a Companhia da Pessoa em uma Organização Não Governamental para cuidar melhor das transexuais", planeja.

O grupo se reúne todo último sábado de cada mês na Rua José Vilagelin Neto, 66, no bairro Taquaral, telefones (19) 3255-4250 e 3236-3619.

Caminho Penoso

O tratamento de um indivíduo transexual é um caminho penoso e caro. "A imagem que tenho sobre mim, em minha cabeça, não condiz com aquela refletida no espelho", revela a professora de idiomas Eduarda Pitanga Grécia, de 27 anos. Vítima do transexualismo, Eduarda passou dois anos em um tratamento psicológico que lhe preparou para uma nova vida, "Estou pronta para me adequar" conta. Porém, antes de assumir sua real condição de mulher, a professora terá de reunir recursos financeiros para realizar a cirurgia de transgenitalização. "Como não posso esperar anos na fila de um hospital universitário, terei de contar com a ajuda de meus pais. Caso contrário será impossível", desabafa.

Mas os gastos para adequar mente e corpo vão além dos R$ 20 mil pagos pela cirurgia. "Precisamos tomar hormônios femininos, anti-hormônios masculinos, além de diversas medicações no pós-cirúrgico", explica Bruna. A estudante conta ainda que, gastou cerca de R$ 2 mil apenas com o tratamento para extinção de pêlos faciais. "É preciso ter muito dinheiro para ficar bonita", brinca. Apesar de tantos desafios, transexuais como Eduarda trilham firmes os caminhos para a adequação. "Quero casar e ser mãe, mesmo que adotiva", sentencia.

Eduarda é uma mulher convicta e nunca se viu como homem. "Durante a infância pensava que um dia meu pênis cairia e eu seria uma menina como as outras. Fiquei chocada quando isso não aconteceu", lembra. Desde então, a professora luta para se adequar. "Me sinto e vivo como mulher e quero ser um cidadã em todos os sentidos", vislumbra. Com o apoio dos pais e amigos para a cirurgia, Eduarda diz que está cansada de passar por situações constrangedoras. "Já perdi emprego por ter nome de homem", lamenta. Outro fator que a aborrece é ser confundida com travesti. "Namorei uma pessoa que pensava que eu era travesti e por isso não deu certo. A travesti reúne as energias da mulher e do homem em um corpo só. Este não é o meu caso, sou apenas uma mulher", explica.

Cirurgia é possível, mas ainda é cara

A primeira cirurgia de transgenitalização, procedimento cirúrgico que adequa os órgãos genitais à orientação sexual psíquica dos transexuais, foi realizada nos Estados Unidos em 1936, mas foi apenas em 1950 que o procedimento, restrito às universidades, passou a ser feito em clínicas particulares. Nesta época, o cirurgião inglês Buro desenvolveu no Norte da África uma técnica e operou mais de dez mil transexuais. No Brasil, a primeira transgenitalização foi realizada em 1972 pelo médico Roberto Farina.

Considerada pelas leis brasileiras como lesão corporal gravíssima, a cirurgia rendeu ao cirurgião um processo na Justiça. Doze anos depois, em 1984, o cirurgião plástico paulistano, Jalma Jurado, de 69 anos, desenvolveu em Jundiaí a técnica do Retalho Neuro Arterial. Em 1997, a cirurgia foi normatizada e legalizada pelo Conselho Federal de Medicina, dando o pontapé inicial para uma série de transgenitalizações no Brasil.

O procedimento, de acordo com o cirurgião, preserva o prazer sexual da paciente e já foi realizado por ele em mais de 300 transexuais brasileiras e estrangeiras. "Durante minha residência, via transexuais esperando pela cirurgia nas filas de hospitais públicos. Muitas delas esperavam uma vida inteira sem ter solução. Resolvi ajudá-las", conta. Em 1998, Jurado realizou na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) a primeira transgenitalização legalizada no Brasil. Bianca Magro, que atualmente vive na Itália, foi a primeira transexual brasileira a se submeter à técnica. "Foi um sucesso e desde então ela tem uma vida normal", revela. Bianca Magro também foi a primeira transexual campineira a obter na Justiça o direito de ter o nome e sexo corrigidos em seu registro de nascimento. Apesar do avanço das técnicas cirúrgicas, Jurado revela que a transgenitalização em transexuais masculinos ainda carece de estudos. "Os resultados são bons, mas ainda há muito a melhorar", conta. De acordo com o cirurgião, o processo de adequação de um homem com corpo de mulher leva aproximadamente um ano. "Ainda é um processo demorado e estamos estudando uma forma capaz de deixá-lo mais rápido", explica. Por ser complicada e estar em fase de estudos, a cirurgia em transexuais masculinos é realizada apenas em hospitais universitários e por este motivo ainda é gratuita.

A cirurgia em transexuais femininos, que não é coberta pelo SUS, só é feita em clínica particular e tem um custo estimado em R$ 20 mil. "Este tipo de cirurgia não é prioridade para o Ministério da Saúde e os hospitais públicos não possuem os equipamentos necessários para realizá-la", revela o cirurgião.




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