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SOPA DE LETRAS

Por Luís Gustavo
miaugui@gmail.com

Diversidade Sexual e Literatura Infantil

“Deslumbramento é palavra grande e larga que abarca o olhar daquele que, sendo capaz de se espantar, alumbrar, fascinar, seduzir, iluminar busca compreender o mundo. Tem a ver com o olhar que contemple o mais simples e o mais complexo. Tem a ver com a alma. Quem se deslumbra abre a porta do mundo e parte para a contínua aprendizagem do eu e do outro”. (CAVALCANTI, 2005) (Grifo nosso)

Nos últimos anos, passei por cidades e conheci muitas escolas de Ed. Infantil e Ensino Fundamental (1ª a 4ª) e sempre questionava, curioso, sobre as práticas pedagógicas para o respeito da diversidade sexual. Olhos saltavam, corpos se inquietavam e lábios gaguejavam ou silenciavam. Depois, os educadores (as) refeitos do susto inicial sempre reforçavam ora que isso não era daquele nível de ensino e ora justificavam fazer um trabalho apenas ligado ao conhecimento do corpo sob o enfoque da saúde.

Como proporcionar momentos prazerosos na escola, para que, crianças possam conhecer a diversidade do mundo que as rodeia sem os rótulos que nos adultos comumente combatemos ou disseminamos?

Em materiais destinados à orientação/educação sexual1 são ínfimas as referências ao homoerotismo e diversidade sexual como possibilidades afetivas tão válidas quanto a heterossexualidade. Heterossexualidade esta, que impregna as relações escolares como um dado a priori inquestionado. Se em materiais destinados especificamente ao trabalho com a sexualidade já não contempla a diversidade sexual, o que poderemos dizer dos livros de contos e histórias voltados para o público infantil até 11 anos aproximadamente?

No universo literário a produção específica sobre a diversidade sexual se volta majoritariamente ao público jovem/adulto tendo na última década ganhado espaço (ainda ínfimo) graças a Editoras, Festivais temáticos (LGTTB) de Cinema, iniciativas de Organizações não Governamentais/Movimento Social GLTTB (Gays, Lésbicas, Travestis, Transexuais e Bissexuais), como: cursos, palestras, exposições e eventos culturais. A TV aberta em alguns de seus programas (especificamente novelas) tem apresentado de forma sutil personagens gays e lésbicas que durante as tramas revelam/revelaram amor, desejo e outros temas entre pessoas do mesmo sexo.

Difusa no corpo social a discriminação contra o diferente acontece desde o início da escolarização, partindo de questões ligadas à diferenciação física, valorização de formas e tonalidades de pele em prejuízo de outras.

Entender de que maneira a escola pode colaborar para uma sociedade mais justa e mais humana não é tarefa fácil, em especial, se tratando de um tema que provoca polêmica e escandaliza diversos profissionais da educação quando o tema é abordado para alunos adolescentes ou adultos, muito mais ousado e provocante é fazer uma reflexão na esfera das séries iniciais do ensino fundamental.

A literatura infantil que aborda temas ligados ao conhecimento do outro, suas 1eculiaridades e sua dimensão humana é um dos caminhos para abrir diálogos e momentos de reflexão nos alunos para que vejam o mundo em sua diversidade e não em suas embalagens e rótulos.

Para Fischer (1981), “a arte capacita o homem para compreender a realidade e o ajuda não só a suportá-la como a transformá-la, aumentando-lhe a determinação de torná-la mais humana e mais hospitaleira para a humanidade”. Dessa forma os recursos artísticos e orais utilizados para se contar uma história, além de ter função simbólica, carregam em si também uma ação política. Visto que, quando o educador seleciona este ou aquele texto, já está fazendo uma ação direta sobre aqueles que irão escutar a história. Por isso, é fundamental que o professor ou contador de história conhece a história, a relação das personagens e principalmente o que está implícito como mensagem e moral. Afinal nenhuma prática docente é neutra!!!

Eis algumas indicações de obras infantis que podem corroborar com o respeito e a alegria de convivermos repleto de relações humanas mais afetuosas, mesmo que as histórias não enfoquem diretamente a diversidade sexual, pois, ainda é escassa a publicação/oferta desses materiais.

O Gato que Gostava de Cenouras – Rubem Alves – Ed. Loyola
O Menino que Brincava de Ser – Georgina da Costa Martins – DCL
Menino Brinca de Boneca? – Marcos Ribeiro – Ed. Salamandra
Bom dia! Todas as Cores! – Ruth Rocha (conto)
Na Minha Escola Todo Mundo é Igual – Rosana Ramos – Cortez Ed.
Tudo Bem ser Diferente – Tood Parr – Panda Books – Ed. Original
Viva a Diferença – Roberto Caldas – Ed. Paulinas
Abaixo das Canelas – Eva Furnari – Ed. Moderna
Nós – Eva Furnari – Ed. Moderna
Convivendo com as Diferenças – UNICEF Guia da Criança Cidadã – Ed. Ática
Mamãe Nunca me Contou – Babette Cole – Ed. Ática
Diversidade – Tatiana Belink – Editorial Coleção Camaleão
And Tango Makes Three – Peter Parnell – Children’s Publishing
King & King – Linda de Haan – Tricycle Press

Acredito que os processos educativos que contemplem a diversidade humana e com a pretensão de oferecer orientações para as práticas de si no campo da vivência social e da ordem da sexualidade estão implicados em um movimento de produção de transcendência e de esvaziamento do jogo político localizado no corpo e na relação do corpo com a alteridade.

“Quem se deslumbra abre a porta do mundo e parte para a continua aprendizagem do eu e do outro”. Onde está o seu encantamento? Quais histórias você se lembra?

CAVALCANTI, J. Pedagogia do Deslumbramento: leitura, escola e outras idéias. In: Revista Páginas Abertas. Ano 30, n.23, Ed. Paullus, 2005

FISCHER, E. A necessidade da arte. Rio de janeiro: Zahar, 1981

RIBEIRO, P.R.M. Educação Sexual Além da Informação. São Paulo: EPU, 1990.

_______________ (org.) Sexualidade e Educação: Aproximações Necessárias. São Paulo: Arte & Ciência, 2004.

1 Fazemos uma distinção entre Educação Sexual e Orientação Sexual. Segundo Ribeiro (1990) é no seio da família a primeira instância onde a criança receberá noções sobre normas e padrões sexuais, tem cabido a ela o papel de doutrinadora entre o bem e o mal. “É na família que os valores são transmitidos.” (p.39) Já a Orientação Sexual tem “...o papel de estimular debates e questionamentos, levar aos alunos novos conhecimentos e não o de dar receitas do que é certo e errado.” (p.40).

* Luis Gustavo Guimarães é professor (Ed. Infantil e Fundamental I), Pedagogo formado pela UNESP Campus Rio Claro – SP e membro do Identidade – Grupo de Ação pela Cidadania GLTTB. Atualmente atua como Coord. Pedagógico.

 


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