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SOPA DE LETRAS Por Luís
Gustavo
Qual o caminho? O transitar das calçadas, por onde todos os cidadãos deveriam caminhar livremente, causam insegurança e medo. Se for negra sua cor é vítima, se sou branco a história da minha pele é motivo de raiva, se minha aparência é...(fantasiar-se de bicho papão resolve?), se meu comportamento é... posso voltar para casa com lágrimas de sangue pelo corpo. Por onde caminhar? Qual o caminho para andar tranqüilamente com a minha singularidade de pessoa única e peculiar? Os raios de sol anunciavam, pela sua posição no céu, que já se passavam das doze horas, as crianças amontoavam-se nos pequenos fragmentos de sombra na entrada da escola. As diversas chaves carregadas pela inspetora ecoavam ao longe, pelo andar rápido e afobado da mulher com chapéu de palha que logo a sirene da fábrica de desenvolver mentes tocaria para serem abertos os portões. Ansiosas por mais um dia de “amassamento de nádegas”, uso excessivo dos dedos e controle vocal, adentraram correndo com a mesma alegria de todos os dias, a alegria dos encontros e dos afetos. Mas nesta tarde, a brutalidade sutil e social, desenhada e reproduzida através do discurso de dois meninos (X. 09 anos e Y. 10 anos – os nomes foram preservados), remeteu-me aos acontecimentos das últimas semanas que foi a violência sofrida por três gays no centro de Campinas (vide texto: “O índio, a empregada e o meu namorado” na coluna Salada Mix de Paulo Reis). Qual o caminho? A professora muito assustada e sem saber o que fazer pede auxílio e relata com olhos inconformados o motivo que levou dois alunos a se “socarem” no meio da sala de aula. Y. agride verbalmente com piadas e brincadeiras ao saber que na noite anterior um amigo de X. havia passado a noite em sua casa. As ofensas salientavam que X. era “viadinho” por ter “dormido” com um amigo. X. sem entender o que se passa, mas por ter internalizado, a partir do que escuta no seu meio social, que ser gay é coisa “errada”, “ruim” e do “diabo”, tenta desfazer-se de tais afirmações, daí em diante os socos e pontapés falam por si. Segundos..., gritos, balburdia na sala e a professora consegue afastar os alunos. A professora refeita
do susto conversa com os meninos para descobrir o que desencadeou a
briga. Tenta descobrir a origem das afirmações engessadas
no discurso do menino de apenas 10 anos, mas em vão, adota outra
postura e abre um espaço para diálogo com os meninos e
meninas da turma, fala sobre o respeito com a vida de cada um, escuta
as opiniões e salienta a importância dos amigos na vida
de uma pessoa. A conversa apaziguou os ânimos, mas a professora
percebe que precisa desenvolver um trabalho mais sério quanto
ao respeito e a diversidade. Será este um possível caminho:
o de esclarecer e dialogar com o outro??? Estas e outras situações
de preconceito e discriminação são muitas vezes
consideradas “normais”, “brincadeiras de crianças”.
Mas o que fazem educadores e cada pessoa para preservar o tecido plural
da sociedade e impedir que uma máquina nos embale em pacotes
de um kilo de aparência e condutas padrões??? Os professores e
professoras para que possam corroborar com a desconstrução
de mitos e preconceitos e possibilitar aquisição de valores
democráticos aos alunos deveriam: conhecer as características
da formação da sexualidade, entender que o nosso mundo
é plural em suas manifestações (sexual, identitárias,
religiosas entre outras) e isso é um dos nossos maiores bens.
Além do educador se posicionar em uma situação
pontual (como na situação narrada) ele pode através
de leitura de histórias, projetos interdisciplinares e pesquisas
trabalhar a favor da erradicação do preconceito. Seja
na Educação Infantil, Ensino Fundamental, Ensino Médio
ou em qualquer outra situação educativa, seja ela formal
ou não-formal. Portanto, esclarecer, dialogar e acreditar que
uma convivência melhor deve ser tecida a cada dia na “escola
do giz e lousa” ou na ‘escola da vida”, pode transformar
as relações entre as pessoas. Referência
Bibliográfica
* Luis Gustavo
Guimarães é professor (Ed. Infantil e Fundamental I),
Pedagogo formado pela UNESP Campus Rio Claro – SP e membro do
Identidade
– Grupo de Ação pela Cidadania GLTTB. Atualmente
atua como Coord. Pedagógico.
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