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SALADA MIX

Por Paulo Reis dos Santos
re_pare@yahoo.com.br

Vai se fudê seu burguês filhadaputa!

Paro o carro no cruzamento da Rua Regente Feijó com a Av. Moraes Sales. Um rapaz meio abobalhado se aproxima e me pede um trocado. Entre a Rua Barão de Jaguara e a Av. General Osório, uma travesti vem me perguntar se eu não tenho medo de falar com aidéticos (termo pejorativo que não se usa mais, o correto seria pessoa soropositiva!).

Depois de cruzar meu caminho com aquela fila inexplicável na porta do INSS, desço a Rua Barreto Leme e o farol se fecha na esquina com Av. Anchieta. Um sujeito me vem oferecer uma infinidade de quinquilharias.

Meu dia está apenas começando, sei que uma série de pepinos aparecerão para ser descascados, alguns sapos e abacaxis serão enfiados por minha goela abaixo. Este é meu cotidiano, igual a inúmeros outros vivenciado por “ene” seres humanos que vivem nas grandes metrópoles. Nem melhor nem pior.

Toca o telefone e uma voz feminina me oferece a oportunidade de “adotar” um menor com deficiência visual. Os custos de manutenção desta criança na instituição é alto, mas dividindo com um certo número de colaboradores não sairá muito para cada um!

Ao final da tarde, novamente o farol se fecha no cruzamento entre a Av. Benjamim Constant e a Av. Francisco Glicério. Um rapaz negro e gordo me estende a mão. Ante minha desculpa de não possuir nenhum trocado, ele lança um olhar acusador tipo “vai se fude seu burguês filhadaputa!” sobre mim enquanto observa o interior de meu carro. Acelero me sentindo um escroto de merda.

O jornal noticia que a Policia Federal destruiu milhões de CDs piratas e no desenrolar da matéria jornalística alguns cantores sertanejos dão seu depoimento sobre o quanto os artistas e a indústria fonográfica deixa de arrecadar por causa desta prática ilícita. Logo em seguida outra matéria me faz sentir responsável pelo grande número de crianças fumadoras de crack, cheiradoras de cola e aviões do tráfico.

As ruas, os faróis, as filas, as crianças, os indigentes, os olhares, o telefone e a televisão vai me dizendo a todo momento que eu sou o responsável por todas mazelas, angustias e sofrimento que assola humanidade. Todos os dias, a miséria humana invade meus sentidos e tenta despertar em mim a culpa histórica produzida pela fé cristã e imposta a seus fiéis.

Após muitos anos de batalha, angustias, falta de trabalho e conseqüentemente de grana, consegui adquirir um veículo, não do ano, mas é o primeiro que possuo em que todos os botões funcionam, o limpa brisa limpa a brisa, o acendedor de cigarros acende o cigarro, o marcador de combustível me diz o nível da gasolina. Não, não sou e nem me considero nenhum self made man, mas o pouco que possuo é fruto de minhas batalhas pessoais.

No final do ano passado, ao sair do Open Bar, minha amiga Lena Freitas (minha vizinha de site e que redigiu um ótimo artigo sobe os bares de nossas vidas!), fez o seguinte comentário: “Porra, a gente não está acostumado com qualidade, a gente é educado para ter tudo meia boca!”

Venho pensando nisto desde então. A imensa culpa que sentimos por ter uma grana para tomar um sorvete, enquanto no farol em frente alguém pede uma ajuda. E no entanto não percebemos que ao dar um trocado por favor! estamos contribuindo para que este tipo de situação se perpetue.

Não sou eu que tenho que melhorar as condições de vida da população empobrecida. Eu, como cidadão também estou sofrendo as conseqüências da má distribuição de renda deste país, da falta de educação, saúde e moradia. Como cidadão pago meus impostos, não jogo papel no chão, levo sempre um saco de lixo para recolher o cocô do Fred – meu poodle – da calçada, reclamo quando me sinto inustiçado nos estabelecimentos comerciais, e como trabalhador, contribuo para o desenvolvimento social. Por isso, tenho o direito de desfruta de todo o conforto material que meus parcos recursos puderem me proporcionar!

E como cidadãos, temos que cobrar do poder público, e dos políticos que foram leitos para cuidar de nosso patrimônio social, que cumpram o seu dever e realizem suas promessas de campanha em pról dos manos favorecidos.

A indústria fonográfica, perde milhões com a pirataria é claro, mas eu fico pensando, se euzinho pago entre um e três reais por uma mídia (CD) virgem, com capa plástica e tudo, nas boas lojas do ramo, por quanto uma Sony, Wea e outras, não pagam? Claro, os autores, músicos e cantores têm o direito de receberem pelo trabalho realizado. Mas, pagar trinta, quarenta reais por um CD não é todo mundo que pode, além do mais, a indústria da pirataria também emprega uma infinidade de profissionais que não encontram colocação no mercado formal de trabalho. Veja bem, não estou fazendo uma ode à falsificação e apropriação indébita dos direitos autorais, mas dizendo que a indústria fonográfica ganha uma fortuna, vendendo um bem que poderia ser colocado no mercado pela metade do preço, haja visto o selo alternativo produzido por Lobão, a uns tempos atrás, e colocado à venda nas livrarias e bancas de jornais de todo o país por um precinho bastante justo.

Quanto ao tráfico, ele também emprega uma infinidade de pessoas que estão fora do mercado de trabalho formal, além de ocupar o buraco deixado pelo poder público. Os traficantes dão segurança, alimentação e saúde num espaço territorial onde a administração pública não chega. E em nenhuma matéria televisiva eu vi mencionarem que quem sustenta este mercado é a classe média hipócrita e reacionária filhos dos donos do poder e do empresariado tupiniquim.

Quando a culpa cristã nos bater, quando os olhares nos inquirirem, quando o telefone tocar ou quando a televisão nos apontar como os responsáveis por toda esta miséria que está ao nosso redor, saiba que estão errando de foco, ou melhor, acertando mesmo, já que somos quem alimenta a indústria que devasta corações, mentes, territórios e ares deste planeta.

Planeta este que já está dando as repostas com os buracos na camada de ozônio, tissunames, terremotos, maremotos, furacões, e tantas outras catástrofes.

Sei o quanto é difícil manter a auto-estima numa boa com toda esta miséria nos rodeando e com o inconsciente povoado pelo discurso religioso. Mas inspire-se nos versos de Walter Franco, que nos diz que “tudo é uma questão de manter, a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranqüilo”.

E se for impossível manter esta atitude zen, lembre-se dos versos de Caetano Veloso: “Deixa eu dançar pro meu corpo ficar Odara, minha cara, minha cuca ficar Odara, prá ficar tudo jóia rara, qualquer coisa que se sonhara, pro meu mundo ficar Odara.” Ou como Chico Buarque “... que a gente vai fumando, porque também sem um cigarro ninguém segura este rojão”!

* Paulo Reis dos Santos é mestrando pelo GEISH – Grupo de Sexualidade Humana
da Faculdade de Educação da UNICAMP e Coordenador do Centro de Referência de Gays, Lésbicas, Travestis, Transexuais e Bissexuais da Prefeitura Municipal de Campinas






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