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SALADA MIX

Por Paulo Reis dos Santos
pa_re@bol.com.br

Você é gay ou guei?

"Brasil que eu amo porque é o ritmo do meu braço venturoso o gosto dos meus descansos,
o balanço das minhas cantigas, amores e danças.
Brasil que eu sou porque é a minha expressão muito engraçada, porque é o meu sentimento muito pachorrento,
porque é o meu jeito de ganhar dinheiro, de comer e de dormir".
Mário da Andrade


Numa reunião de planejamento do grupo Identidade, uma das questões discutidas era a de que o LGTTB da instituição era formado por lésbicas, gays ou por gueis, travestis, transexuais e bissexuais. Isso mesmo, os documentos e o próprio nome da instituição deveria utilizar o substantivo com a grafia original americana GAY, ou se deveria abrasileirá-la: GUEI.

Fui voto vencido mas esta questão não me saiu da cabeça, tanto que volto a pensá-la e quero dividir minhas elocubrações com você.
Somos brasileiros, temos o tão decantado suingue (quero dizer ginga de corpo e malemolência) e somos os reis do improviso. Mas a grande sacanagem inconsciente que cometemos diariamente é nos descaracterizarmos em nome de uma pseudomodernidade.

E nada mais moderno, aliás, hype, do que o gay urbano, das grandes metrópoles ou nem tão grande assim, mas o suficiente para que os meios de comunicação lhe diga o que é ser hype. Aliás, hype é freqüentar raves, ouvir bsy-trance, tomar cosmopolitan ou outro drink qualquer (cerveja não vale, está over) e usar gap ou diesel.
Essa miscelânea de termos estrangeiros que incorporamos em nosso vocabulário já nos chegam carregados de sentidos, que não sabemos quais, mas, no entanto, ganham significado para nós.

Os sentidos do vocabulário que emitidos são sempre administrados ideológicamente, isto significa que por trás da palavra expressa há um sentido político e simbólico. Podemos incorporar um vocábulo estrangeiro e abrasileirá-lo, dando-lhe nova roupagem, um novo sentido, com a cara do Brasil, ou nos imaginarmos pertencentes a uma classe de pessoas que tem o mundo como moradia e que por isso mesmo, se expressam de acordo com as exigências da modernidade.

Estamos irrediavelmente comprometidos com os sentidos do nosso linguajar e este comprometimento é político. O mundo está globalizado, mas para nós, do terceiro mundo só resta o lixo e a desqualificação de nossa cultura. E o processo de aniquilamento de nossa estima passa pelo linguajar, que é a forma primordial de nossa expressão pessoal e cultural.

Outra noite, num debate televisivo, alguém perguntava sobre o porque não haver, no calendário, a festa do saci-pererê ou do curupira, mas que é comum nas escolas haver a festa de haloween. Você pode me dizer: mas que graça tem um perneta pulando com um cachimbo na boca ou um caipira com os pés virados para trás? E eu lhe digo a mesma ou talvez até mais do que um bando de crianças com abóboras iluminadas à vela. A diferença é que uma vem do estrangeiro, com toda a pompa e circunstância de uma civilização que se autodenomina superior ( e que investiu e investe pesado para fazer o resto do mundo acreditar nisso), enquanto que os nossos representantes são tidos como ignorantes e mal vestidos.

A língua falada é o nosso idioma, a expressão sonora da nossa história, o que nos torna seres especiais, com capacidades de significar e significar-se. Através de nossa sonoridade trabalhamos a relação língua-discurso-ideologia. A língua portuguesa produz sentidos por e para os brasileiros. Mas não estou dizendo que nossa língua deva ser morta e estanque, afinal ela reflete o movimento das pessoas, que estão em constante relação com o mundo. O que proponho é uma reflexão maior acerca de nosso estilo e culto à vida.

Voltando a questão central, entre gay e guei, eu prefiro bicha, viado, pederasta, uranista ou sodomita. Pensando bem, acho que bicha pega bem e é a nossa cara. O Brasil possui mais de 8.500.000 de km² de área, onde cabem milhões de parques, banheiros públicos, saunas, bares e boates. Com tantos pontos de pegação, só mesmo uma, ou várias bichas prá dar conta, não é mesmo?

PS.: Gostaria de agradecer a assesoria sobre modernidade ofertada por Juliano Silveira. Obrigadíssimo!

 


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