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SALADA MIX

Por Paulo Reis dos Santos
re_pare@yahoo.com.br

Foto: L.C. Jeolás

A vida é a vida. Nós é que fazemos nossas escolhas*

Nasci em 1.956, e, neste ano, 2.006, completo 50 anos, meio século!
A moçada me chama de tio, de veio e confesso que, com todo este apelo à juventude disseminado pelos meios de comunicação, quando enfim assumo os quarenta, me chega os cinqüenta!

Na década de 70 eu ainda era uma criança e foi no final de minha infância que o golpe militar, fantasiado de revolução, atravessou a vida dos brasileiros.

É claro, eu não entendia direito o que estava acontecendo. Lembro-me de que no ginásio (atual ensino fundamental de 4ª a 8ª séries), as regras se alteravam o tempo todo. As notas, que eram mensais, passaram para bimestrais, antes de 1 a 10 pontos , passaram para conceitos de A, B, C, D ou E.

Várias foram as vezes em que, ao chegar na escola, as aulas haviam sido suspensas porque a direção havia recebido um telefonema denunciando uma bomba escondida em algum lugar.

Reverberavam pelo ambiente escolar a passeatas promovidas pelos estudantes, às vezes secundaristas, outras vezes universitários. E o que se dizia na época é que estas manifestações sempre acabavam em badernas.

Minha mãe pedia para eu tomar cuidado, mas eu era muito jovem para entender o que estava acontecendo e, conseqüentemente, me envolver de alguma maneira com aquela bagunça toda!

Eu 1.964, eu tinha oito anos de idade, e me lembro de filas enormes de pessoas doando brincos, anéis, pulseiras e correntinhas de ouro para a revolução. Em troca, o doador ganhava uma aliança com a inscrição “DEI OURO PARA O BEM DO BRASIL. {Há pouco tempo atrás, na feira de antiguidades do Bexiga (bairro paulistano) encontrei uma dessas relíquias, comprei-a e a tenho usado constantemente}”.

Tempos depois, ou concomitantemente, veio a onda de assaltos a bancos e depois dos seqüestros de gente importante. Contaram-me que era coisa de comunista!

Nos anos 70, já adolescente, ganhei uma vitrola portátil de minha mãe – não me recordo se no meu aniversário ou no Natal, só sei que ela me aproximou dos tropicalistas Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa. Foi nesta época também que aprendi a gostar de Maria Bethânia, Chico Buarque e Tom Jobim.

Nasci e me criei em Santo André, cidade do ABC Paulista, e na segunda metade da década de 70, começou a acontecer aos sábado, na praça da Igreja do Carmo, no centro da cidade, a Feira Hippie. Passei a freqüentá-la, e a partir daí, entrei em contato com um mundo povoado de pessoas “cabeça”, gente inconformada com a situação social e que de alguma maneira lutava para modificar a realidade.

Comentava-se que Chico Buarque se exilara na Itália, que Caetano e Gil haviam sido expulsos do pai e que agora moravam na Inglaterra. Aqui, meus amigos fumavam maconha (confesso que dei uns pegas também!), ouviam rock and roll e se aventuravam pelo litoral a procura do paraíso terrestre.

Lá fora aconteciam os festivais de rock como o Woodstock. Janis Joplin e Jimi Hendrix morriam de overdose, e, enquanto eu e meus amigos propúnhamos paz e amor assistíamos a liberdade se transformar numa calça velha azul e desbotada.

De Zuzu Angel pouco ou quase nada ouvi dizer nessa época, talvez que tinha morrido num acidente de automóvel na saída de um túnel no Rio de Janeiro, mas muita gente morria de forma estranha neste período. .

Na faculdade de comunicação, no final dos anos 70, início dos oitenta, enveredei pela leitura dos jornais alternativos da época: Lampião da Esquina e Opinião entre outros.

Lembro que meu professor de antropologia, ao me flagrar lendo um destes exemplares, me interpelou:
- Veja bem, quantos alunos temos aqui na sala, uns cinqüenta? ... E você é o único que lê esses jornais!
A partir deste diálogo, ele passou a ser o meu mentor intelectual, sugerindo leituras, textos, autores, e, sempre que possível, discutíamos a situação política do Brasil.

Diante de tudo isto, nutro em meu peito um sentimento saudosista por esta época. E foi com esta emoção que entrei na sala escura do cinema para assistir a Zuzu Angel.

Ao aparecer nas imagens iniciais fotos das manifestações estudantis dos anos 60, embalados pela música Vapor Barato, na época interpretada pela voz rascante de Gal Costa, meu coração deu um salto. O filme havia me ganhado e eu me entreguei totalmente, desligando a razão.

A trilha sonora, as locações e os figurinos me transportaram para um tempo perdido em minha memória. Nos anos setenta, o Brasil era um país que ira pra frente: o ritmo frenético da industrialização assim como a construção da Transamazônica era a concretização da promessa de modernidade.

Os militares que tomaram o poder para nos livrar da sanha sanguinária dos comunistas, aos poucos - e somente para aqueles que queriam ver e ouvir – mostravam a que vieram.

Na contramão do que acontecia no país, Zuzu Angel era uma estilista que buscava inspiração nas cores tropicais e folclore brasileiro, numa época em que a moda de qualidade era aquela vinda da Europa.

Tinha três filhos para sustentar, e não é que um deles Stuart Angel Jones, se junta aos movimentos populares que lutavam contra a ditadura militar! Ele é preso pela policia política e desaparece. A partir daí ela parte em busca desesperada para reaver o corpo de seu filho, usando de todo o seu prestigio angariado no mundo da moda.

A cena da tortura de Stuart é uma das mais viscerais que vi numa tela de cinema. E foi impossível conter as lágrimas quando esta mãe indignada ao enfrentar seus opositores proclama:
- Eu não tenho coragem, coragem tinha meu filho. Eu tenho legitimidade!

Em sinopse distribuída à imprensa pela produção, Zuzu era “Mãe impecável, artista reconhecida e profissional realizada, que carrega consigo uma única preocupação: o envolvimento de Stuart na militância contra o governo militar. O receio pela segurança do filho mostrou-se justificado quando Stuart foi preso pelos agentes do Centro de Informações da Aeronáutica, em 14 de maio de 1971”.

Começa assim a batalha pública da mãe de um desaparecido político – cuja tortura e morte não foram adminitidas pelos órgãos de segurança governamentais – para esclarecer as circunstâncias do desaparecimento e reaver o corpo do filho “.
Se este filme é bom ou não, enquanto produto cultural cinematográfico, eu não sei dizer. Que o façam os que se dizem especialistas no assunto.

Digo apenas que me emocionou profundamente e que me fez rememorar um tempo – feliz?! - de minha vida. Tempo este em que tomei consciência de que era um sujeito social, um ser humano com desejos, sonhos, projetos, e que se eu os queria ver realizados, eu teria que lutar – e muito!

Hoje, perto dos cinqüenta, olho minha trajetória de vida e sei que paguei o preço justo por aquilo que considerei correto. Se, na época da ditadura e dos movimentos sociais eu tivesse mais idade e um pouco mais de amadurecimento, provavelmente eu não teria sobrevivido para redigir este artigo.

Por isso gostaria de terminá-lo com um trecho da letra de Luiz Tatit para a música de Na Ozzetti intitulada Tempo Escondido:
...porque afinal
o tempo todo
o tempo tem
ou tem poder
ou tem pudor
ou tem poesia
o tempo gera
todo dia
um contraponto geral.

* Frase pronunciada por Stuart Angel Jones, filho de Zuzu Angel, no filme de mesmo nome, vivido por Daniel de Oliveira.

* Paulo Reis dos Santos é mestrando pelo GEISH - Grupo de Estudo Interdisciplinar de Sexualidade Humana da Faculdade de Educação da UNICAMP e Coordenador do Centro de Referência de Gays, Lésbicas, Travestis, Transexuais e Bissexuais da Prefeitura Municipal de Campinas.



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