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SALADA MIX

Por Paulo Reis dos Santos
re_pare@yahoo.com.br

Foto: L.C. Jeolás

Simpatia é quase amor*

Neste carnaval fomos, eu e meu namorado, para a baixada paulista, mais precisamente para a Praia Grande e adjacências.

No sábado à noite, fomos em um grupo ao quiosque da Cris, na praia de Itararé, próximo a Ilha Porchat. Logo de cara uma surpresa: o atendimento e as atendentes estavam mercadologicamente repaginados. As garçonetes, assim como a proprietária e sua namorada, estavam de uniforme e simpaticíssimas! Todas estampavam um sorriso burocrático em suas faces!

Cris veio e nos cumprimentou casualmente com um beijo na face, como quem recebe amigos em casa num fim de tarde qualquer. Era sábado de carnaval e o local, como todas as vezes que lá estive, estava bombando. Aguardamos alguns momentos por uma mesa.

Notei um clima de azaração geral e um ou outro casal se beijando, trocando carícias. Foi então que me lembrei que num reveillon, há alguns anos atrás, um casal gay, nosso amigo, foi repreendido pela proprietária, "pois os vizinhos não gostavam deste tipo de coisa e se insistissem com este comportamento poderíamos todos perder o nosso espaço". Peraí, nosso de quem, cara pálida?

O quiosque é um lugar público e se o dinheiro que engorda sua conta bancária sai do bolso de gays, lésbicas, travestis, transexuais e bissexuais, ela que aprenda a respeitar o consumidor que senta á sua mesa! E mais, eu lhe disse naquela ocasião que poderíamos armar um barraco e levar muita gente embora conosco, pois se é pra sentar, ficar comportadinho e gastar nosso aqué , poderíamos simplesmente fazer isto em qualquer outro quiosque da praia!

Logo a seguir, pagamos nossa conta e fomos embora. Mas voltamos outras vezes, ou sempre que íamos por aqueles lados e o atendimento sempre havia sido no mesmo nível. Desta vez foi diferente. Estávamos com amigos e o comentário de nossa mesa era o aprendizado mercadológico que a grana havia obrigado a proprietária daquele quiosque a ter.

Havia um cartaz anunciando para o dia seguinte a saída da Banda Colorida às 16 horas. Combinamos de participar, mesmo para quem nos últimos anos ferveu no Rio de Janeiro, este nosso carnaval estava bastante chocho e insosso!

Às 15h30 do domingo de carnaval o local já estava lotado, com algumas pessoas em pé. Ocupamos uma mesa no quiosque ao lado e eu comentei sobre a força do mercado e da grana que acaba por impor respeito à diversidade sexual. E como o movimento de pessoas de diferentes orientações sexuais terminam por se impor perante o mercado, pois nos quiosques vizinhos ao da Cris, a freqüência era majoritariamente, para não falar exclusivamente, de gays, lésbicas, travestis, transexuais e bissexuais.


O mesmo fenômeno aconteceu aqui em Campinas com o Sucão. Quando os gueis se apossaram do lugar o proprietário tentou impedir qualquer demonstração de afeto, mas foi derrotado pelo mercado, pois lésbicas e travestis passaram também a levar o seu aquésinho para os bolsos do dono, que acabou por fechar os olhos e abrir a caixa registradora. Hoje, nos finais de semana, a Praça Bento Quirino fica apinhada de gente, que toma uma ou outra cervejinha, e, conseqüentemente, impondo seu estilo de vida e afetividade para toda a vizinhança do local.

Naquele momento disse que estava pensando em sugerir ao editor da G Magazine uma matéria sobre este tema e que se rolasse uma grana eu mesmo poderia escrevê-la. Ficamos ali trocando figurinhas e observações sobre aquele espaço e como as pessoas vão chegando, se apropriando do espaço público e alterando a paisagem e o comportamento urbanos. Lembramos também de alguns teóricos que discorrem sobre este fenômeno social.

Foi quando nos demos conta do adiantado da hora e que a Banda Colorida já devia ter saído. Foi quando alguém da mesa ao lado disse que o carro de som estava preso no meio dos carros estacionados e que talvez a banda não saísse.

Meu namorado foi dar uma volta e ver o que estava acontecendo. Voltou alguns minutos depois dizendo que a Cris estava no alto do carro de som, agradecendo o carinho que tem recebido de seu público e que todos ali eram seus filhinhos. Depois de um tempo foi a minha vez de averiguar os fatos: um rapaz incitava ao microfone a população a levantar os carros que estavam atrapalhando a manobra e colocá-los na calçada. Voltei para a mesa, pagamos a conta e fomos nos divertir, a Banda Colorida estava finalmente saindo!

Do alto do carro de som Cris agradecia, emocionada, aos seus filhos todo o carinho recebido. Lembramos imediatamente do casal de bispos evangélicos, Sônia Haddad Moraes Hernandes e Estevam Hernandes Filho, fundadores da Igreja Apostólica Renascer em Cristo, que esqueceram de declarar à alfândega brasileira 56 mil dólares e por isso mesmo se encontravam detidos em Miami. Mas graças a Deus, ali estava uma de suas representantes a nos abençoar naquela tarde ensolarada de domingo de carnaval. Neste momento, os primeiros acordes do hino "Levantou Poeira" da “cantora gospel” Ivete Sangalo fez a pequena multidão elevar seus braços e balançar suas mãos agradecendo aos céus.

No meio daquela catarse coletiva, a “bispa Cris” em transe agradecia o fornecimento que o comerciante da casa, quitanda, loja de carne ou supermercado diante do qual o carro de som parava, havia feito e o quanto isto representava para a felicidade de seus filhinhos ali presente. Durante todo o cortejo, ela, como uma boa mãe, pedia a todos que se comportassem e permanecessem atrás do trio elétrico.

Depois de algum tempo, o séqüito entrou novamente na Avenida Presidente Wilson e ficou algum momento ali, embalando os corpos de seus seguidores com alguns sons celestiais sacolejantes de algumas “bandas gospel” bahianas.

Voltamos ao quiosque, que superlotou. Alguns minutos depois chegou a bispa Cris e sua esposa. Foram ovacionadas por um grupo de senhoras lésbicas que lhe pediram um discurso. Ela subiu numa cadeira e disse: "obrigado, eu só tenho a dizer obrigado". Aplaudida, desceu de seu pedestal.

E, ali mesmo, onde alguns anos atrás ela repreendeu o beijo apaixonado de um casal gay, ela beijou e foi beijada pela sua namorada. Emputecidos pagamos nossa conta, entramos no carro e fomos trepar, pois ser felizes era o que nos restava neste final de domingo de carnaval.

*É o nome do bloco mais simpático da zona sul carioca. Nascido às vésperas do carnaval de 1985, em meio à campanha pelas Diretas Já, o bloco SIMPATIA É QUASE AMOR, é sucesso desde seu primeiro desfile. Hoje carinhosamente chamado de “Simpatia” ou simplesmente “Simpa” arrasta uma multidão pela praia de Ipanema. Desfila pelas ruas do bairro no domingo anterior e no domingo de carnaval.

* Paulo Reis dos Santos é mestrando pelo GEISH - Grupo de Estudo Interdisciplinar de Sexualidade Humana da Faculdade de Educação da UNICAMP e Coordenador do Centro de Referência de Gays, Lésbicas, Travestis, Transexuais e Bissexuais da Prefeitura Municipal de Campinas.



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