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SALADA MIX Por
Paulo Reis dos Santos
O *Gay rico
e a *bicha pobre O processo de desenvolvimento urbano brasileiro, mais especificamente a partir das décadas de 50, com o começo da industrialização e abertura das grandes rodovias pelo país afora, provocou uma enorme concentração de recursos econômicos, políticos e culturais nos grandes centros urbanos do sudeste do país como São Paulo e Rio de Janeiro. O ciclo migratório para o sudeste maravilha (como dizia o Zeferino, personagem criado pelo cartunista Henfil, uma das primeiras vítimas famosas da AIDS no Brasil), e outras capitais, teve como conseqüência a superpopulação das maiores cidades industrializadas brasileiras, levando os migrantes a ocuparem as periferias e favelas, sofrendo toda sorte de privações de condições dignas de moradia, educação, alimentação, trabalho, saúde, etc. As nossas relações sociais se dão a partir de nossa inserção no meio em que estamos vivendo. Assim, conhecemos nossos amigos na escola, no trabalho, na vizinhança e por isso mesmo, terminamos por nos relacionar afetiva e sexualmente com pessoas que fazem parte dessa rede social, o que é importantíssimo para o desenvolvimento de nossa auto-estima. Isso também acontece com gays e lésbicas de classe média e com bichas, sapas e travas de classe baixa. Nas famílias de renda mais baixa e irregular, a falta de recursos financeiros provocam a retenção dos filhos na idade adulta, porque sua contribuição financeira é importante para a manutenção das despesas domésticas. Neste sentido, a sobrevivência econômica, tanto para o indivíduo quanto para família como um todo, depende da permanência das bichas, sapas e de certa forma de algumas travestis no âmbito familiar. Diante desta situação de proximidade e controle familiar sobre a vida das bichas e sapas, ter uma vivência social e erótica é bastante complicado. Por outro lado, gays e lésbicas de classe média ou alta, moradores nos grandes centros freqüentam bares, boates, saunas, teclam nos chats de encontros e, quando não possuem domicílios próprios, podem pagar motéis para extravasar suas necessidades erótico-sexuais. Já a dependência de gays e lésbicas de classes mais baixas de suas famílias dificulta a busca de parceiros do mesmo sexo. A relação de dependência entre as famílias pobres e suas bichas, abre espaços para uma tolerância mais efetiva, eu mesmo quando mais jovem, namorei um rapaz, e que em sua casa, muitas vezes transávamos e dormíamos juntos num quarto enquanto no quarto ao lado dormiam a mãe, a irmã e sua avó adoentada. Algumas das travestis que conheço me contaram que são respeitadas por suas famílias justamente porque ajudam financeiramente, isto quando não bancam a totalidade das despesas das casas dos pais. Além disto, todo mundo sabe que parques, praças e banheiros públicos são utilizados para encontros eróticos, e qualquer boa bicha sabe onde rola a pegação em sua cidade. Quem freqüenta estes locais em sua grande maioria são desempregados, subempregados, office boys e aposentados, no geral, de classe média baixa ou baixa. Já os gays da classe média ou alta caçam e dão vazão às suas necessidades eróticas em saunas, bares, boates e Internet. Embora alguns também façam incursões nos banheirões do terminal central I e II, do mercadão e Parque Taquaral. Foram os americanos que descobriram que gays e lésbicas, formavam um importante nicho de mercado a ser explorado, o que contribuiu para a construção de nossa imagem como consumidores vorazes de grifes, marcas, perfumes, acessórios e outras bobagens, assim como a de que casais homossexuais são o ideal mercadológico de qualuer marketeiro de plantão, pois possuem duas rendas e nenhuma criança. O lado perverso desta estratégia foi a de provocar a aceitação do gay branco, de atitudes comedidas, elegante, fino, de classe média como um modelo de cidadão aceitável a partir de sua conta bancária e a marginalização da bicha pobre, fechativa e “devassa” que não se encaixa nesse modelo consumista. Como conseqüência, nossos pais e familiares amam o casal gay André Piva e Carlos Tufvesson, mas odeiam as bichinhas póc-póc que fervem na praça Bento Quirino, em frente ao Sucão nos finais de semana, desmunhecando e requebando suas bundas de um lado para o outro! Quando se diz que não há preconceito contra homossexuais é somente em relação aos corpos dos gays e lésbicas que não denunciam a sua orientação sexual, que não incomodam. Já as bichas, sapas e principalmente as travecas escancaram em seus corpos o que são, mesmo porque não há como esconder um corpo masculino feminilizado ou um corpo feminino masculinizado, provocando incomodo e escândalo geral. A emergência do mercado cor de rosa ou do pink money sufoca as tensões sociais vivenciadas entre o gay rico e a bicha pobre. A predominância da conta bancária sobre o caráter pessoal gera maior marginalidade de grande parte da comunidade de gay, lésbica, travesti, transexual e bissexual. Corroborando com esta estratégia de mercado perverso, os dados apresentados pelo Grupo Gay da Bahia, vem nos mostrar que, em seu relatório sobre os crimes cometidos contra a comunidade glbt no Brasil, grande número de bichas, travestis e michês foram mortos em locais públicos – terrenos baldios, ruas, praças, etc, enquanto que gays e lésbicas foram mortos em seus próprios domicílios. Homofobia e discriminação social se cruzam e os indivíduos de classes mais baixas carregam o maior peso dessa realidade violenta. Uma possibilidade para a diminuição deste estigma e marginalidade impingido à gays, bichas, lésbicas, sapas, travestis, transexuais e bissexuais seria um maior engajamento político junto ao movimento de luta por direitos civis, o que , infelizmente é visto para aqueles gays e lésbicas de classes mais abastadas como um risco à sua segurança, pois esta atitude traria o desconforto da visibilidade à sua orientação sexual. Daí talvez se explique o baixo poder aquisitivo dos militantes dos grupos e as dificuldades que encontram para dar conta de todas as suas demandas por igualdade de direitos e o conservadorismo dos gays de classe média. As bichas são seres reais, que atravessam nossos caminhos o tempo todo, pois estão na vida: andam de ônibus, fazem compras na C &A e lojas Renner do centro da cidade e debocham de tudo. Já os gays são mau humorados e estão sempre com ar de enfado e nojo, parecem que não gozam nunca. Isto não significa que gays e bichas possuem lugares estanques na sociedade, não! Muitas vezes freqüentam os mesmo lugares, mas se portam de maneiras diferentes: uns fazem pose, as outras se divertem mais. *Uso aqui
as expressões gays, bicha, traveca, traves, lésbica, sapa,
sapatão como são usadas cotidianamente, para marcar o lugar
do preconceito e da exclusão que a linguagem coloquial reserva
para aqueles que possuem uma sexualidade alternativa. * Paulo Reis dos
Santos é mestrando pelo GEISH - Grupo de Estudo Interdisciplinar de Sexualidade
Humana da Faculdade de Educação da UNICAMP e Coordenador do Centro de
Referência de Gays, Lésbicas, Travestis, Transexuais e Bissexuais da Prefeitura
Municipal de Campinas.
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