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SALADA MIX

Por Paulo Reis dos Santos
pa_re@bol.com.br

Cidadania em descompasso


Nós, homens e mulheres somos frutos da rede de relações sociais em que estamos inseridos e, desta forma, masculino e feminino são os únicos gêneros que nos definem.

Esta normalização possibilita a necessidade social de estigmatizar fortemente todos aqueles que estejam fora dos padrões de normalidade estabelecidos. Reconhecer a existência da construção social de nossa identidade nos permite desconstruir as falsas representações que vêm legitimando preconceitos sociais muito arraigados no inconsciente coletivo.

A norma ou regra é ser heterossexual, classe média, branca e cristã. A família brasileira padrão é aquela mostrada nas propagandas de margarina. Papai se preparando para o trabalho e a mamãe organizando o café da manhã com um casal de filhinhos de uniforme de escola particular.

Mas olhando criticamente à nossa volta, quantos seres humanos brancos legítimos (estou falando de arianos, altos, loiros, de olhos claros) conhecemos? Quantos de nós têm uma formação de nível médio ou cursou uma faculdade e possui um emprego formal, com um salário de mercado e com holerite no final do mês? E quem de nós possui automóvel e casa própria?

E assim vamos percebendo que essa idéia de normalidade que nos foi passada através da família, escola, televisão e em nossas relações sociais não é tão real assim!

Além disso, os teóricos da sexualidade humana provam que os papéis sexuais desempenhados por homens e mulheres nem sempre seguem a lógica da heterossexualidade católica e procriativa do senso comum. Portanto, corpos, valores, desejos e práticas sexuais são noções experimentadas, construídas e subjetivadas individualmente.

Diante desta heterossexualidade compulsória (essa noção existe e permeia a nossa vida antes mesmo de nascermos), gays e lésbicas fazem parte da galeria de tipos que a sociedade tem para mostrar a seus membros que papéis sociais devem ser evitados. E pior, dentro desta lógica, as/os travestis são os diabos do povo, lembranças visíveis daquilo que não devemos ser e daquilo que não queremos ter por perto.

Olhando ao nosso redor, constatamos que a maioria das famílias brasileiras não possuem casa própria, que papai e mamãe nem sempre são casados de papel passado, que os pais muitas vezes são subempregados, que as mães - muitas delas - são arrimo de família, e que os filhos não são tão branquinhos quanto os do comercial da margarina na tv.

Por outro lado construímos nossa noção de cidadania através de nossas relações familiares, escolares e sociais, e, a partir dela, edificamos nosso projeto de vida e geramos interesses a serem defendidos. E assim criamos a idéia de responsabilidade social.

Neste contexto eu fico pensando nas ondas de exclusão a que as travestis estão expostas: sem formação escolar, sem formação profissional, sem vida social, sem acesso a vida cultural e religiosa da nossa cidade, etc., ou seja, vivem numa total falta de direitos, o que rebaixa sua auto-estima e as impede de construir suas cidadanias.

A exclusão social sofrida pelas travestis, principalmente por aquelas que são profissionais do sexo, provocam a perda da consciência sobre os seus direitos e deveres, causando uma impotência diante das agressões sofridas, sejam elas físicas, psicológicas ou morais. Na grande maioria das vezes a única forma de reação que elas encontram é com a própria violência E assim, a brutalidade sofrida e praticada vai constituindo esses seres sociais, que incorporam as experiências de diversas violências sociais.

Logo, por não reproduzirem o modelo dado pela heterossexualidade, são classificadas como anormais, marginais e criminosas, portanto devem ser eliminadas. Isso acaba gerando experiências de exclusões que vão configurando ações de violências que esfolam seus corpos e suas almas.

Penso que esta imagem criada em torno das travestis precisa ser revista urgentemente. Está mais que na hora das autoridades, formadores de opinião e pesquisadores sociais formularem propostas de ações solidárias e cidadãs de inclusão dessa população marginalizada, para que essas pessoas possam desfrutar dos mesmos direitos que são assegurados aos cidadãos comuns, de modo a terem as mesmas oportunidades e chances frente à vida.

 

* Paulo Reis é coordenador do Centro de Referência GLTTB de Campinas e fundador do Grupo Identidade.



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