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SALADA MIX Por
Paulo Reis dos Santos
Cidadania em descompasso
Esta normalização
possibilita a necessidade social de estigmatizar fortemente todos aqueles
que estejam fora dos padrões de normalidade estabelecidos. Reconhecer
a existência da construção social de nossa identidade
nos permite desconstruir as falsas representações que vêm
legitimando preconceitos sociais muito arraigados no inconsciente coletivo. Além disso, os teóricos da sexualidade humana provam que os papéis sexuais desempenhados por homens e mulheres nem sempre seguem a lógica da heterossexualidade católica e procriativa do senso comum. Portanto, corpos, valores, desejos e práticas sexuais são noções experimentadas, construídas e subjetivadas individualmente. Diante desta heterossexualidade compulsória (essa noção existe e permeia a nossa vida antes mesmo de nascermos), gays e lésbicas fazem parte da galeria de tipos que a sociedade tem para mostrar a seus membros que papéis sociais devem ser evitados. E pior, dentro desta lógica, as/os travestis são os diabos do povo, lembranças visíveis daquilo que não devemos ser e daquilo que não queremos ter por perto. Olhando ao nosso redor, constatamos que a maioria das famílias brasileiras não possuem casa própria, que papai e mamãe nem sempre são casados de papel passado, que os pais muitas vezes são subempregados, que as mães - muitas delas - são arrimo de família, e que os filhos não são tão branquinhos quanto os do comercial da margarina na tv. Por outro lado construímos nossa noção de cidadania através de nossas relações familiares, escolares e sociais, e, a partir dela, edificamos nosso projeto de vida e geramos interesses a serem defendidos. E assim criamos a idéia de responsabilidade social. Neste contexto eu fico pensando nas ondas de exclusão a que as travestis estão expostas: sem formação escolar, sem formação profissional, sem vida social, sem acesso a vida cultural e religiosa da nossa cidade, etc., ou seja, vivem numa total falta de direitos, o que rebaixa sua auto-estima e as impede de construir suas cidadanias. A exclusão social sofrida pelas travestis, principalmente por aquelas que são profissionais do sexo, provocam a perda da consciência sobre os seus direitos e deveres, causando uma impotência diante das agressões sofridas, sejam elas físicas, psicológicas ou morais. Na grande maioria das vezes a única forma de reação que elas encontram é com a própria violência E assim, a brutalidade sofrida e praticada vai constituindo esses seres sociais, que incorporam as experiências de diversas violências sociais. Logo, por não reproduzirem o modelo dado pela heterossexualidade, são classificadas como anormais, marginais e criminosas, portanto devem ser eliminadas. Isso acaba gerando experiências de exclusões que vão configurando ações de violências que esfolam seus corpos e suas almas. Penso que esta imagem criada em torno das travestis precisa ser revista urgentemente. Está mais que na hora das autoridades, formadores de opinião e pesquisadores sociais formularem propostas de ações solidárias e cidadãs de inclusão dessa população marginalizada, para que essas pessoas possam desfrutar dos mesmos direitos que são assegurados aos cidadãos comuns, de modo a terem as mesmas oportunidades e chances frente à vida.
* Paulo Reis é coordenador do Centro de Referência GLTTB de Campinas e fundador do Grupo Identidade.
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