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SALADA MIX

Por Paulo Reis dos Santos
re_pare@yahoo.com.br

Foto: L.C. Jeolás

Eu preciso do seu voto

Daqui a alguns dias milhões de brasileiros, maiores de dezesseis anos, estarão indo às urnas depositar seus votos e suas esperanças na construção de um país um pouco melhor do que temos hoje, nas urnas.

Dizem que este é um ato democrático e, tanto a propaganda do Tribunal Eleitoral, quanto outras, dizem que nós, eleitores somos o elo mais forte desta democracia, será?

Os livros de história nos contam que os gregos são os pais da democracia, mas eles se esqueceram de nos contar que na democracia grega havia escravos e as mulheres não eram cidadãs, portanto, não participavam da vida democrática de seu país!

E, pensando na nossa democracia, eu não me sinto confortável, após uma árdua semana de trabalho, ser obrigado, num domingo (lembram-se daquela estória de que Deus descansou no sétimo dia? Democraticamente nós também merecemos o nosso descanso semanal, não é?) talvez de sol, talvez de chuva, a sair de casa, para depositar meu voto por alguém que diz que vai me representar na Câmara, na Assembléia, no Senado ou na Presidência.

Gostaria de ter o poder, em primeiro lugar, de optar entre votar ou não. Isso seria o começo da democracia, pois aí sim, eu queria ver neguinho na tv fazendo minha cabeça para sair de casa “voluntariamente” para elegê-lo a algum cargo.

Você já prestou atenção nos candidatos que pedem nossos votos no horário eleitoral gratuito? Olhando somente na cara dos fulanos e fulanas, você confiaria em qual deles para tomar conta de sua casa? De sua vida? De seu destino?

Vivemos um tempo de incertezas e eu prefiro a dúvida. Desconfio das intenções dos candidatos a cargos públicos com planos megalômanos, com discursos messiânicos de salvação para as vidas desgraçadas e desafortunadas de milhões de pobres coitados que vivem à margem da sociedade de consumo, sem trabalho, sem educação, sem moradia.

Dos enviados de Deus então, eu diria o mesmo que painho: Afff Maria!
E por falar nisso, me lembrei da matéria do jornalista Roldão Arruda, do Estado de São Paulo, que no mês passado demonstrou que das 90 pessoas (parlamentares, promotores da justiça, pecuaristas, militares, médicos, prefeitos, entre outros) notificados pela CPI dos Sanguessugas – aquela da compra de ambulâncias hiperfaturadas – 62 são parlamentares.

Dos 62 parlamentares envolvidos neste escândalo, 30 são bispos da bancada da Frente Parlamentar Evangélica. Todos se elegeram brandindo a bandeira da moralização das Câmaras, Assembléias e Senado, acusando a política de ser um espaço demoníaco e que a eleição de homens de Deus iria exorcizar estes espaços.

17 dos 18 representantes da Igreja Universal do Reino de Deus estão na lista divulgada pela CPI. A Assembléia de Deus aparece com 09 nomes. A Igreja do Evangelho Quadrangular aparece com dois e a Internacional da Graça de Deus e a Batista com um parlamentar citado cada uma.

Tem sido constante o envolvimento dos evangélicos nos últimos escândalos financeiros envolvendo políticos: Manoel Moreira (PMDB-SP), da Assembléia de Deus, em 1993 apareceu com um dos mentores do escândalo dos deputados que enriqueceram manipulando emendas orçamentárias. O bispo Carlos Rodrigues (PL-RJ), foi apontado como um dos articuladores do esquema do mensalão, seu nome também apareceu nas CPIS dos Bingos e dos Correios e novamente seu nome foi citado no esquema dos Sanguessugas.

Diante de tantas evidências, a Igreja Universal do Reino de Deus tem rebatido, dizendo aos seus fiéis que “a presença do demônio é tão forte no Congresso que até homens enviados por Deus sucumbem!!”

Há alguns números atrás, a revista Superinteressante publicou matéria onde dizia que nós, homossexuais, temos 37 direitos negados pela legislação brasileira: Não podemos casar, não podemos adotar filhos juntamente com nossos parceiros, não podemos declarar imposto de renda em conjunto, não podemos incluir nossos parceiros em nossos planos de saúde e não podemos doar sangue, entre outros.

Segundo o GGB – Grupo Gay da Bahia, a cada dois dias um homossexual é barbaramente assassinado no Brasil. Para reverter este quadro, precisamos de políticos comprometidos com nossa vida, que respeitem a nossa orientação sexual e nossas escolhas afetivas.

Não estou aqui para fazer campanha a favor de nenhum candidato, mas há um monte deles comprometidos com a discriminação que sofremos diariamente em casa, na rua, no trabalho, na escola, e não é de hoje que batalham para que a lista destes 37 direitos diminua.

Há, nas gavetas da Câmara dos Deputados em Brasília o projeto de Parceira Civil para ser votado, assim como o projeto que transforma a homofobia – ódio ou aversão a homossexuais (causa de muitos assassinatos, mutilações e estupros) - em crime inafiançável.

Como não sou cabo eleitoral de nenhum candidato, pergunto-lhe apenas: você acha que os candidatos evangélicos, de partidos que a gente nem sabe o nome e nem qual ideologia apregoam, se eleitos, serão a favor de leis que diminuam o número dos direitos que nos são negados?

Sabendo que as igrejas evangélicas nos demonizam, nos exorcizam e nos condenam ao inferno constantemente em seus cultos, você acredita que os candidatos evangélicos nos respeitarão como políticos ?

Já que nos obrigam a votar, votemos em quem – minimamente - se comprometa com os direitos e a vida de milhões de gays, lésbicas, travestis, transexuais e bissexuais deste país “abençoado por Deus e bonito por natureza!”.

* Paulo Reis dos Santos é mestrando pelo GEISH - Grupo de Estudo Interdisciplinar de Sexualidade Humana da Faculdade de Educação da UNICAMP e Coordenador do Centro de Referência de Gays, Lésbicas, Travestis, Transexuais e Bissexuais da Prefeitura Municipal de Campinas.



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