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SALADA
MIX
Por
Paulo Reis dos Santos
pa_re@bol.com.br
Do lado debaixo
do equador
Fomos colonizados
pela escória de Portugal, que aqui chegando encontraram um terreno
fértil à prevaricação desenfreada, seja com
as índias e índios que exibiam, ingenuamente, seus corpos
bronzeados e depois com as negras e os negros trazidos do continente africano.
- Já pensou na quantidade de libido que aqueles corpos suados e
amontoados durante os trinta/quarenta dias de viagem nos porões
dos navios negreiros exalavam ?
A raiz da hipocrisia moral do brasileiro está fundada na liberdade
do uso dos corpos de homens, mulheres e crianças, livres dos preconceitos
da cultura cristã européia somadas as libertinagens dos
colonizadores católicos - hierarquicamente superiores aos índios
e negros.
Hoje trepa-se neste país em todos os lugares, de todos os jeitos
e a qualquer hora do dia e da noite. Em contraposição, a
igreja proíbe as relações sexuais antes do casamento
e todos nós nos declaramos monogamicamente fiéis.
Ao largo do discurso cristão, católico/evangélico
machista latinoamericano, os boletins epidemiológicos do Programa
Nacional de DST/AIDS mostram o crescimento dos casos de infecção
de mulheres casadas e monogâmicas que contraíram o vírus
HIV dos seus maridos (que também se declaram fiéis e heterossexuais
!)!
Contradizendo o que prega o santo papa Bento XVI (abstinência sexual
antes do sacramento do casamento), o bispo Edir Macedo e outros enviados
por Deus para cuidar dos corpos e das almas dos brasileiros, o número
de jovens - cada vez mais jovens - grávidas, dão conta da
realidade sexual do brasileiros. Nosso caráter sexual é
ambíguo, e praticamos uma coisa e nossa fala aponta para outro
lo lado oposto.
As travestis gritam para quem quiser ouvir que a maioria de seus clientes
são homens casados, e que invariavelmente pagam para que elas enfiem
seus paus em seus cus.
Do Oiapoque ao Chuí, em todos os banheiros públicos deste
pais, homens se olham medindo seus paus, pegando nos paus uns dos outros
e muitas vezes chupando-se mutuamente, realizando suas fantasias quando
não há vigilantes de plantão!
Nas saunas gays, executivos de empresas nacionais ou multinacionais, realizam
"trabalhos externos" uns fudendo os outros, ou pagando para
que miches os fodam. Outros preferem participar de “reuniões
com fornecedores" (ou será fornicadores?) fora dos escritórios,
nas salas de bate papo, a qualquer hora do dia ou da noite, em qualquer
dia da semana, milhões de "Kasados afim", “iniciantes”
e “ativassos” procuram parceiros para aventuras sexuais anônimas
e seguras.
E toda esta clandestinidade sexual, em nome de uma discurssividade heterosexista,
acaba colocando a homossexualidade no limbo, vulnerabilizando ainda mais
os gays.
Apesar de toda esta permissividade sexual, e de uma liberdade no uso de
corpos masculinos, o discurso que prevalesse é o do modelo heterossexual,
casado, branco, pai de família e de classe média.
Ao negar a sua orientação sexual para ser aceito por esta
sociedade hipócrita, o homossexual se vulnerabiliza. Ao desqualificar
a sua essência, ele assume para si que é um pervertido, um
pecador, um doente, incapaz de alcançar a realização
e a felicidade. Desta maneira ele aniquila sua auto-estima, fazendo o
jogo do poder e naturalizando a sua inferioridade perante os outros “normais”!
Quando um homem ousa sentir/procurar prazer sexual com outro homem, indo
na contra mão da discursividade machista e hipócrita, ele
atrai para si a intolerância e o olhar acusativo dos outros.
Desta forma, ao optar por um comportamento sexual clandestino, o homossexual
se coloca a mercê de diversas formas de violência: extorsões
de miches, desejos realizados apressadamente - o que dificulta o acesso
e uso do preservativo, inúmeras formas de violência praticadas
por policiais, vizinhos, grupos de skinheads, etc.
O caminho da verdade pode libertar o sujeito, redimindo-o de suas culpas
e auto-negações o que direciona-o a forjar-se como personagem
subjetivamente íntegro e socialmente integrado, ou adaptado, aos
seus papéis políticos.
O interesasante não é temer os riscos de ambos os lados
do armário, mas procurar evitá-los, inspirando-se nas lições
de ousadia, liberdade e criatividade que afinal são tantas, acima
e abaixo do equador.
* Paulo Reis dos
Santos é mestrando pelo GEISH – Grupo de Sexualidade Humana
da Faculdade de Educação da UNICAMP e Coordenador do Centro
de Referência de Gays, Lésbicas, Travestis, Transexuais e
Bissexuais da Prefeitura Municipal de Campinas
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