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SALADA
MIX
Por
Paulo Reis dos Santos
pa_re@bol.com.br
O enrustimento é uma merda
Minha formação cristã
me dotou de alguns conceitos que interferiram em meu comportamento de
maneira bastante singular e contraditória: em alguns momentos me
preservou de situações de risco, em outras me fez intolerante
e preconceituoso.
Como homossexual, fui colocado pela mentalidade maniqueísta e cristã,
à margem da vida social. Durante toda a minha adolescência
me sentia pertencente ao lado podre da sociedade. E, assim, vivi de maneira
marginal a minha sexualidade, negando por um longo período de minha
vida meus sentimentos e o que realmente era.
Com o passar do tempo descobri que o sentimento de culpa e pecado que
nos oprimem, são criados pelos mesmos fatores sociais que nos levam
a nos ocultar. O preconceito e a discriminação que sofremos
diariamente são nocivos ao nosso bem estar social e psíquico.
Para sobreviver ao massacre cotidiano, os homossexuais criaram os guetos,
que são locais onde as pressões sociais são deixadas
de lado e novos valores são desenvolvidos. Não faço
apologia do gueto, mas é nesses locais que temos mais condições
de nos assumir e testar uma nova identidade social, elevando e fortalecendo
assim a nossa auto-estima. Uma vez estruturadas nossa identidade homossexual,
adquirimos coragem para assumi-la em âmbitos menos restritos e,
assim, podermos vir a ser conhecidos como gays ou lésbicas em todos
os lugares que freqüentamos diariamente (claro, respeitando o tempo
e a necessidade interior de cada um).
Quando convivemos com nossos iguais, criamos uma visão de mundo
específica e passamos a pertencer a um grupo particular de pessoas,
que é o de todos aqueles que compartilham do mesmo modo de pensar
e de agir. Assim, aprendemos a vivenciar modos de vida e preocupações
diferentes da maioria das pessoas.
Lembro-me do deslumbramento que senti ao pisar pela primeira vez em uma
boate: Homens se beijando e mulheres trocando caricias despudoradas em
público! Afetos e desejos explodindo voluptuosamente diante de
meu olhar catatônico! - Passado o momento inicial, descobri que
é possível amar e ser amado por alguém do mesmo sexo
biológico que o nosso. Como me fez bem descobri e adentrar no maravilhoso
mundo do gueto homossexual nos idos dos anos 80!
Muito tempo depois descobri o quanto à homossexualidade tem de
revolucionário. Primeiro porque nadamos contra a corrente ao desejar
alguém do mesmo sexo biológico que o nosso. E quem não
se afoga neste mar de incompreensão social se fortalece como sujeito
de sua própria história.
Olhando por esse ângulo, a homossexualidade é um poderoso
canal de transformação pessoal, pois coloca o ser humano
em contato consigo mesmo. Gays e lésbicas, se angustiam, se questionam,
se desesperam, se assumem, enfrentam uma sociedade heterossexista e assim
se fortalecem enquanto indivíduos.
Ao se transformarem, os homossexuais revolucionam a sociedade ao espelhar
a capacidade dos seres humanos de amarem desprovidos de amarras. E lutam,
e muito, incessantemente lutam pelo direito de amar e ser amado. E de
ver essa capacidade de amar ser respeitada pelo resto da sociedade.
Apesar da dor e do sofrimento, estar inteiro no mundo é uma das
coisas mais saborosas da vida. Por isso, tenho penas dos enrustidos, dos
que se escondem, dos que sofrem por não se adequarem ao que a sociedade
dita como regra. É deplorável este sentimento e atitudes
de auto-negação. Por isso, concordo com João Silvério
Trevisan: "O enrustimento é uma merda!".
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