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SALADA MIX Por
Paulo Reis dos Santos
O próximo,
por favor! Mais desgraçados ainda, do que aqueles que estão em fila desde a noite anterior, são os cidadãos de bem, que se arrogam no direito de extorquir os direitos daqueles a quem servem ! Jogando-os de um balcão a outro, de um guichet a outro de um andar a outro! E se este desrespeito tamanho é o que a heterossexualidade arrogante deste Brasil destina aos seus velhos e doentes, qual o futuro que aguarda os jovens gays, lésbicas, travestis, transexuais e bissexuais desta nação? Toda juventude é transitória e não importa se o corpo em que ela habita é de um viado, de uma sapa, de uma traveca, de um skin head ou de uma patricinha. A diferença é que alguns tem grana suficiente para retardar os efeitos físicos desta transformação cronológica. Ao evoluir, o homem criou a sociedade de consumo que a tudo massifica em nome do status. Hoje, ao entrar numa boate, nos deparamos com jovens uniformizados de cabelos espetados com gel, roupas de grifes (mesmo quando falsificadas!) balançando seus corpos esculpidos em academias e adornados por tatoos. Enquanto isso nas salas de bate-papo, muitos são escorraçados quando ousam dizer que já passaram dos 35, 40 anos. Não quero fazer apologia da terceira idade, pois a passagem do tempo deixa marcas profundas não só em nossos corpos, mas também em nosso íntimo. Como ela é desrespeitada constantemente no convívio social, acabamos por naturalizá-la e não nos respeitarmos também, quando entramos nos “enta” (quarenta, cincoenta, etc.), e isso independe da orientação sexual. Em tempos de aids, hepatite, seqüestros, boa noite cinderela, grupos de extermínio, skin heads e homofobia generalizada, ser um ou uma homossexual com mais de 35 ou 40 anos já é de se espantar. Se for alguém que tenha uma vida social saudável e esteja de bem com a vida então, é de cair o queixo. Eu fico imaginando o tamanho da dívida social que todos nós, cidadãos brasileiros devemos a estas pessoas, por todo o constrangimento, humilhações e discriminações que passaram em suas vidas para chegarem até aqui. A dor e o sofrimento imposto àqueles que optaram pela contramão social imposta pela heterossexualidade precisa ser cada vez mais escancarada e respeitada. Por menor que seja a aceitação social que a homossexualidade possui hoje é aos velhos que a juventude deve isso. E se os jovens gays e lésbicas tem espaços de convivência social comerciais (bares e boates) é porque um punhado de gente morreu das porradas que levaram de policiais, de filhinhos das classes médias e de AIDS. E esse caminho trilhado por um punhado de gente que ficou para traz, é conhecido hoje graças a alguns poucos abnegados escritores e cientistas sociais que se debruçaram sobre a nossa história escrita nos guetos e no desamparo e as relatam em livros primorosos.. E nesse sentido, a história oficial tem um dívida incomensurável com as travestis, mascotes oficiais de nosso carnaval, cujas figuras estampamos nas capas de revistas em fevereiro e cujos rostos escondemos e corpos sufocamos no restante do ano. Mas, voltando ao começo,
se as filas são o destino dos velhos e doentes heterossexuais,
aos gays, lésbicas, travestis, transexuais e bissexuais resta apenas
o limbo dos becos escuros ou a umidade das sarjetas no final da vida.
E isso se ainda estiverem saudáveis! * Paulo Reis dos
Santos é mestrando pelo GEISH – Grupo Interdisciplinar de
Sexualidade Humana da Faculdade de Educação da UNICAMP e
Coordenador do Centro de Referência de Gays, Lésbicas, Travestis,
Transexuais e Bissexuais da Prefeitura Municipal de Campinas.
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