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SALADA MIX

Por Paulo Reis
re_pare@yahoo.com.br

Foto: L.C. Jeolás

Mas a vida anda louca ...

Depois de alguns anos, tirei férias de trinta dias corridos de meu trabalho. 2007 fora um ano tão estressante quanto gratificante: trabalho, projetos, estudos, família, namorado.

Saio de férias e levo na bagagem o livro reportagem "Dias de Ira”, de Roldão Arruda. Desde seu lançamento estava com vontade de lê-lo, mas só agora é que me dispus a fazê-lo. Em suas 285 páginas o jornalista descreve uma série de assassinatos de homossexuais que aconteceram na cidade de São Paulo em 1986. Foram mais de treze crimes que levaram a polícia a apostar na existência de um serial killer.

Durante as investigações um garoto de programa foi preso, confessou alguns crimes e foi levado a julgamento. Mas Roldão Arruda criativa e corajosamente jogou luz sobre as vitimas. Ele vai nos mostrando quem foram, como viviam e como morreram. Narra também a caçada ao assassino, sua prisão e julgamento, desmontando os argumentos da acusação. Com um texto ágil, o autor nos envolve num suspense característico dos trillers policiais.

Impactado ainda com a leitura recém terminada de Dias de Ira, abro minha caixa de e-mails e me deparo com centenas de mensagens, entre elas vem a triste notícia de um assassinato de pessoas glbts a cada dia, especialmente de travestis, acontecido no Brasil no mês de janeiro de 2008.

O mundo está violento, e no que se refere a crimes praticados contra gays, lésbicas, travestis, transexuais e bissexuais, Luiz Mott vem demonstrando isto com o levantamento realizado anualmente pelo GGB, que contabiliza inúmeros assassinatos divulgados pela mídia e por militantes. No entanto, apesar da grande visibilidade alcançada com as mais de uma centena de Paradas do Orgulho sendo realizadas pelo Brasil afora, somos exterminados da forma mais brutal.

E quando o assunto é travesti, então, aqueles que dizem não entender, mas respeitar as diferenças, exibem displicentes uma certa ironia na voz e no olhar. Sendo assim, o que se esconde no deboche? Manifestação inconsciente, condicionada pelo que sempre foi visto como caricatura e percebido como ridículo? No entanto, ao mesmo tempo em que suscita tais atitudes, esse assunto nos faz lembrar das tragédias das expulsões, espancamentos e assassinatos.

Por que algo tão corriqueiro como um sujeito gay, lésbica ou travesti andando pelas ruas da cidade, suscita tantas tragédias silenciosas e silenciadas socialmente?

Em quase dez anos de militância foram muitos os assassinatos de travestis que tive noticia, e outro tanto de gays e lésbicas. Mas não me lembro de nenhum assassino que tenha sido preso e condenado. Fiquei pensando nisto por um bom tempo, pensei em escrever, qualquer dia, um artigo com estas reflexões...
Ao retornar das férias, encontro em minha secretária eletrônica um pedido de socorro de um amigo. Ligo e descubro que ele e o namorado foram agredidos e um grupo de homens enraivecidos invadiu o prédio em que moravam, aqui no centro de Campinas, com armas de fogo e facão. Enlouquecidos eles se diziam machos e que iriam acabar com aquela viadagem.

Historicamente, a mulher foi considerada um homem imperfeito e seu corpo foi rejeitado, enquanto ao corpo masculino foi conferido o status de perfeição. Antagonizando o feminino e o masculino, as estruturas sociais provocaram desigualdades entre as condições de vida do homem e da mulher; conseqüentemente, terminaram por estigmatizar os não-homens, em outras palavras, os homossexuais e mais especificamente as travestis, que incorporam e exibem publicamente um corpo híbrido, onde masculino e feminino se mesclam.

Vemos assim que a travesti faz parte das engrenagens de um jogo que muitos assistem como se tratasse de um fenômeno absolutamente irrelevante, o que faz com que o preconceito se abata sobre ela sem qualquer atenuante.

Na tarde de domingo passado, 10 de fevereiro, o telefone toca, era minha chefe, me comunicando o assassinato de mais uma travesti na cidade de Campinas e pergunta se eu sabia de alguma coisa. Eu não sabia. Estava em casa, preparando-me para um lanche, que, afinal, caiu indigesto. Dei alguns telefonemas e descobri o acontecido.

Um homem entrou em seu apartamento e lhe deu um tiro no rosto. Segundo um informante o assassinato chegou, subiu e desce em pouco mais de 10 minutos, não se sabe se era um cliente. Sabemos apenas que uma jovem travesti de 19 anos deixou de existir, ou melhor, passou a existir apenas nas estatísticas oficiais sobre violência urbana. Restando apenas pressionar a policia civil para que apure os fatos e prenda o homem que aparece na fita do circuito interno de vídeo do condomínio em que ela morava.

Novamente a internet me atualiza, contando que segunda feira, 11/02, um grupo de rapazes invadiu a sede da Associação da Parada do Orgulho GLBT, que fica no centro velho da cidade de São Paulo. Espancaram o seu presidente, o querido Xande, que até onde pude apurar estava hospitalizado, levaram, segundo e-mails das listas, R$ 4.500,00, deixando o presidente da maior Parado do Orgulho GLBT do planeta dopado e amarrado aos pés de uma mesa.

Chego em casa e no inicio da noite toca novamente o telefone. Do outro lado da linha um militante me informa que acabara de ouvir pela rádio CBN a notícia de um outro assassinato de travesti na periferia da cidade, desta vez ela foi morta com uma pedrada na cabeça (ao lado de seu corpo fora encontrada um pedra com mais ou menos 5 quilos manchada de sangue).

Refletindo sobre estes fatos, constato que é através dos jogos sociais, e na dinâmica de sua interação com outros atores como pai, mãe, colegas, professores, vizinhos, parentes, etc., que o menino aprende que ser homem é ser diferente da mulher e, sendo diferente, a desejá-la. Em outras palavras, que é necessário desvincular-se do modelo feminino em si. Assim a mulher torna-se o centro da rejeição, transforma-se num inimigo interior que deve ser combatido sob pena de, ao ser associado a uma mulherzinha, ser mal tratado.
Portanto o menino assimila que há uma necessidade masculina interior de se distinguir dos fracos, das mulherzinhas e dos "veados", ou seja, daqueles que são considerados como não-homens. E assim também vai aprendendo a desejar o não homem, o feminino. Em outras palavras, ela subjetiva que desejar sexualmente o feminino é o correto, mas que deve rejeitá-lo em seu próprio corpo.

O ano mal começou e o triste espetáculo do extermínio de glbts já esta nas ruas. Gays ameaçados com armas de fogo e facões, policiais aplicando spray de pimenta no anus das travestis que se prostituem nas ruas do Bosque, travesti levando tiros na cara em sua residência.

Fico pensando se algum repórter investigativo um dia contará a história de vida destas tristes vítimas do preconceito e da intolerância. Tomara que no futuro surja novos Roldões Arrudas, que relatem para gerações futuras os tristes dias de ira que gays, lésbicas, travestis, transexuais e bissexuais viveram no ano de 2008 da era Cristã.

Ta difícil ser cidadão. Ta difícil acreditar na justiça. Ta difícil engolir esse nó na garganta. Ta difícil não se indignar. Ta difícil cruzar os braços e fingir que não está acontecendo nada ao nosso redor. Ta difícil ignorar a violência que nos atinge diariamente. Ta cada vez mais difícil...

Desolado, coloco GALBOSSATROPICAL no cdplayer, sua voz cristalina quebra o silêncio, servindo de trilha sonora para uma lágrima que passeia pelo meu rosto:

...
Mas a vida anda louca
As pessoas andam tristes
Meus amigos são amigos de ninguém
Sabe o que mais quero agora, meu amor?
Morar no interior do meu interior,
Pra entender porque se agridem
Se empurram pro abismo
Se debatem se combatem sem saber.
Meu amor
Deixa eu chorar até cansar

...

* Paulo Reis dos Santos é mestrando pelo GEISH - Grupo de Estudo Interdisciplinar de Sexualidade Humana da Faculdade de Educação da UNICAMP e Coordenador do Centro de Referência de Gays, Lésbicas, Travestis, Transexuais e Bissexuais da Prefeitura Municipal de Campinas.



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