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SALADA MIX

Por Paulo Reis
re_pare@yahoo.com.br

Foto: L.C. Jeolás

O último Close de Cinthya

Entre 2003 e 2004, o IDENTIDADE desenvolveu o projeto Cidadania na Pista, coordenado por Janaína Lima. Financiado pelo Programa Estadual de DST/AIDS este tinha o objetivo de trabalhar a ressocialização de um grupo de travestis da cidade de Campinas.

Foi numa de suas primeiras reuniões que conheci Cinthya Close. Uma senhora com mais de meio século de vida. Elegante. Feminina. Educada. Foi uma participante das mais ativas daquele grupo formado por cerca de 20 travestis, às vezes este número ultrapassava as estimativas propostas pelo Projeto.

Elas discutiam questões ligadas à cidadania, direitos humanos, violência. Reuniam-se em almoços comunitários, churrascos e passeios por lugares turísticos da cidade. Foram ao cinema e ao teatro.

Desde 2.000 no mês de junho, os grupos organizados da cidade realizam diversas atividades comemorativas ao orgulho de gays, lésbicas, travestis, transexuais e bissexuais. Em 2004, decidiu-se que algumas travestis participantes do projeto Cidadania na Pista iriam coordenar as mesas da III Conferência Municipal LGTTB.

Lembro-me de ver Cinthya Close chegar com um vestido preto e um xale obre os ombros, cabelos meticulosamente arrumados, boca vermelha e óculos de leitura. Uma senhora de tempos passados, uma preceptora, uma lady adentrando o espaço cerimonioso do Salão Vermelho da Prefeitura Municipal de Campinas numa manhã gelada de junho.

Cinthya foi uma das mais entusiásticas usuárias do Centro de Referência GLTTB. Quando do lançamento da Carteira de Identificação das Travestis e Transexuais ela declarou a um dos jornalistas que agora ela via a possibilidade de ser respeitada enquanto cidadã. Assim, freqüentou diversas oficinas que realizamos. Depois encontrei-a em diferentes momentos importantes para os gays, lésbicas, travestis, transexuais e bissexuais da cidade.

Em 29 de Janeiro - Dia Nacional da Visibilidade das Travestis - de 2005, em comemoração realizada no Programa Municipal de DST/AIDS ela brindou os presentes com uma dublagem, onde declarava: "Travesti, meu bem, é glamour".

Em 03 de julho de 2006, na inauguração da exposição de fotos do fotógrafo L. C. Jeolás, intitulada: "O que você suporta conhecer?", comemorativa do 3º aniversário do CRGLTTB, Cinthya Close nos ofereceu uma outra performance para marcar a data. Ela era assim, solidária aos nossos convites para apresentações.

Em meados de 2007 fiquei sabendo que ela estava internada no Hospital Municipal Dr. Mário Gatti com pneumonia. Ao receber alta passou uns tempos na casa de amigos, se recuperou e retomou sua vida. Tempos depois recebo a notícia de que estava novamente debilitada, com problemas de saúde. Denise Martins a levou para sua casa, cuidou dela com desvelo.
Numa tarde toca o telefone e do outro lado da linha era ela, dizendo que gostava muito de mim e das técnicas que trabalham no CRGLTTB. Não entendi aquele telefonema. Tempos depois fiquei sabendo que ela estava tomando diversos medicamentos e que isto estava afetando sua saúde mental.

Meses depois ela nos surpreende com sua visita. Estava novamente na área, cuidando de sua vida como podia. Nos contou de suas desventuras, de sua convalescença, do apoio d@s amig@s.

Assim fico sabendo um pouco mais de sua história. Era santista, chegou à Campinas na década de 80, morou na casa de algumas cafetinas, ganhou dinheiro, perdeu dinheiro. Biografia idêntica a de tantas outras travestis recheada de exclusão, abandono, sofrimento, solidão, violência física e psicológica.

Muito tempo depois a voz de Janaína Lima, gravada em minha secretária eletrônica me informa do falecimento de Cinthya Close, em decorrência de um enfarte, na tarde de segunda-feira, 03 de março. Ela estava internada no Hospital Municipal Dr. Mário Gatti, desde a semana anterior, em por conta das complicações do vírus HIV. Algumas pessoas que a visitaram disseram que ela estava passando bem no domingo, e que talvez recebesse alta logo.

Na manhã do dia seguinte encontro seu corpo sendo velado pelo seu companheiro no necrotério do Cemitério dos Amarais. Foi a única vez em que vi seu marido. Lágrimas escorrendo pelos olhos, as grandes mãos secando-as. Inconsolável em sua tristeza e solidão, ele balbuciava o quanto ela estava bonita.

Imediatamente lembrei-me de um texto antigo, num comentário sobre o assassinato de Shaiane, eu dizia que ninguém chora pela morte de uma travesti. Mas o impacto de ver aquele homenzarrão chorando me fez ver que as travestis também possuem a capacidade humana de serem objetos de amor incondicional. Pouco ou quase nada sei da vida amorosa de Cinthya, mas a partir daquela demonstração fiquei sabendo que ela foi amada, e muito!

Éramos cerca de vinte pessoas quando adentrou um senhor de cabelos brancos se dispondo a orar pela alma daquele corpo adormecido naquele caixão de madeira barata. O tempo todo ele tratou Cinthya pelo seu nome masculino. Achei um desrespeito, mas não me dispus a contestá-lo.

Ele estava ali para encomendar aquela alma e entre as pérolas que desfilou, nos disse que "Deus respeita a vontade de seus filhos, até na hora da morte". Apazigüei meu coração ao saber que o Senhor respeita a vontade de Silvio em construir seu corpo e sua vida como Cinthya.

Este senhor também nos fala sobre a diferença entre "abençoar", desejar o bem e "amaldiçoar", que é o contrário. Foi assim que pensei que abençoad@s sejam tod@s aquel@s que assumem todas as suas verdades, correndo todos os riscos e prazeres. Amaldiçoados sejam tod@s aquel@s seres com corações e mentes mesquinhos, recobertos pelo preconceito.
Nos momentos finais deste velório, alguém lembra que o Cemitério dos Amarais é para os pobres e indigentes. Olho pela última vez para dentro daquele caixão vagabundo onde, cercado de flores brancas, o corpo de Cinthya deu seu último Close.

* Paulo Reis dos Santos é mestre pelo GEISH – Grupo de Sexualidade Humana da Faculdade de Educação da UNICAMP e Coordenador do Centro de Referência de Gays, Lésbicas, Travestis, Transexuais e Bissexuais da Prefeitura Municipal de Campinas.


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