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SALADA MIX

Por Paulo Reis dos Santos
re_pare@yahoo.com.br

Foto: L.C. Jeolás

Existimos

O presidente Ahmadinejad proferiu seu discurso na Universidade Columbia, em Nova York, em 24 de setembro, entre outras coisas disse: “No Irã nós não temos homossexuais como em seu país. No Irã, nós não temos esse fenômeno.”

Sociólogos e outros analistas que aceitaram falar anonimamente disseram que o presidente foi claramente pego de surpresa e argumentaram que foi melhor para os gays iranianos que Ahmadinejad negasse sua existência, pois isso contribui para que sejam deixados em paz.

No Irã, gays e lésbicas, são punidos com violência ou morte se relações homossexuais forem comprovadas. Em contrapartida, operações de mudança de sexo são encorajadas. Por mais contraditório que pareça, autoridades religiosas vêem a homossexualidade como pecado mas as transexuais são consideradas carentes de ajuda. E os transexuais?

A maioria, no entanto, é levada a esconder sua condição por medo da rejeição pela família. Shahin, 27, sempre escondeu de seus pais a sua vida gay. "Talvez eles me considerassem doente ou teriam pena de mim", diz. E lembra que muitos de seus amigos se casaram para esconder que são gays.

Como se isso não bastasse, em 27 de setembro o Correio Brasiliense publicou uma entrevista intitulada "Homossexuais? O que isso importa?" , concedida por Seyed Reza Nobakhti, encarregado de negócios da embaixada do Irã no Brasil, na qual entre outras coisas ele diz:

- Como o presidente Ahmadinejad pode ter certeza que não há homossexuais no Irã?

- O que isso importa, no mundo tão violento e cheio de problemas em que vivemos?

- Homossexuais dizem ter sido vítimas de tortura no Irã...

- Eu vivi na Europa, onde vi muitos casos de iranianos que inventaram histórias para conseguir asilo. O que alguns jornais andaram publicando sobre tortura é mentira. Há tantas mulheres e tantos homens... Não há necessidade para o homossexualismo. Esse tipo de comportamento é doentio."

A ABGLT, Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, travestis, Transexuais e Bissexuais em oficio enviado ao governo brasileiro, em repúdio a essas declarações, lembrando que:

"em 9 de fevereiro de 1985, o Conselho Federal de Medicina retirou o diagnóstico de Homossexualidade da categoria de desvios e transtornos sexuais, e que em 17 de maio de 1990, a assembléia geral da Organização Mundial da Saúde aprovou a retirada do código 302.0 (Homossexualidade) da Classificação Internacional de Doenças, declarando que “a homossexualidade não constitui doença, nem distúrbio e nem perversão”. A nova classificação entrou em vigor entre os países-membro das

Nações Unidas em 1994. Salienta-se também que a República Islâmica do Irã faz parte das Nações Unidas, devendo, portanto respeitar esta decisão".

Depois de dizer na universidade de Columbia que não há gays em seu país, o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad, acabou jogando luzes sobre a situação dos homossexuais em seu país.Imagens publicadas pelo blog IRQO mostra iranianos açoitados só por serem gays

É de conhecimento público a existência no país de uma política que açoita homossexuais e que chega a enforcá-los, mas em nenhum outro momento tantos jornais, sites e TVs se debruçaram sobre o assunto após as infelizes declarações do presidente.

O noticiário internacional lembrou a morte recente de 200 pessoas no país acusadas de crimes sexuais. Há pouco mais de dois anos, dois homossexuais foram mortos na forca depois de terem sido pegos em uma festa privada. Também foi divulgada a foto de dois homossexuais açoitados no país. A foto é do blog IRQO, pertencente a um homossexual iraniano exilado no Canadá. Os dois rapazes da foto, amigos do blogueiro exilado, tiveram que fugir para a Turquia e estão escondidos por razões de segurança.

Apesar da comoção que varreu o planeta, dificilmente uma pressão internacional sensibilizará o presidente do Irã, mas a divulgação da situação dos homossexuais iranianos pode forçar a comunidade internacional a oferecer asilo político aos refugiados.

Em entrevista por telefone ao Correio Brasiliense, o diretor da organização não-governamental Iranian Queer Organization (IRQO — Organização dos Homossexuais Iranianos), Asham Parsi, de 27 anos (que foi obrigado a trocar o Irã pelo Canadá em 2001, depois de assumir a identidade sexual e ser caçado pela polícia), com sede em Toronto, denunciou a violação dos direitos humanos em sua terra natal: “Ahmadinejad é bastante homofóbico. Espero que todas as nações saibam que o Irã não tolera homossexuais”, desabafou Parsi.

Para o ativista, a declaração de Mahmud Ahmadinejad revela como pensa o chefe de Estado. “Ele simplesmente nega a homossexualidade. Na realidade, o presidente quis dizer que seu regime não aceita qualquer sinal de homossexualidade", comentou. Parsi lembrou que Ahmadinejad rejeita a presença de gays no Irã do mesmo modo que nega o Holocausto, os prisioneiros políticos, o desrespeito aos direitos humanos e a perseguição aos estudantes. “Ele se recusa a reconhecer os direitos dos gays e defende o silêncio sobre o tema".

De acordo com Parsi, não é preciso ser gay para ter a vida ameaçada no Irã. “O regime de Ahmadinejad pune atos homossexuais como se fossem crimes de lavaat (sodomia) e nos iguala a pedófilos e estupradores de crianças”, denunciou o diretor da IRQO. “Qualquer ato que as forças policiais julguem ser homossexual é punido com a morte. Muitas pessoas morrem sem saber o motivo”, contou. Ainda segundo Parsi, os métodos de execução incluem enforcamento, corte por espada, apedrejamento e chibatadas. Um texto publicado no site de internet da IRQO sustenta que o governo iraniano apóia essas “punições” e se recusa a aceitar que elas têm raízes no ódio.

Diante do regime fechado, a ausência de informações sobre homossexualidade leva muitos pais a rejeitarem a orientação sexual de seus filhos. “Há vários relatos de assassinatos no meio familiar, e tivemos conhecimento do caso de um pai que queimou o filho após ele se assumir gay”, revelou o ativista. A Agência de Notícias dos Estudantes Iranianos (Isna) informou que uma das mais recentes execuções ocorreu no dia 19 de julho passado. M.A. e A.M., dois supostos gays entre 16 e 18 anos, foram enforcados na Praça da Justiça, na cidade de Masshad (nordeste). Antes de serem mortos, ambos ficaram presos durante 14 meses e cada um recebeu 228 chibatadas.

Entidades de defesa dos direitos de homossexuais sustentam que mais de 4 mil lésbicas e gays foram executados desde a Revolução Islâmica de 1979. Com medo da perseguição, homossexuais iranianos buscam refúgio em países europeus e na América do Norte. “Muitos sofrem com a lei homofóbica de um país intolerante e pedem para serem acolhidos como refugiados”, disse Parsi.


* Paulo Reis dos Santos é mestrando pelo GEISH - Grupo de Estudo Interdisciplinar de Sexualidade Humana da Faculdade de Educação da UNICAMP e Coordenador do Centro de Referência de Gays, Lésbicas, Travestis, Transexuais e Bissexuais da Prefeitura Municipal de Campinas.



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