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SALADA MIX

Por Paulo Reis dos Santos
re_pare@yahoo.com.br

Homem não chora

Cresci ouvindo que homem não brinca com boneca. Homem não cruza as pernas ao sentar. Homem não chora!

E como reforço deste aprendizado, quando levava uns sopapos, por conta de alguma traquinagem, tinha que engolir o choro. Se brigava na rua e, por algum motivo levava a pior, ao chegar em casa com o olho roxo e lágrima nas faces, recebia uns cascudos pra aprender que homem não chora.

Desta forma, quando algum projeto resultava em um grande fracasso e a frustração invadia meu pequeno coração, chorava escondido, principalmente à noite abraçado ao meu travesseiro, soluçando baixinho para que meus pais não ouvissem e me repreendessem.
Cresci cheio de dúvidas e anseios e quando alguma decepção se interpunha em meu caminho, dissimulava minhas lágrimas, pois homem não chora.
Grande bobagem tudo isso!

A educação que é dada a grande parte das crianças, nas sociedades ocidentais, é que transforma os seres humanos em seres petrificados, limitados e insensíveis. Homens e mulheres são humanos, recheados de sentimentos contraditórios, sonhos, frustrações, projetos abortados e, na maioria das vezes, frágeis e carentes. E, quando os adultos impõem regras de comportamentos – homens agem assim, mulheres assado, estão tentando criar seres compartimentados, robotizados.

Infelizmente nós, homossexuais, somos educados e vivemos imersos numa cultura heterossexual, portanto, fomos educados nestes mesmos moldes. Daí, talvez, resulte todas as nossas estratégias para não expor nossas emoções, tanto para os amigos quanto para nossos namorados e namoradas, mas quem pode discorrer com maior propriedade sobre isso são nossas psicólogas de plantão: Cristiane Reda e Margarete Godoy. De minha parte, falo apenas do que observo e sinto.

Por isso, me sensibilizou, e muito a descompostura emocional de um amigo ocorrida na sexta-feira de carnaval.

Vínhamos nos preparando há algum tempo para passar o reinado de Momo na cidade maravilhosa, cheia de encantos mil. Eu e meu companheiro fomos para um hotelzinho no centro da cidade, um amigo e uma amiga foram para o apartamento de uma conhecida, também no centro do Rio de Janeiro.
Nos encontramos à noite, na Fundição Progresso para o show do Monobloco, um grupo de percussão da maior qualidade, formada por Pedro Luis, que já gravou com Ney Matogrosso e outros bambas da MPB.

Enfim, nos encontramos na entrada e meu amigo estava fragilizado. Ao chegar no apto onde ficaria hospedado, encontrou a anfitriã de cama, muita adoentada. Para quem saiu de Campinas para curtir todas as baladas e corpos possíveis no carnaval do Rio de Janeiro, se hospedar na casa de alguém em péssima situação de saúde, é um choque tremendo.

Em meio ao turbilhão de pessoas que chegavam, a expectativa do show e da animação do carnaval, meu amigo me abraça e com lágrimas nos olhos começa a soluçar. Me emociono ao ver um homenzarrão daqueles com olhos inchados e vermelhos provocados por um choro compulsivo.

Abraçados trocamos palavras de carinho, apoio e incentivo. Cada um sabe o seu limite, do que dá e do que não dá conta, assumir nossas fragilidades é que é difícil. E assim, em meio daquela situação inusitada, nossa amizade se fortalece. Estávamos em um pequeno grupo de pessoas e todos compartilham de sua dor e se solidarizam com ela.

O batuque, que vem da sala de espetáculo invade o ar. Nosso carnaval está prestes a começar. Compramos cervejas e entramos na sala com um gostinho de que a educação machista não foi suficiente para abafar a nossa emoção, solidariedade e calor humano.

E eu concluo que homem chora, principalmente os puros e sensíveis. Independente da orientação sexual que possua.

* Paulo Reis dos Santos é mestrando pelo GEISH – Grupo de Sexualidade Humana
da Faculdade de Educação da UNICAMP e Coordenador do Centro de Referência de Gays, Lésbicas, Travestis, Transexuais e Bissexuais da Prefeitura Municipal de Campinas





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