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SALADA MIX Por
Paulo Reis dos Santos
O índio,
a empregada e o meu namorado Meu namorado é professor da rede pública de ensino e, por volta das 22:00 horas, me liga dizendo que chegará mais tarde, pois está com alguns amigos bebendo num bar perto de casa.Termino de assistir Paraíso Tropical, janto e me preparo para assistir a um dos filmes que loquei. Passava da meia noite quando o interfone toca. Do outro lado da linha ouço a voz do Fábio, perguntando se o Marquinhos (meu namorado) estava em casa, digo que não e ele me pede para descer até o portão. Toca o telefone. Atendo e ouço a voz de meu namorado soluçando e a ligação cai. Pego o Fred - meu poodle inseparável - e desço até o portão do prédio. Pergunto ao porteiro sobre o rapaz que tocou o interfone. Ele me informa que na esquina tem um rapaz. Encontro o Marcelinho ensangüentado aos prantos falando pelo celular. Pergunto sobre o Marcos e o Fábio. Ele me aponta o caminho rua acima. Saio correndo, encontro o Fábio que me diz não saber do Marcos. Ele me indica a rua 14 de Dezembro, dizendo que o viu ir por ali. Vamos os três correndo: eu, o Fábio e Marcelinho. Pergunto ao porteiro de um dos prédios se não viu um rapaz passar correndo por ali, sendo perseguido por um grupo de jovens vestidos de preto. Ele me diz que não. Insegurança, desespero, desencontros. Descemos a rua 14 de Dezembro correndo. Sinto receio sobre como encontrarei o Marcos. Como estará física e psicologicamente? Dê-repente ele surge na esquina. Grito seu nome. Ele sai correndo em direção oposta. Fábio e Marcelo o alcançam. Ele chora compulsivamente, não entende o que aconteceu. Tranqüilizo-me um pouco, aparentemente ele não está ferido. Vamos para a casa dos meninos que fica ali perto e para onde o Marcos correu, tentando encontrar abrigo e rever os seus amigos. Pego o seu celular ligo para polícia. Vizinhos vêm nos socorrer, orientar, dar uma força e um copo de água com açúcar. Chegam duas viaturas da PM, ouvem os relatos e se prontificam a auxiliar-nos no que for preciso. Nesse momento vemos um grupo de jovens vestindo roupas pretas atravessando a rua na esquina. Aviso aos policiais que pedem para que entremos em casa, pois eles irão abordar o grupo. Tensão no ar.
Marcelinho é socorrido por uma vizinha que verifica o sangue que
escorre de sua cabeça. Ele foi agredido com um pedaço de
pau, mas sofreu apenas um arranhão. Fábio está meio
tonto e Marcos chora compulsivamente. A viatura retorna. Fábio, Marcelino e Marcos são levados para fazer o reconhecimento de seus agressores. Vou para casa - na correria a tv ficou ligada e a porta aberta. Troco de roupa, pego o carro e vou para a delegacia. Chego ao 1º DP e vejo um grupo de garotos, com roupas adornadas com taxas, dois ou três deles com as cabeças raspadas, virados para a parede. As vítimas estão prestando depoimentos ao, que por incrível que pareça, PM Cláudio. Logo depois chega a mãe de um dos garotos com um rapaz, provavelmente seu filho e irmão de um dos agressores. Passa mais um tempo e chegam duas senhoras e um senhor, parentes de mais um dos réus. Foram detidos oito garotos, três menores de idade (F.G.S.C., F.H.E.J. e M.C., 16 anos cada um), e cinco maiores (D.P. A, Operador de Máquinas, Negro; G.C.G., 19 anos, Estudante, Branco; E.A.S.S., 18 anos, Desocupado, 1º Graus completo, Desocupado, Branco; L.R.R.V., 20 anos, Estudante, 1° Grau completo, Branco; E.S.M., 20 anos, Estudante, 1º Grau completo, Branco). A mãe de um
dos menores se aproxima do Marcos e lhe pede desculpas pelo ato do filho. O tempo passa lentamente. A temperatura da madrugada cai. Outros delinqüentes são detidos. Um acidente de moto, um grupo de jovens de classe média que brigaram num bar do Cambuí... Personagens e histórias noturnas que deprimem ainda mais o ambiente daquela delegacia... O grupo de rapazes agressores ainda precisa ser indiciado. Marcos, Fábio e Marcelo ainda terão que fazer exame de corpo delito... Eu me rendo, o sono bate. Despeço-me, deixo meu celular com o Marcos e vou para casa, já que os policiais informaram que eles seriam liberados no raiar do dia e minha presença ali era desnecessária. São seis horas da manhã quando o interfone toca. Abro a porta e a rua me devolve um namorado aos pedaços. A dor moral, psicológica e física abalou profundamente aquele homem com quem divido a cama e a vida há anos. Ele me conta que o
pai de um dos meninos veio conversar com eles: O senhor obrigou seu
filho ir até eles pedir desculpas. Acabrunhado o rapaz obedeceu: Marcos entra no banheiro. Tira as roupas, adentra no chuveiro e demora todo o tempo do mundo sob a água quente, que lava seu físico, mas não sua alma. Na penumbra, sob o edredom, fico a pensar em qual a explicação para aquela situação. Como jovens de classe baixa (segundo o BO) e moradores na periferia da cidade, que provavelmente devem trazer no corpo e na alma experiências do sofrimento que a exclusão social impõe, agem desta maneira violenta com outros seres humanos também discriminados? Que teoria - Acadêmica? Política? Social - explica tudo isso? Somos pacifistas. O Marcos é um professor extremamente humano e querido pelas dezenas de alunos de uma escola da periferia da cidade. Cotidianamente convive com a miséria e sofrimento de uma comunidade favelada. Tem seu trabalho docente focado no respeito às diferenças e no entendimento das mazelas humanas. Trabalha arduamente para que seus alunos tenham consciência critica sobre as questões sociais e se posicionem firmemente perante a vida. É nesses momentos que retiramos nossa carapaça de promotores dos Direitos Humanos e deixamos fluir em nós os piores sentimentos de vingança. Sabemos que a violência é uma marca de nossos tempos e nos anestesiamos com o seu espetáculo do Jornal Nacional enquanto jantamos. Mas ela está longe: em Brasília no episódio do índio, no Rio de Janeiro no evento da empregada doméstica ou na Praça da República no caso Édson Néris. Agora, ela entrou em minha casa. O Marcos sai do banheiro,
veste seu pijama, deita ao meu lado. Eu o abraço e sem dizer uma
palavra a mais, adormecemos. ** Em 20 de abril de 1997 o índio patachó, Galdino Jesus dos Santos, morreu queimado enquanto dormia num ponto de ônibus em Brasília. Cinco jovens de classe média: Max Rogério, Antonio Novely de Vilanova, Eron, Tomás de Oliveira de Almada e mais um menor de idade jogaram álcool sobre seu corpo e atearam fogo. *** Em 23 de julho
de 2007 Sirlei Dias, empregada doméstica confundida com prostituta,
foi agredida por cinco rapazes de classe média alta na Barra da
Tijuca, no Rio de Janeiro.
* Paulo Reis dos
Santos é mestrando pelo GEISH - Grupo de Estudo Interdisciplinar de Sexualidade
Humana da Faculdade de Educação da UNICAMP e Coordenador do Centro de
Referência de Gays, Lésbicas, Travestis, Transexuais e Bissexuais da Prefeitura
Municipal de Campinas.
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