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SALADA MIX

Por Paulo Reis dos Santos
re_pare@yahoo.com.br

Foto: L.C. Jeolás

Sobre cômodas, armários e cristaleiras.

Nas listas de discussão do movimento pelos direitos de gays, lésbicas, travestis, transexuais e bissexuais, surgiu, durante a realização dos jogos Pan-americanos a discussão sobre o outing dos atletas "aparentemente" gays ou lésbicas. Entraram na roda os nomes de Diego Hipólito e do patinador Marcel Ruscher Stümer.

Contraditoriamente, o próprio movimento trabalha a com idéia de que compete a cada um saber o momento de sua vida em que está preparado para declarar publicamente sua orientação sexual, assumindo assim a identidade gay, lésbica, travesti, transexual ou bissexual.

Num país latinoamericano, cristão, machista como o Brasil e com uma cultura hipócrita como é a nossa, cada um de nós sabe muito bem o que significa "assumir". No rastro dessa "assunção" pública, nos chegam chacotas, humilhações, agressões verbais, desqualificações e muitas vezes a violência física.

Entendo que realizar o outing é válido como uma estratégia política de desconstruir os argumentos daqueles que nos vêem como doentes pecadores e anormais. Mostrar à sociedade que há gays, lésbicas, travestis, transexuais e bissexuais sem problemas mentais, trabalhadores, produtivos e bem resolvidos com suas sexualidades é sempre um gesto saudável e louvável. Mas esta atitude tem que partir do próprio sujeito, pois cada um sabe o calo que tem e onde lhe aperta o sapato.

Compete aos grupos organizados do movimento glttb dar um respaldo psicológico e trabalhar coletivamente para essas pessoas tenham uma estima elevada, conheçam seus direitos enquanto cidadãos e tenham segurança para fazer seu "outing" perante amigos, colegas de trabalho e familiares.

Por outro lado, eu me alinho com aqueles que pensam o "outing" como uma atitude política de desestabilizar os opositores ferrenhos da visibilidade, cidadania e direitos de gays, lésbicas, travestis, transexuais e bissexuais. Já pensou se tivermos provas cabais que o Senador Marcelo Crivella, (representante no senado da bancada dos evangélicos, ligado á Igreja Universal do Reino de Deus e ferrenho opositor dos projetos que nos beneficiem e nos dêem um pouco mais direitos civis) tem, ou teve, relações homossexuais?

Neste caso, expor publicamente a homossexualidade de Marcelo Crivella, seria utilizar o outing não para mostrar que a homossexualidade é uma penalidade, mas mostrar o quanto o senador, ou outra pessoa com as mesmas características homofóbicas, é hipócrita e o quanto a homofobia internalizada é, sim, um problema psicológico.

Agora, fora isso, não vejo sentido no outing forçado. Sou contra o armário, pois ele pode ser desconfortável e acabar asfixiando quem ali se tranca, mas entendo que a decisão de abrir suas porta é sempre da pessoa.

Claro que, pro movimento, seria legal que todos assumissem sua orientação sexual publicamente, mas não acho que isso deva ser imposto. Mesmo porque, até quem está no movimento já viveu sua época de armário e sabe bem que abrir suas portas envolve uma luta interior, que acaba sendo melhor gerida quando estamos no comando (ou tentamos estar) da situação e das decisões.

Mas é sempre interessante e nos causa uma sensação de alma lavada quando uma celebridade sai do armário por conta própria, e ela pode ser, sempre, uma aliada interessante, porque certamente, pra se assumir, o(a) famoso(a) já venceu seus demônios internos, está tranqüilo e de bem com a vida. Mesmo porque o fato da pessoa ser uma celebridade, não lhe tira o direito à gerência da própria vida.

Assim, proponho o outing para todos os nossos inimigos. Para os demais mortais, deixa quieto. Se a pessoa é gay, lésbica, trans ou bissexual e quer ficar no armário, é um direito dela. Agora, ser homossexual, trans ou bissexual, se enclausurar num armário e ficar dando uma de gostosa, malhando os demais gays, lésbicas, travestis, transexuais e bissexuais publicamente, aí merece o outing sim, como no caso do duble de costureiro e político Clodovil Hernandes.

Agora cômodas e cristaleiras, citados no título deste artigo, são apenas uma brincadeira, para dar mais charme ao texto, pois são móveis antiquados e fora de moda ou vintage como se diz hoje em dia, que servem para as pessoas guardarem quinquilharias. Uns são mais e outros menos sofisticados, mas são peças de museu ou de antiquários. Seus interiores exalam cheiro de mofo e geralmente são habitados por traças. Locais próprios para se esconderem identidades homoeróticas fora de moda e não antenadas com os dias atuais.

* Paulo Reis dos Santos é mestrando pelo GEISH - Grupo de Estudo Interdisciplinar de Sexualidade Humana da Faculdade de Educação da UNICAMP e Coordenador do Centro de Referência de Gays, Lésbicas, Travestis, Transexuais e Bissexuais da Prefeitura Municipal de Campinas.



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