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SALADA MIX

Por Paulo Reis dos Santos
pa_re@bol.com.br

Sobre Natal, Ano Novo, presentes e outras bobagens

Aos quase cincoenta anos de idade, consegui amealhar durante toda a minha vida alguns poucos amigos. Poderia tê-los em grande quantidade se considerasse as pessoas conhecidas, colegas de escola, trabalho, militância e outros, mas não ouso fazê-lo. Cultivar amigos requer dedicação, empenho, zêlo, carinho e história.

Não é toda hora que temos saco para ouvir as queixas, os reclames de amores frustrados, emprestar uma grana sabendo das poucas possibilidades de retorno, ceder os ombros para que o outro encontre o conforto para suas dores. Mas por um amigo não medimos esforços e o fazemos sempre de bom grado. Às vezes não temos palavras para reconfortar a dor do outro, mas ofertamos nosso afeto, braços, coração e ouvidos.
Amizades levam um tempo para amadurecerem, requer confidências, dores, frustrações, alegrias, sorrisos, algumas lágrimas e, principalmente, cumplicidade.

Meus amigos não freqüentam o grand monde, não viajam à Europa para o lançamento das grandes coleções dos estilistas top de linha. Nem esquiam nos Alpes, ou são convidados para o festival de Cannes. Nem usam perfumes franceses, ingleses ou americanos. São gente comum, terrivelmente comum, dessas que cruzam o nosso caminho a todo instante, em qualquer esquina da vida.

Meus amigos, alguns deles – quando viajam - vão à São Paulo para a Parada do Orgulho GLBT, outros passam o carnaval no Rio de Janeiro e o Natal com a família em Franca, Pedreira, Bauru, ABC ou Hortolândia. A maioria freqüenta o Sucão e vai à Double Face. Nos falamos constantemente, sofremos juntos, trocamos confidências e nos estimulamos para transpor as adversidades diárias.

Meus amigos são gente comum, que trabalha, tem contas atrasadas, sonhos hipotecados, desejos adiados, orgasmos ocasionais. Gosto deles pelo que possuem de humano, de sentimento, dor, desejo e paixão.

Não nos vemos sempre, mas nos falamos constantemente, seja pelo fone, pelo e-mail. E assim vamos nos atualizando, uns da vida dos outros. Torcemos pelo sucesso e realização dos pequenos sonhos e possibilidades cotidianas. Vibramos com as ínfimas conquistas. Celebramos a vitória de cada pequeno sonho realizado.

Neste Natal de 2005, recebi abraços, beijos, pequenos agradecimentos por estar vivo e fazer parte da vida de outras pessoas. Isto me encheu de satisfação por perceber que minha trajetória até aqui não foi em vão.

Gosto de presentear e fico emocionado com uma pequena lembrança recebida. Não cultivo marcas, pois elas são o mercado e o que me interessa é a essência das coisas, das relações. Fiquei emocionado ao receber da Donana, uma senhorinha que adotou como filhos, a mim, ao meu companheiro e nosso filhote – o Fred, um espevitado poodle branco, e suas filhas na semana do Natal, um conjunto de velas para iluminar os nossos caminhos em 2006. Não é um luxo ?

Durante muito tempo, presenteei a todos de minha pequena família, e meu irmão este ano me surpreendeu com um DVD, pirateado por ele, do show Maricotinha de Maria Bethânia, uma de minhas artistas preferidas. Ele sabia do meu gosto musical, de meu apreço por esta cantora bahiana, e assim, se deu ao trabalho de reproduzir este show para mim. Isto não é carinho antenado no gosto do outro ?

Meu companheiro retornou de Pedreira, onde fora passar o Natal em familia com um pacote para mim, enviado por sua mãe. Dª Antonia, depois de saber da relação/homossexualidade de seu filho, não me aceitou, relutou, reviu seus conceitos. Mulher humilde, vinda da roça, religiosa, não entende essas modernidades de hoje, mas, ao se dar ao trabalho de procurar um presente para o “genro” me diz sem nenhuma palavra que me aceitou como companheiro de seu querido filho. Não é emocionante ?

Retorno da praia, onde fui passar o Reveillon, e entre os recados de nossa secretaria eletrônica ouço a voz de dileto amigo desejando um ano novo maravilhoso ao “meu casal favorito”. A voz de Juliano aliviou o porre da viajem ultracansativa. Há melhor maneira de iniciar um novo ano?

Chego ao trabalho e encontro sobre minha mesa, um pacote de presente e um cartão de boas festas da senhora da limpeza. Emocionado abraço D. Conceição, agradeço e digo-lhe que não precisava, ela retruca, dizendo que gosta muito de mim e que aquele era um pequeno mimo, uma simples lembrancinha. Ganhei meu dia !

Vivemos um tempo onde o que importa é a quantidade, a marca, a grife. Eu prefiro o conteúdo e qualidade das coisas que me cercam, principalmente das relações que estabeleço com o mundo e com as pessoas.

Importa saber em que loja foi comprada, se o perfume exalado pela vela ganha de Donana é nacional ou importada ? É obvio que o que importa é o gesto desta senhora e de suas filhas ao se preocuparem em nos presentear com algo que, julgam – e acertam – ser do nosso agrado. O coração guia os gestos de quem nos gostam.

Importa que o DVD fora pirateado ? Claro que não, o que importa mesmo é o gesto de prestar atenção ao gosto musical e perder um tempo preparando o presente para alguém que faz parte de nossa vida.

Importa o conteúdo do pacote, a marca, a grife da peça, a qualidade do papel que envolvia a lembrança enviada pela minha sogra ? A mim importa a carga de emoção e carinho que aquele pequeno pacote embrulhava.

Importa palavras vãs gravadas numa máquina fria ? Claro que sim, cada letra, cada palavra transmitia o calor de uma relação afetiva cheia de admiração, carinho e amizade !

Importa a qualidade, a marca e a grife dos presentinhos sobre a mesa de trabalho ? Não é isto que está em jogo, o importante é a marca que deixamos no coração das pessoas com as quais convivemos diariamente.

Presenteei várias pessoas neste final de ano, foram objetos recolhidos ao longo do ano, coisas que via e que me remetiam a uma ou outra pessoa. Um livro sobre o tema que um amigo pesquisa, um objeto que combina com a decoração do apartamento de um outro amigo, etc. Na grande maioria das vezes essas lembrancinhas são mais exigentes e não esperam uma data especial para serem ofertadas ao destinatário.

Afeto, carinho, dedicação possuem a grife da amizade, o aroma da dedicação e custam o preço da emoção.

Sei que essas coisas cheiram à pieguiçe, à babaquice. Vivemos numa sociedade capitalista, mas supor que sejamos um joguete das técnicas de marketing industrial é nos descaracterizar enquanto seres recheados de desejos, sonhos e capacidades transformadoras. Essas datas ja estão inseridas em nosso inconsciente coletivo. Faz parte de nossas necessidades.

A grande sabedoria é fazer um mix entre o comercial e o emocional. Faço isso numa boa. Presenteio a quem eu quero, com o que eu quero, com a minha marca pessoal. Dizer que não espero uma retribuição seria hipocrisia, mas um abraço, um e-mail, um telefonema me bastam. E não precisa ter hora nem data marcada.

Gosto de gostar e de ser gostado ano inteiro.

* Paulo Reis dos Santos é mestrando pelo GEISH – Grupo de Sexualidade Humana
da Faculdade de Educação da UNICAMP e Coordenador do Centro de Referência de Gays, Lésbicas, Travestis, Transexuais e Bissexuais da Prefeitura Municipal de Campinas





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