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SALADA MIX Por
Paulo Reis dos Santos
O meu prazer ainda é risco de vida Minha geração sofreu na pele as agruras e estigmatização causados pelo câncer gay, ou peste gay. Logo no final da liberação sexual dos 60 e depois do desbunde dos 70 surgia uma doença fortemente ligada ao sexo, mais especificamente ao sexo gay. Eu mal havia iniciado minha vida sexual, mais especificamente minha vida homossexual.No início dos 80 eu começa a freqüentar a noite paulistana: o Café Piu Piu no Bexiga, a Nostromundo na Avenida da Consolação, o Pirandello na rua Augusta, a Corinto em Moema. Aos poucos eu comecei a ouvir falar sobre uma doença que estava matando os gays norte-americanos, depois algumas noticias alarmantes começaram a circular pela imprensa sobre um tal "câncer gay" que vinha exterminando veados em todo o mundo. Logo depois a Aids mostrava sua cara por aqui. Aos poucos gente conhecida começou a desaparecer e em seguida vinha a noticia de que havia falecido. Não tardou e a doença começou a afetar os famosos: o artista plástico Jorge Guinle Filho, o carnavalesco Arlindo Rodrigues e o cineasta Leon Hirszman morreram em 1987; o cartunista Henfil e o irmão Chico Mário, músico, em 88; o cabeleireiro Silvinho e o ator Lauro Corona, em 89; Cazuza, em 90. Ao longo dos anos 90 o ator Carlos Augusto Strazzer, em 93, o estilista Mauro Taubman, o coreógrafo Lennie Dale (do Dzi Croquetes, homenageados pelo festival Mixbrasil deste ano), os atores Caíque Ferreira e Claudia Magno, em 94, e Renato Russo, em 96. Por esta época, nomes famosos expunham publicamente a cara da Aids, mostrando seus rostos encavados e corpos esquálidos na mídia impressa e eletrônica. Lembrem-se de Cazuza de "O tempo Não Para" de 1988 e de "Burguesia" de 1989. Muitos dos famosos emagreciam a olhos vistos e não admitiam publicamente estarem infectados com o vírus da AIDS. Naquela época não havia medicamentos eficazes contra o HIV. Foi em 87 que surgiu o Zidovudine, vulgo AZT - aprovado pela Food and Drug Administration (FDA) há exatos 20 anos - primeira arma capaz de conter o avanço devastador que o HIV provoca no organismo. Ele abriu caminho para uma série de novas drogas que, combinadas, ajudam a dar ao soropositivo uma qualidade de vida que parecia impensável há duas décadas atrás. Nestes 30 anos de Aids, a epidemia assumiu outras feições. Os homossexuais deixaram, pelo menos para os profissionais da área, de ser apontados como grupo de risco. Descobriu-se que não são as identidades de gênero que possibilitam a infecção e sim os comportamentos é que são um risco. A síndrome e os casos diagnosticados apontam o elevado índice de mulheres heterossexuais e monogâmicas (em 1985, a relação era de 26,5 homens para cada mulher infectada; agora, é de 1,5 homem para cada mulher). Isso demonstra a dificuldade das pessoas e, principalmente das mulheres, de falarem abertamente sobre sexo e sexualidade e, conseqüentemente, negociarem a uso de preservativo nas relações sexuais com seus parceiros. Somos um país latino americano, com uma malemolência e uma ginga de fazer inveja a qualquer gringo. Os homens são viris e as mulheres são erotizadas, mas no fundo não passamos de um país puritano, de moral duvidosa e com um descompassado entre discurso e prática, seja com relação a sexo, moral ou política. No Brasil, difunde-se a idéia de que temos o melhor Programa de Prevenção e Tratamento de Aids do mundo, o que é falso, e que a doença está sob controle graças ao surgimento do coquetel, o que também é uma inverdade. Nossos governantes tem vergonha de falar sobre essas coisas abertamente. Aqui, católicos e protestantes se unem para impedir o avanço das políticas de prevenção que beneficiariam milhões de cidadãos, enquanto que em Buenos Aires, troca-se, nos restaurantes, moedas por camisinhas. Nos banheiros dos clubes noturnos de Berlim há disponibilidade de preservativos para os freqüentadores, assim como nas estações do metrô de Paris. Aqui, a oferta de preservativos segue caminhos próprios. Em Campinas, o Programa Municipal de DST/AIDS disponibiliza preservativos para as profissionais do sexo e para a comunidade em geral, além de associar-se a ONGS que realizam trabalhos de prevenção com populações específicas, enquanto que em farmácias e supermercados da rede privada, custam em média R$três, a embalagem com três. Mariângela Simão, diretora do Programa Nacional de DST e Aids, do Ministério da Saúde, diz que há campanhas locais o ano inteiro. Mas é bom lembrar que nos anos 80 foram os homossexuais, as vitimas preferências da Aids, que se organizaram e lutaram para que o Governo assumisse sua parcela na contenção do avanço da doença. Assim surgiu o melhor programa de AIDS do mundo, ganhador de prêmios internacionais e referência para outros países. E hoje, o que assistimos é um descaso e um desmonte de um dos programas governamentais mais eficientes, ou que caminhava para sê-lo. E a conseqüência disto são os índices de infecção que voltam a crescer, cidadãos que correm risco de vida, profissionais éticos e comprometidos, tanto do programa nacional quanto dos estados e municípios atorduados, militantes num beco se saída e o Cristo Redentor de braços abertos sobre a Guanabara. Ah! com um laço de fita vermelho!
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Paulo Reis dos Santos é mestrando pelo GEISH - Grupo de Estudo Interdisciplinar
de Sexualidade Humana da Faculdade de Educação da UNICAMP e Coordenador
do Centro de Referência de Gays, Lésbicas, Travestis, Transexuais e Bissexuais
da Prefeitura Municipal de Campinas. |
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