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SALADA MIX

Por Paulo Reis dos Santos
re_pare@yahoo.com.br

Foto: L.C. Jeolás

Feliz você em todos os dias 2008!

Ao final de cada ano realizamos um balanço do que realizamos, do que conquistamos, e também de nossas frustrações e assim, procuramos tirar uma lição daquilo que vivenciamos, do que devemos cultivar ou descartar em nossas vidas. Enfim do que foi bom e do que não foi.

Muitas vezes temos a sensação de que o que vivenciamos não nos foi útil, mas tudo o que vivenciamos faz parte de nossa história pessoal, e por mais dolorido que possa ter sido um acontecimento ou outro, eles sempre nos levam adiante. Há algum tempo atrás uma amiga me fez ver que é o sofrimento que nos impulsiona para frente, para alterar nossa rotina, mudar o rumo de nossa vida. Quando estamos plenos, satisfeitos e realizados, não há que mudar. A felicidade nos estagna enquanto o sofrimento nos impulsiona para o crescimento.

Todos nós queremos e merecemos sucesso, poder, dinheiro, amor, felicidade, sexo, carinho, lealdade, orgasmos múltiplos e fidelidade, mas ativamos um mecanismo psicológico que, quanto mais nos aproximamos de nossos objetivos, mais distantes deles ficamos. Na grande maioria das vezes não temos clareza do que desejamos, mas uma coisa é certa: quanto mais temos mais desejamos. Talvez seja inerente ao ser humano essa constante busca de algo que o preencha, sei lá.

E assim a industria encontra um campo fértil para suas investidas mercadológicas. Há sempre uma novidade, um produto novo, com um design revolucionário prometendo o paraíso e felicidade eterna. E nesse quesito as empresas de eletro-eletrônicos tem sido mestre: veja a quantidade ipods, celulares, mp3, mp4, mp5 outras quinquilharias colocadas nas prateleiras.

Hoje nos conectamos com o mundo todo sem sair de casa. Falamos através de nossos aparelhos com pessoas que estão em qualquer parte do globo terrestre. Bom né? Mas há quanto tempo você não dá um abraço de verdade em um amigo ou amiga? Há quanto tempo você não visita um parente? Há quanto tempo não cede seu ombro ou seu colo para uma pessoa carente?

A cada novo começo de ano fazemos promessas íntimas de transformações que, quase sempre não passam mesmo de promessas, que vamos adiando até o próximo ano, se é que o teremos... Tudo no mundo é mutável, até mesmo os nossos interesses; o que hoje nos parece essencial, amanhã pode ser efêmero.

Nós, gays, e aqui eu falo de gays mesmos, homossexuais masculinos, somos escravos dos modismos, ou pelos menos grande parte de nós o somos. Nas boates parecemos bonecos produzidos em série: cabelos espetados, calças de grifes no meio da bunda exibindo os elásticos das cuecas da moda, tatoos, um ou outro piercing, muitos de nós bombados.

Nada contra, cada um que use seu corpo e seu dinheiro para fazer o que bem quiser. Mesmo que seja o bem da industria da moda. Mas o que me incomoda são os excessos de modismos e a necessidade psicológica de incorpora-los em minha vida a qualquer preço. Não há espaço para a decisão racional ou critica, sobre o que fazer com o nosso corpitcho.

Tudo bem, não sou desta new generation. Sou do tempo em que ainda havia um certo romantismo no ar. Mesmo no mundo gay. E olha que não estou falando dessa coisa ultrapassada que é a fidelidade. Falo de coração batendo mais forte, de conversas ao pé do ouvido, de olho no olho. De namorar a pessoa e não o seu corpo ou sua roupa.

Em mio século de existência aprendi que modismos passam. Quantas vezes meu guarda roupa me jogou na cara aquela calça demodée de duas estações atrás, me impulsionando a correr para um loja comprar outras que “todo mundo estava usado?” Quantas vezes me invadiu a frustração de que, querendo ser “original”, encontrar uma dúzia de pessoas usando o mesmo modelito que o meu numa festa?

A vida me imunizou contra o efêmero, mas vou confessar que não totalmente, ainda tenho minhas recaídas de vez em quando. Mas hoje convivo com o meu possível, com os meus limites estéticos e financeiros.

Que neste ano que se inicia todo nós tenhamos maior consciência de nossos atos e atitudes, sabendo exatamente o resultado que cada um deles irá a acarretar... Que a desventura alheia não venha a ser nossa ventura... Que o amor seja prioritário ao sexo, pois esse sempre existirá, já que o tesão pode acabar no segundo seguinte...

Enfim, que 2008 seja um ano de renovação de conceitos, pois só depende de cada um de nós fazer um mundo diferente, menos sexista, discriminatório, machista e violento.

Que as promessas feitas na passagem de 2007 para 2008 se realizem e que estender a mão ao próximo seja uma constante em nossas vidas e que apesar de tudo e de todos possamos e sejamos muito felizes a cada novo dia!

Como me desejou um querido amigo, feliz você em todos os dias de 2008!

* Paulo Reis dos Santos é mestrando pelo GEISH - Grupo de Estudo Interdisciplinar de Sexualidade Humana da Faculdade de Educação da UNICAMP e Coordenador do Centro de Referência de Gays, Lésbicas, Travestis, Transexuais e Bissexuais da Prefeitura Municipal de Campinas.



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