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SALADA MIX Por
Paulo Reis dos Santos
Eles não podem nos curar Há poucos dias atrás ao assistir o DVD X men, o confronto final, deparei-me com uma cena que descrevo abaixo e que me chamou a atenção. O filme inicia-se com uma daquelas cenas clássicas, de um grupo de homens de terno cinza e/ou azul marinho e cara carrancuda, em volta de uma mesa redonda, na casa Branca, decidindo o destino de todos os seres humanos na face da Terra. Em duas ou três cenas à frente, um grupo de mutantes assistem, pela TV, diretamente da ilha de Alcatraz, onde se localiza uma industria farmacêutica, o lançamento de um anticorpo para suprimir o “gene x”, causador das mutações nos seres humanos. O diálogo a
seguir é literal, co?????/?uEuE?¨?OEOE????~piei-o da cena em questão: Na trilogia X men, os mutantes são seres humanos “diferentes” dos normais, cada um com uma singularidade, uma especificidade, uma particularidade. Daí o paralelo com a diversidade sexual humana, especialmente com gays, lésbicas, travestis, transexuais e bissexuais foi automática. Michel Foucault nos ensina que desde o nascimento das ciências, em meados do século XVIII e XIX, o poder institucionalizado tem buscado cristalizar o ser humano num model?????/?uEuE?¨?OEOE????~o único de referência, e tudo ou todos os que de alguma maneira não se enquadram nesta normatividade institucionalizada tem sido estudados e as várias ciências tem criado tecnologias para normalizar este ser diferente. A medicina criou as técnicas cirúrgicas para as correções ortopédicas do “corpo errante”, as ciências psi (psicologia, psiquiatria) buscam entender o funcionamento da mente humana e como corrigi-la de seus “desvios”, o sistema jurídico tem criado leis que instituem os parâmetros da normatividade para o convívio social e instituído punições para os desviantes destas regras. Neste quadro social, resta um dilema permanente aos GLBTs: ou se submetem as normas sociais e são “punidos pelo seu desvio” de conduta e/ou comportamento ou sufocam seus desejos ou levam uma vida social aparentemente hétero e ocultam seus hábitos e praticas homoeróticas para não sofrerem as sanções desta sociedade heterossexista. Felizmente, desde a década de 60, o movimento de liberação gay tem se espalhado pelo mundo afora. Hoje transformado em movimento GLTTB, unindo identidades sexuais diversas como gays, lésbicas, travestis, transexuais e bissexuais. Com as Paradas do Orgulho, organizadas em diversas cidades do Brasil e do mundo, nós estamos reivindicando uma existência social, pois, sendo invisíveis, não existimos e não existindo não possu&i?????/?uEuE?¨?OEOE????~acute;mos direitos. Nos últimos 30 anos o movimento GLTTB brasileiro vem crescendo a partir dos embates dessas novas identidades: as lésbicas que não se viam mais como gays, travestis que não enquadravam mais na classificação de homossexuais, transexuais que não se encaixavam mais como travestis e, mais recentemente, os bissexuais que cada vez mais se assumem publicamente nos encontros, assembléias e congressos. Fracionamento este que tenciona, mas não de forma paralisante, sempre de uma maneira produtiva para estas novas identidades e para o elenco de reivindicações destes diferentes sujeitos por direitos e cidadania. Os grupos de militância GLBTs espalhados pelo Brasil tem como missão construir em cada lésbica, em cada gay, em cada travesti, em cada transexual e/ou cada bissexual uma visão de si mesmo(a) que não seja aquela negativa proposta pelos mecanismos de controle delatadas por Foucault, citados acima. Assim, os militantes vão propondo suas demandas por mudanças de paradigmas sociais, promovendo uma reflexão de como se vive, se pensa e se tenta controlar a sexualidade das pessoas, tanto por parte do Estado como da sociedade e mostrando as implicações disso nas relações humanas. Desta forma gays, lésbicas, travestis, transexuais e bissexuais vão conquistando espaços significativos na vida nacional e mudando a cara da sociedade, a?????/?uEuE?¨?OEOE????~fetando as relações interpessoais, o mundo do trabalho, o modelo tradicional de família, as noções de amor e de amizade. Simplesmente porque um novo sujeito social passou a existir. Se antes a estabilidade era dada pela rigidez dos papéis de gênero, a nova ordem propõe uma reconfiguração das relações sociais. A luta pela igualdade de direitos desta população leva a um projeto de democracia radical, um projeto capaz de abrigar e articular as diversas posições de sujeitos que lutam contra diferentes formas de subordinação e opressão. De um ponto de vista bastante particular, poderia dizer que pela via do movimento glbt tornei-me uma pessoa mais atenta e crítica às desigualdades do mundo e às inúmeras intersecções dessas mesmas desigualdades, ou seja hierarquias de exclusão e invisibilidade que marcam os sujeitos, como recorte de classe social e etnia, colocando-os à margem da sociedade. Recusando o mandato de uma sexualidade que tem somente finalidades procriativas e que só deva ser exercida pelo casal monogâmico, proponho uma de sexualidade que seja a expressão de si mesma, como um jogo, que se jogue para se conhecer melhor a si mesmo e para se comunicar com o(a)s outro(a)s, para dar e receber mais prazer. Uma sexualidade que aceite qualquer expressão, tendo como limite único o consentimento daquele(a)s que estejam implicados no jogo erótico exercido com a aus&?????/?uEuE?¨?OEOE????~ecirc;ncia de danos comprováveis a outra pessoa. No filme, o remédio criado pela industria farmacêutica a princípio funciona, revertendo as mutações. Mas a longo tempo a cura se fragiliza, pois as diferenças entre os humanos é mais forte que qualquer tentativa sufocante de suas manifestações. Um pequeno grupo de seres mutantes lutam desesperadamente para que as mutações sejam respeitadas e conseqüentemente os seres humanos possuidores destas características não sofram sanções. O tempo todo fiquei pesando na luta travada pelos militantes para desconstruir os paradigmas que nos colocam como seres passíveis de repressão, punições e possíveis curas. Felizmente, tanto
na vida quanto no filme, a norma se mostra frágil em sua sanha
pela hegemonia e todos os diferentes - com todas as suas diferenças
- provam que a vida é muito mais saudável, divertida e producente
quando acolhe e respeita a todos. * Michel Foucault (1926-1984) foi um teórico, filósofo e autor francês, professor do Collège de France, que com rigor e originalidade lançou um olhar novo e perturbador sobre os processos de configuração da loucura, do crime, da sexualidade e do poder, enfim, do sujeito e da vida moderna.
?????/?uEuE?¨?OEOE????~* Paulo Reis dos
Santos é mestrando pelo GEISH - Grupo de Estudo Interdisciplinar de Sexualidade
Humana da Faculdade de Educação da UNICAMP e Coordenador do Centro de
Referência de Gays, Lésbicas, Travestis, Transexuais e Bissexuais da Prefeitura
Municipal de Campinas.
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