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PERSONA

Por Eduardo Gregori
editor@espacogls.com

Tiago Duque

A paixão por causas antagônicas inspira Tiago Duque, teólogo formado pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas). Homossexual e militante pelos direitos de gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros (GLBTs), Duque identifica-se com a doutrina católica, mas esbarra em questões nas quais a Igreja é contra, como o aborto, a aplicação de células-tronco pela medicina e a homossexualidade.

O teólogo e militante defende o Estado laico, assunto que pauta a maioria das paradas gays brasileiras, entre elas a de Campinas, realizada hoje no centro da cidade. "A democracia não existe quando o Estado se submete a imposições das religiões" , avalia.

Duque acredita que a Igreja precisa rever sua posição, segundo ele ainda voltada a uma sociedade que ficou no passado. Defende a Teologia da Libertação, movimento cristão que tem entre seus fundamentos a libertação de todas as formas de opressão. O movimento é fortemente criticado pela Igreja Católica e principal foco a ser combatido na América Latina pelo papa Bento XVI.

Numa sociedade cada vez mais desconectada das religiões, por que você escolheu estudar teologia?
Tiago Duque - Eu queria conhecer melhor a minha religião. Estudar também é uma forma de fundamentar a fé.

De onde vem sua visão crítica da religião?
Das pastorais sociais por onde passei e de padres e freiras que conheci.

Então existem religiosos que também defendem mudanças?
Sim, mas procuram ser discretos. Eles trabalham com o acolhimento de marginalizados, homossexuais com baixa auto-estima e culpa, adolescentes grávidas, pobres e doentes. O contato com a realidade acaba levando a pessoa a questionar a postura da Igreja.

Você se refere à Teologia da Libertação...
Sim. Um exemplo disso é o papa usar o sapato mais caro do mundo ou tomar o vinho da missa em um cálice de ouro maciço e bem ali, na frente dele, centenas de pessoas muito pobres. É uma incoerência com a prática de Jesus.

Então o que deveria ser mudado?
A Igreja tem acesso às realidades como as das doenças sexualmente transmissíveis, do assassinato de homossexuais e do aborto arriscado por mulheres pobres e não promove práticas de acolhimento integral dos indivíduos. Também não informa as pessoas sobre riscos, como por exemplo ter relações sexuais sem preservativos. Proibindo e não informando, coloca seus fiéis em risco. Outra questão é o louvor, que não assume, muitas vezes, uma postura de crítica social e tem uma visão descontextualizada da atualidade.

As mudanças seriam mais voltadas para o social e político?
Sim. Por exemplo, este ano as paradas gays de todo o País têm por objetivo a defesa de um Estado laico. A Igreja ainda influencia a não-aprovação de leis como a criminalização da homofobia, a união civil entre pessoas do mesmo sexo e a legalização do aborto.

Você acha que a Igreja deveria discutir temas como a sexualidade?
Sim, e fora das correntes ideológicas de poder em que aponta para uma prática da sexualidade "santificada" , que ninguém vivencia, nem mesmo homens e mulheres heterossexuais.

Falando em mulheres, você defende a legalização do aborto?
Sim, desde que exista uma discussão ampla e séria que garanta o direito da mulher decidir sobre seu próprio corpo. Nenhuma instituição pode ter o poder de decidir sobre o corpo de uma pessoa.

No caso do aborto a Igreja está defendendo a vida...
Defender a vida é garantir a liberdade de escolha. Onde não há escolhas, não há vida.

Estamos falando de família, um dos pilares da religião católica...
A família é a base da doutrina católica. A família, nos moldes da Igreja, é formada por um chefe de família, uma esposa submissa e filhos. Esta estrutura não é mais a mesma há tempos. Quantas mulheres tomam conta sozinhas de seus filhos? Casais homossexuais também são uma realidade que não pode ser negada.

Por que a Igreja diverge tanto do governo na questão do preservativo?
Porque não admite que exista sexo antes e fora do casamento. Proíbe e espera que seu fiel seja casto. É como fechar os olhos para algo que está aí, como a Aids. Já o Estado, deve ser laico e, por isso, tratar a sexualidade como uma questão de direitos e de saúde pública.

Na sua opinião por que a Igreja não muda?
Porque a velocidade assusta. Vivemos em um mundo de constantes e rápidas mudanças. Essa velocidade demanda coragem, destreza, paixão, desejos e principalmente riscos. Parte da Igreja acredita que isso não combina com ela.

Em vez de querer mudar uma doutrina milenar, não seria mais fácil fundar outra religião com princípios católicos?
Não. Existem laços e sentidos que me fazem católico. É por esses laços que tenho com a religião que exerço meu direito de criticar. A vida comunitária e a eucaristia me fazem ser fiel.

E a Igreja? Como encara a crítica?
A instituição tenta deixar seus críticos invisíveis.

Você se sente vitimizado pela Igreja?
Mais do que vítima, sou oprimido. Meu desafio e o de outros fiéis é a libertação.

Qual a sua opinião sobre o papa Bento XVI?
Eu o considero um líder, mas a minha vivência no catolicismo me pede para questioná-lo.

Você crê que algum dia a Igreja mudará?
Se eu morrer bem velho, espero que até lá alguma coisa mude.

Que lugar em Campinas mais lhe inspira em suas orações?
A Catedral, quando não está tão cheia. É um lugar que eu respeito muito. O prédio foi construído com muito sofrimento. Tanto pelo sofrimento físico, pelo qual os escravos passaram, quanto pelo sofrimento das pessoas que deram dinheiro para sua construção, com o intuito de se livrarem de suas culpas.

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