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PERSONA

Por Eduardo Gregori
editor@espacogls.com

Ela é uma guerreira e dá sua cara a tapa quando o assunto é a dignidade GLBT. Recentemente passou por apuros devido ao incontrolável desejo de ser simples e plenamente uma mulher. Direito que ainda é omitido na maioria dos estados brasileiros. Esta é Maitê Schneider, ativista, atriz e mulher e foi com ela que bati um papo sincero o qual revelo aqui para vocês.




Você está fazendo uma campanha para financiar sua readequação sexual. Quanto já conseguiu arrecadar?
Arrecadei já um pouco mais de 6 mil reais e a campanha iniciou no dia 23/12 de 2005

Porque o governo não custeia sua cirurgia?
Na verdade, em alguns locais, algumas raras cirurgias são custeadas pelo SUS. Como é o caso de São Paulo, POA e São José do Rio Preto, mas geralmente a transexual tem que morar na cidade, não aceitam laudos de outros estados e tem que entrar numa enorme lista de espera. Por ano são operadas no máximo 5. Enfim, ainda há muita dificuldade. O governo não dá respaldo efetivo e pleno apoio, creio eu, por não entender na essência o que passamos. Para o governo, assim como para a maioria da sociedade, é somente uma cirurgia "de luxo" e simplesmente plástica. Não percebem que é uma cirurgia de readequação e de equilíbrio para a cidadã transexual.

Onde a cirurgia será feita e por quem?
Infelizmente o médico não deseja ter seu nome divulgado, devido estar fazendo um abatimento em seus honorários.

De que maneira as pessoas podem te ajudar?
Na verdade foi criado um site onde explicam as formas como as pessoas podem ajudar, não somente a mim, como a outras homens e mulheres que passam o que estou passando. O site fica em http://www.formigueiro.casadamaite.com e qualquer dúvida pode ser tirada pelo email sonho@casadamaite.com


Você é sempre criticada por pedir dinheiro para ir à paradas, pagar hospedagens em hotéis e agora para sua cirurgia. O que você diz aos seus críticos?
Nunca tive vergonha de pedir nada. Ajuda quem quer. É simples. E sempre sou ajudada em todos os momentos que preciso. Muita gente acha isto humilhação. Eu não vejo desta forma, pois o trabalho que desenvolvo é quase 100 por cento gratuito e voluntário. As pessoas que criticam devem ser aquelas que menos fazem por si e pela coletividade em geral. Não dá para se incomodar com as críticas, pois faço meus pedidos de modo público. Tenho que aceitar os elogios, ajudas.. e também os xingamentos e criticas nada construtivas que me são feitas, concorda?

Você é uma pessoa muito exposta na mídia, principalmente na internet. Esta exposição contribui ou atrapalha a sua vida privada?
Até uma certa idade eu não gostava de aparecer. Aliás, fugia de qualquer tipo de aparição. Chegava a ter vergonha de mim mesma. Depois de um tempo, comecei a me mostrar e gostar muito disto. Mostrava-me pois na época eram poucas as transexuais que apareciam. Eu queria mostrar que tinha uma vida, uma família, que tinha altos e baixos, enfim, que era um ser humano. Não gosto de aparecer gratuitamente, mas nunca neguei que gosto de expor o que faço e expressar publicamente o que penso. Tudo na vida tem um lado bom e outro nem tanto, mas a exposição que faço de minha pessoa é muito positiva para mim. Aprendi a trabalhar com isto e hoje em dia conduzo isto muito bem. A vida privada é um pouco invadida, mas acredito que as pessoas que realmente me querem bem, sabem tratar bem desta questão e não se importam com esta super exposição. No saldo final, entre coisas boas e não tão boas que esta exposição causa, creio que sempre saio ganhando. Pelo menos sinto assim.

Recentemente você passou por um momento complicado devido a uma operação nos testículos. Como foi isso?
Eu cheguei aos 33 anos de idade e sem ter uma previsão para minha adequação de vida. Então, fiquei pesquisando por um grande tempo na internet, sobre como deveria fazer para retirar sozinha os testículos que tinha e que produziam a maldita testosterona infernal em meu corpo. Comprei tudo que era preciso (gaze, bisturi, fios de sutura, povodine, anestésico, etc...) Acabei falando, com uma amiga de Foz do Iguaçú, que havia feito a cirurgia de remoção dos testículos numa clinica do Paraguai. Ela, sabendo de minha intenção, me alertou dos riscos que eu estaria correndo fazendo tudo isto sozinha em casa. E então me convidou a ir até lá e procurar a tal clinica. Fui até lá, comprei passagem de ida e volta para o mesmo dia, e me submeti a esta cirurgia. Só que o médico que tinha operado esta minha amiga, não estava na clinica, e fiz a cirurgia com um outro que lá estava. Uma cirurgia que era para demorar 3 horas no máximo, fiquei aberta por quase 8 horas. E ainda tive que voltar no mesmo dia, por não ter dinheiro para ficar em Foz.

E como foi sua recuperação?
Minha recuperação foi ótima nos 5 primeiros dias, até tirar o dreno que tinha sido colocado. Começou então a inchar a região da bolsa escrotal e ficou tão grande e inchada que eu não conseguia nem me locomover. Fui em dois urologistas que não quiseram me atender e ficaram assustados com a situação. Até que fui atendida por uma médica que finalmente sensibilizou-se com meu caso, fui novamente internada, desta vez em Curitiba, fiz nova cirurgia, coloquei mais dois drenos, e finalmente tudo normalizou-se. O quadro já se encaminhava para infecção generalizada.

O que mudou na sua vida desde a extração dos seus testículos?
Mudou que parece que fiquei 20 quilos mais leve. Sabe aquelas bolas de ferro que prisioneiros carregam em filmes, do tipo "irmãos metralhas"??? Então, parecia que eu tinha duas daquelas. Após a cirurgia também ficou mais fácil para usar roupas mais justas na hora de colocar a calcinha. Incrível a sensação, foi como quando coloquei as próteses nos seios. Eu as sinto, como se meus seios sempre estivessem ali, entende??? O mesmo com a retirada dos testículos. Sinto como se eles nunca estivessem estado ali dentro. Pois nunca os senti como algo meu de verdade. Mas também, após a remoção dos mesmos, passei por um período de menopausa descompensada precoce. Tive desmaios, calorões brutais a cada meia hora, e aumento grande de peso.

Muitas transexuais vivem o drama de ter corpo e mente trocados. Que conselho você dá para elas e eles?
Tentem ter o máximo de calma. Coisa que eu tentei e não consegui ter. Pensem primeiramente em sua saúde, pois sem ela, de nada adianta irmos atrás de quem realmente somos. A saúde é primordial na busca de encontrar nosso verdadeiro corpo "definitivo" e adequado. Outro conselho que dou é que tentem se unir. Ninguém está sozinha. Não tenham vergonha de serem, de pedirem e de ousarem. O importante é VOCÊ e seu bem estar, OK?

Algumas transexuais depois de operadas abandonam a comunidade GLBT e passam a ter uma vida heterossexual. Por que isso acontece?
Na verdade, a grande maioria das transexuais que conheço é heterossexual. Não creio que isto mude após a cirurgia. O que acontece é que grande número de transexuais, após a cirurgia, quer apagar qualquer vínculo e ligação que existe com seu passado (como se isto fosse possível, né?) . Algumas transexuais não querem nada que as remetam ao passado que tanto lutaram para sair. Enfim, existem diversos casos, mas o que tenho notado na prática é isto. Também percebo que acontece um aquietamento da meninas operadas, onde alguns valores mudam e assim sendo, mudam alguns sentimentos e posicionamentos.


Além do seu site e do ativismo GLBT você pensa em ter uma profissão, formar uma família, adotar crianças? E Maitê já se viu como mãe?
Na verdade, eu tenho profissão.. e que adoro, escrevo, atuo, e construo sites. Mas gostaria de me formar em jornalismo e poder fazer mais coisas nesta área que tanto adoro. Penso sim em amar, ser amada, e ampliar minha família. Já tenho irmãos, mãe, pai, sobrinhos e quero aumentar pessoas próximas a mim, sim! Penso em ter filhos, casar e ser feliz. Já me vi como mãe, por diversas vezes e creio que eu seria uma boa mãe e teria muito a ensinar e principalmente muito amor para dedicar.

Você já pensou como será sua vida após a cirurgia?
Creio que seria a mesma que levo hoje em dia, mas sem algumas dificuldades, do tipo bloqueios na hora de estar intimamente com alguém que eu ame, dificuldades com relação à documentação civil e também finalmente me ver refletida "verdadeiramente", como sempre fui.. um mulher plena e completa. No mais, creio que tudo será igual. Só estarei mais leve e mais plena. Creio que poderei ser mais feliz do que tento ser hoje.


E depois dela, qual seu principal objetivo?
Após a cirurgia quero a troca de registro de civil e depois continuar vivendo e tentando ser feliz e espalhar um pouco de felicidade e amor por onde em passo. Obrigada Eduardo Gregori pela chance de abrir um pouco mais de meu coração e como penso. Se possível.. ajude com que eu consiga finalmente fazer minha cirurgia final, na Campanha "Operação Maitê". A idéia é também ajudarmos outras pessoas que passam por estas dificuldades. Veja como você pode ajudar e fazer parte desta idéia, indo em http://www.formigueiro.casadamaite.com. Posso contar com sua ajuda?

 

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