Se há 40 anos o sonho de quase toda garota, alentado por uma legião de mães corujas, era ser miss, hoje a ambição é justamente trabalhar com moda. Acumular milhões de dólares na conta bancária e transformar-se em um fenômeno midiático da magnitude de Gisele Bündchen é projeto de vida de um sem número de adolescentes. Mas o mercado da moda não é construído apenas por beldades magérrimas que borboleteiam nas passarelas, tampouco de estressados e excêntricos estilistas.
Para que um evento de moda se torne realidade é preciso produção e conhecimento. Nos bastidores, profissionais especializados suam a camisa para que as estrelas do espetáculo continuem ostentando o glamour inerente à moda. O trabalho essencial também contribui para ampliar um mercado que gera emprego e muito, muito dinheiro mundo afora.
Profissional altamente especializado, Kurlan Rogo atua nos bastidores da moda há mais de duas décadas. Sem os holofotes dos grandes eventos ou os flashes dos editoriais, o produtor encara a atividade como um negócio. “Há uma demanda de trabalho em nichos formados por tecelagens e confecções que precisam divulgar a produção por meio de catálogos. Aí entra o produtor, que vai realizar o que o estilista ou o editor de arte pensaram”, explica. Fui foi ao encontro de Kurlan para conhecer um pouco deste universo que fascina de modeletes até executivos que usam ternos de grifes internacionais.
Como e quando você começou a trabalhar com moda?
Trabalho com moda em Campinas há décadas. Comecei na profissão cursando modelagem industrial em produção. Meu mestre foi Ênio Fabenne, com quem tive a oportunidade de trabalhar. Graças a ele, atuei em grandes empresas e com profissionais renomados nas áreas de moda, beleza e eventos. A experiência foi para mim uma grande escola profissional. Sou de um tempo em que não existia cursos ou universidades de moda. Nem aqui, nem em São Paulo. Quem queria ingressar no ramo, tinha que aprender na marra, no dia-a-dia.
Então você aprendeu o ofício sozinho...
Foi um desafio. Existiam alguns poucos cursos em São Paulo, mas eram coisas isoladas, como vitrinismo. Aprender sozinho foi bom. Pela prática, aprendi a trabalhar e mais tarde pude formar outros profissionais, por meio de aulas, cursos e workshops.
Campinas teve grandes agências de modelos. Como está o setor atualmente?
As agências de modelos que estão no mercado campineiro resistem bravamente.
E as modelos campineiras? Como você as descreve?
Campinas tem mulheres lindíssimas. Isso é tradição. Podemos citar algumas como Daniela Mazariol, Valéria Monteiro, Alessandra Müller, Lara Gerin e Patrícia Salvador. Atualmente, o Concurso Miss Campinas garante ao mercado da moda uma nova safra de meninas lindas todos os anos.
Muitas jovens sonham em ser Gisele Bündchen. E sabe-se que não há milagres para fazer sucesso na profissão...
Digo a estas meninas que não basta ser bonita. Para chegar a top model e conquistar uma carreira, é preciso se preparar muito e ser extremamente profissional. Tanto aqui quanto lá fora, o mercado é muito competitivo.
Existe mercado de moda em Campinas?
Existe na região de Campinas e não apenas na cidade. O mercado local não é baseado apenas no estilismo. Gira em torno de vários segmentos, como por exemplo as confecções, as tecelagens de Americana, os eventos e as vitrines dos shopping centers...
Você está dizendo que na região a moda é vocacionada aos negócios?
Sim, totalmente. Se pensarmos em um mercado editorial ou de eventos voltados exclusivamente para a moda, eu diria que ainda há muito para se estruturar por aqui. No entanto, há uma demanda de trabalho em nichos formados por tecelagens e confecções que precisam divulgar a produção por meio de catálogos. Aí entra o produtor, que vai realizar o que o estilista ou o editor de arte pensaram. Para este trabalho, é preciso uma série de profissionais, como maquiador, modelo, fotógrafo... Desta forma, estabelece-se um mercado de trabalho que é fruto da moda, mas de uma moda coorporativa.
Pode-se dizer que produção de moda é uma atividade reconhecida?
Se considerarmos a produção para corporações, sim. Mas de maneira geral, creio que ainda não exista um reconhecimento do mercado como um todo. Tal reconhecimento está mais focado no profissional. Se o produtor se destaca, certamente será lembrado e valorizado.
Qual é a sua avaliação dos eventos realizados na cidade?
Acho muito positivo. Temos grandes iniciativas em Campinas, como o Bem na Moda, organizado por Renata Podolsky e Silvia Quirós, o Campinas Mostra a Moda, que envolve o trabalho de Renata Patroni, e a Semana de Moda e Cultura, promovida por Maria Alice Ximenes.
De que maneira a moda ditada nos grandes centros chega a Campinas?
Uma das características da moda é não ter fronteiras; por isso ela atinge as pessoas por várias vias: seja nas ruas, seja pelos meios de comunicação de massa como televisão, revistas e internet.
Na sua opinião, as campineiras andam na moda?
Campinas é uma metrópole e não há como generalizar tantas linhas que encontramos aqui. Creio que as mulheres mais descoladas e que valorizam um estilo de vestir mais prático têm maior chance de estar na moda. Mas nem sempre se arriscar em um visual contemporâneo significa estar na moda.
Como você avalia o visual da mulher campineira?
De maneira geral, a campineira é bem tradicional. Ela prefere não arriscar para não errar. Acredito que esse comportamento tenha origem numa questão cultural que vem das famílias mais antigas que se estabeleceram na cidade.
E os homens?
O homem campineiro está mudando. Está mais vaidoso. Observo isso nas academias, nas clínicas de estética, e até mesmo nos shoppings, sempre cheio deles.
Na sua opinião, há alguém que se destaque no estilismo ou no design em Campinas?
No estilismo gosto de Chica Moreira, de Ludy Ferreira... Também aprecio muito o trabalho de Luis Roberto Rios.
O que é moda para você?
Moda é ter atitude e bom senso. Estar na moda é pôr em prática.
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