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PERSONA

Por Tiago Duque
duque_tiago@hotmail.com

Larissa Nadine Rybka

Olá pessoal. Cada vez mais os bissexuais e as bissexuais estão se assumindo em nosso meio. Para melhor compreender o universo desta orientação sexual, entrevistei a militante socialista bissexual Larissa Nadine Rybka. Confiram a sensibilidade de suas respostas:

Como você se descobriu bissexual?
Acho que o primeiro passo foi deixar de achar que as relações homossexuais eram bizarras, imorais. Tive que superar uma educação bastante conservadora, inclusive em relação à sexualidade. Esse processo aconteceu durante a faculdade, quando fui conhecendo homens e mulheres homo ou bissexuais, percebendo que eram pessoas “normais”. E aí comecei a aceitar a existência de um desejo homossexual, permiti que se manifestasse, e quando fiquei pela primeira vez com uma amiga foi como se apaixonar pela metade da humanidade de uma vez!

Descreva rapidamente como é a sua relação com a família, amigos, trabalho e namorado(a).
Minha relação com a minha família é muito formal, distante. Eles não sabem da minha bissexualidade, ainda não tive disposição para contar. Acho que eles vão perceber aos poucos, vai acabar se tornando um fato, como tantas outras coisas. Mas confesso que não acho muito legal o fato de eu não bancar isso diante da minha família, sendo militante... Tenho uma filha de 4 anos, que mora comigo. Tenho vivido relações do tipo “sexo e amizade”, então como a Helena não vê a parte “sexo”, fica tudo como uma grande rede de amig@s. Acho legal ela perceber que existe uma relação de carinho, que dá para viver fora do modelo de família que nos é imposto sem que isso seja sujo, perverso. Quanto a trabalho e amig@s, é difícil descrever rapidamente, mas em relação à minha bissexualidade especificamente, é público e tranqüilo.

Quais são as principais características da bissexualidade?
De forma bem simplificada, a bissexualidade se caracteriza pela orientação do desejo afetivo-sexual tanto para homens quanto para mulheres. É importante lembrar que isso não é estático; existe um processo permanente de construção da identidade sexual, um caleidoscópio de desejos que se traduz em vivências sexuais muito diversas ao longo da vida. É possível ficar anos em um relacionamento heterossexual, por exemplo, sem perder a identidade bissexual.

Aponte-nos alguns “mitos” sobre a bissexualidade
São muitos... lá vão alguns:
- Os bissexuais são homossexuais que não querem “sair do armário”; querem manter o conforto de um relacionamento heterossexual quando isso for conveniente.
- Os bissexuais não sabem o que querem.
- Os bissexuais são perversos, pois topariam se relacionar com qualquer pessoa (homens e mulheres). Neste ponto, gostaria de fazer uma consideração. Acho que a bissexualidade questiona a monogamia, pois está pressuposto que existe desejo por outras pessoas (inclusive do sexo oposto ao de seu/sua companheir@). A questão é que o desejo por outras pessoas existe em qualquer relacionamento. Pode-se optar por reprimir/negar isto, em nome da “fidelidade”, desenvolvendo uma relação geralmente doentia, possessiva, empobrecedora de outras relações sociais. Ou pode-se optar por lidar com o fato, conversar sobre, o que não significa necessariamente viver um relacionamento aberto. E mesmo quando se opta por um relacionamento aberto, não se deve ter a ilusão de que isto “resolve” os problemas da relação. Inclusive é necessário ter acordos, respeitá-los, mudá-los quando não servirem mais... Exige muita conversa e muito respeito pel@ companheir@. Dava para ter uma entrevista só sobre este assunto!


Sabemos que os(as) bissexuais também são vítimas de preconceito por orientação sexual. Conte-nos quais as dificuldades que o(a) bissexual enfrenta no meio homossexual. Estas dificuldades são as mesmas que vocês enfrentam nos espaços heterossexuais? Porquê?
No meio homossexual corremos o risco de ser rotulados como pessoas que não “saíram do armário”. Isso é uma acusação grave, porque a principal estratégia de luta do movimento LGTTB é justamente dar visibilidade às vivências afetivas não heterossexuais. Precisamos primeiro existir como sujeitos sociais para então podermos reivindicar direitos. Mas me parece que este preconceito está sendo superado no meio homossexual, pela própria transição de um momento em que era urgente e necessário afirmar a questão da homossexualidade para um momento em que nos interessa uma discussão mais ampla de Direitos Sexuais enquanto Direitos Humanos. Em relação aos preconceitos por parte dos heterossexuais, em geral vêm embutidos em um discurso conservador, muitas vezes religioso (mas nem sempre), do valor da família, da procriação, de “respeito à natureza” (relações homossexuais seriam contra as leis da natureza), etc. Muitas vezes sequer existe diálogo, estes “argumentos” nem são colocados para que possam ser discutidos, porque o ódio é muito mais visceral do que racional. Aí o preconceito já vem na forma de violência (física, verbal, sexual, social). E o movimento LGTTB tem dado respostas à altura: atos com carro de som, panfletagem, beijaço, e o uso da Lei Estadual contra a Discriminação por Orientação Sexual.

Você participa de algum movimento social ou ONG? Como é esta participação?
Minha militância no movimento LGTTB é indissociável da minha militância socialista. Os socialistas lutam por uma transformação profunda das relações humanas em todos os âmbitos. Isso significa o fim da exploração do trabalho da maioria por uma minoria e o fim de todas as formas de opressão (negros, mulheres, LGTTB, algumas religiões e culturas). Uma sociedade em que se possa construir relações sociais igualitárias, com respeito à diversidade humana (que inclui a diversidade sexual). Sou militante do PSOL (Partido Socialismo e Liberdade), do movimento feminista e de 2 grupos LGTTB (o Identidade e o N.U.D.U. – Núcleo de Diversidade Sexual da Unicamp).

Como as pessoas podem participar destes espaços? Quais são as exigências?
As reuniões do Identidade acontecem aos domingos à tarde. Contato: identidade.campinas@uol.com.br As reuniões do N.U.D.U. acontecem toda 3ª, das 17h30 às 19h, na Cantina do DCE. Contato: Larissa 9132-1737. Quem aparecer em alguma reunião destes grupos será muito bem recebid@, será convidado a participar de atividades de formação política, de projetos, de atos e mobilizações políticas e culturais. E o PSOL tem 6 Núcleos em Campinas, eu participo do Núcleo Unicamp. A melhor forma de conhecer o partido é conversando com militantes de algum Núcleo e participar de atividades que o PSOL esteja organizando com outros movimentos sociais. E tem o site: www.psolsp.org

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“Uma flor nasceu na rua!
Furou o asfalto, o nojo, o tédio e o ódio.”
(A Flor e a Náusea/A Rosa do Povo/Carlos Drummond de Andrade)

spero que tenham gostado da entrevista.
Vamos acolher os bissexuais e as bissexuais sem preconceito. Para quem desejar se comunicar com a Larissa, seu e-mail é: lariunicamp@hotmail.com


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