PERSONA
Por Eduardo
Gregori
editor@espacogls.com
Maria
Cristina Feijó Januzzi Ilario
É impossível pensar na luta contra a Aids em Campinas
e não associar o nome de Maria Cristina Feijó Januzzi
Ilario. Enfermeira sanitarista formada pela Universidade Estadual de
Campinas (Unicamp) na década de 80, ela está à
frente do Centro de Referência do Programa Municipal de DST/Aids
há 13 anos. Apaixonada pelo trabalho, ela coordena uma equipe
de 100 pessoas responsável por controlar uma epidemia que ainda
não tem cura, mas sim tratamento, e mobiliza cientistas e governos
do mundo inteiro na busca por uma vacina.
Como o Centro
de Referência (CR) atua na cidade?
O centro promove e implanta políticas públicas e ações
para a prevenção e tratamento da Aids e de doenças
sexualmente transmissíveis. Por meio de parcerias ou de financiamentos
do governo, o CR trabalha com a população. Quando pensamos
em um projeto, sentamos com os usuários do serviço e juntos
fazemos cálculos de custos, recursos e fiscalizamos se o dinheiro
está sendo usado para o que foi destinado. Costumo dizer que
o Programa Brasileiro de DST/Aids é o SUS que deu certo.
Como os
casos de Aids têm evoluído em Campinas?
De 1982, quando a Unicamp detectou o primeiro caso no Brasil, até
2006, foram notificadas aproximadamente 4.700 pessoas com Aids na cidade.
Mais da metade morreu nos anos 80, porque naquela época não
se dispunham de drogas que tratassem e prolongassem a vida. Atualmente,
há cerca de 2.300 pessoas vivendo com HIV e estima-se que outras
2 mil sejam portadoras e não saibam.
Nos anos
80, a Aids ficou conhecida como peste gay. Qual é o perfil da
contaminação hoje em dia?
Os homossexuais fizeram um grande trabalho de prevenção,
criaram ONGs para orientar e acolher pessoas com HIV, mobilizaram esforços
para o enfrentamento da epidemia. O trabalho resultou em queda no número
de homossexuais infectados pelo vírus. Atualmente, os casos de
Aids se concentram entre heterossexuais, principalmente entre mulheres
de 20 a 39 anos.
Os jovens
relacionam-se sexualmente cada vez mais cedo. Isso gera preocupação?
Sim. Apesar de os jovens passarem a aceitar bem o uso do preservativo
como principal estratégia de prevenção nas relações
sexuais, é impossível saber o número dos que usam
camisinha em todas as relações. Há um novo crescimento
de casos entre homossexuais jovens.
A terceira
idade também é afetada pelo HIV...
A tecnologia em saúde e as condições de vida
no País têm contribuído para a longevidade. Também
pelas drogas para disfunção erétil, o sexo na terceira
idade é realidade. Por isso, homens e mulheres desta faixa são
vulneráveis à infecção pelo HIV. A Aids
também tem aumentado entre as heterossexuais com mais de 50 anos.
O número de casos ainda é pequeno, mas a velocidade de
crescimento ano a ano é alta.
O preconceito
contra a Aids mudou?
Sim. A auto-estima dos que vivem com o HIV/Aids melhorou. Eles ajudaram
a criar leis que punem as discriminações social e trabalhista
e sabem que têm direito a tratamento público de qualidade.
Há
alguma possibilidade concreta de vacina?
A camisinha ainda é a única vacina disponível
para a Aids.
O governo
faz constantes ameaças de quebrar patentes de medicamentos para
tratamento da Aids. A senhora concorda com isso?
Sim. O Brasil assinou um acordo internacional desvantajoso. Não
podemos, por exemplo, comprar remédios do fornecedor na Argentina,
onde são mais baratos, porque o acordo não permite. A
lei que protege a propriedade intelectual no mundo não poderia
ter as mesmas regras para medicamentos, especialmente para o tratamento
da Aids. Os ultimatos que o Brasil tem feito aos produtores farmacêuticos,
detentores das patentes, vêm surtindo efeitos práticos,
com a diminuição de até 80% dos preços de
anti-retrovirais.
Pode-se
confiar plenamente na camisinha como prevenção da Aids?
Os preservativos, usados adequadamente, são uma garantia
de 99,9% contra HIV e doenças sexualmente transmissíveis.
Estamos falando de camisinhas de qualidade, como as distribuídas
gratuitamente pelo governo.
O Brasil
fornece número suficiente de camisinhas para a população?
O Brasil tem o melhor programa de Aids do mundo. A capacidade de
produção mundial de preservativos gira em torno de 4 bilhões
de unidades ao ano. Só o País compra 1 bilhão desses
preservativos, que são entregues pelo SUS. O País está
investindo em uma fábrica no Acre, que deverá aumentar
o número de preservativos para a população.
Quantos
preservativos foram distribuídos em Campinas no Carnaval 2007?
Foram cerca de 350 mil preservativos. O índice de foliões
que rejeitaram a oferta foi insignificante: 0,1%.
Como o público
recebe o agente que faz a distribuição?
A receptividade no Carnaval foi gratificante. Sorrisos, respeito,
solicitação de informações, pais estimulando
os filhos a aceitarem o preservativo. As mulheres, em especial, foram
muito receptivas e interessadas.
Conte algum
caso curioso no corpo a corpo da distribuição.
Num dos pouquíssimos casos de recusa do preservativo, perguntei
a um homem de mais ou menos 50 anos a razão do não. Ele
respondeu que sua religião não permitia. Perguntei, então,
se as pessoas daquela religião não faziam sexo com respeito
e proteção ao parceiro. Ele me olhou e recebeu a camisinha.
Quando eu ia saindo, disse que faziam com muito amor e respeito e que
ensinavam isso aos filhos. Uma mulher de uns 70 anos também me
surpreendeu ao pedir mais de um preservativo.
Como é
sua rotina de trabalho?
Minha rotina de trabalho nunca é rotina. Coisas maravilhosas,
assustadoras, preocupantes e instigadoras acontecem o tempo todo. Não
canso de me surpreender com o potencial de generosidade, solidariedade
e responsabilidade que existe no mundo. As maiores lições
de amor, cuidado, coragem e força recebi dos que a sociedade
ainda teima em discriminar, rejeitar e excluir.
Fora do
trabalho a senhora conversa com os amigos sobre prevenção?
Fora do trabalho, dentro do trabalho, paralelo ao trabalho, transversal
ao trabalho, próxima ao trabalho, de férias do trabalho...
Falar de prevenção é falar de saúde, de
amor, de cidadania.
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