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PERSONA

Por Sammya Araújo
editor@espacogls.com

Quem ousa transgredir padrões está sujeito a pagar um alto preço. Essas pessoas, que muitas vezes convivem com os que cometem violências e não aceitam a quem segue o que é estabelecido como normal, têm como provável destino viver à margem da sociedade. Janaína Lima faz parte deste grupo. Travesti e nordestina, escolheu uma cidade tradicionalista para viver. Enquanto todas as possibilidades lhe acenavam uma existência regida pela pobreza, prostituição e violência, Janaína tratou de lutar para que seu destino não fosse menos do que digno.

Entrou para o Identidade, grupo de ação pela cidadania da população de gays, lésbicas, bissexuais e trangêneros (GLBT) de Campinas e aprendeu que tinha direito a um lugar na sociedade como qualquer pessoa. Lá, construiu o Cidadania na Pista, projeto premiado que tem como proposta levar cidadania a travestis que trabalham nas ruas de Campinas.

Janaína não parou por aí. Voltou a estudar e este ano concluiu o curso de Pedagogia na Universidade Paulista (Unip). Lúcida, encara a conquista com os pés no chão e crê que encontrar emprego em uma escola não será uma tarefa fácil. “As pessoas não levarão em conta minha formação acadêmica e sim minha identidade. Isso é o que vai pesar sempre em primeiro lugar”, diz. Corajosa e lutadora, é a primeira travesti do Interior Paulista a se graduar em uma universidade.

Você sempre esbarrou no preconceito?

Encontro preconceito em todos os tipos de problemas. Talvez hoje eu consiga olhar ao redor e perceber o quanto nossa sociedade é desigual com todos pela questão de identidade, sexo, orientação sexual, cor, classe social, entre outros fatores.

Como e quando você começou a projetar o Cidadania na Pista?

Na verdade, o projeto surgiu dentro do Grupo Identidade que, preocupado com a questão da travestilidade, resolveu fazer um trabalho mais direto com as travestis. Fui convidada a ajudar a elaborar esse projeto. Eu contribuía com a minha vivência enquanto outras pessoas tinham a experiência para escrever.

Qual é o objetivo deste projeto?

Na verdade, foi a forma de evidenciar a existência das travestis na cidade de um jeito diferenciado da maneira estigmatizante como vinham sendo expostas. Além disso, também queríamos mostrar que elas poderiam sair de seu cotidiano e estar em outros espaços como qualquer outra pessoa. Então, juntas fomos a teatros e cinemas, exposições e até na Câmara Municipal.

O projeto ainda está ativo?

Sim. Acredito que o Cidadania na Pista não morrerá. A semente foi plantada, germinou e está florescendo aos poucos, por exemplo, com as meninas que não eram militantes e começaram a se preocupar com causas sociais e a defender seus direitos.

É realizado somente em Campinas?

Em Campinas, principalmente. Também tentamos levar para a região metropolitana.

Como você percebeu que podia ter uma vida como qualquer outra pessoa?

Por meio do Grupo Identidade percebi que sou como qualquer outra pessoa. Ele me ajudou a enxergar a minha cidadania e os meus direitos.

Como foi voltar aos estudos como travesti?

Foi uma fase bem difícil de minha vida, afinal estava afastada há mais de dez anos da educação formal.

Como os professores da escola e da universidade a receberam?

Na escola, houve uma conversa com os professores e com a direção. Isso facilitou um pouco e, como a maioria dos alunos de minha sala era adulta, acabei não causando tanto impacto. Para eles talvez fosse estranho ter uma travesti na sala de aula, mas me aceitaram, ainda mais porque eu tenho noção dos meus direitos.

Como foi sua vida dentro da escola e da universidade?

Minha vida dentro da universidade foi mais difícil. Era um público diferente que vai muito mais pela aparência de quem esta lá. Fui muito apontada, não dentro da sala de aula, mas pelos corredores. Porém, consegui dar a volta por cima e me mantive nos três anos de curso.

Sofreu algum tipo de preconceito?

Preconceito eu sofri e sempre sofrerei. Acredito que as mudanças maiores em relação ao preconceito e à discriminação não serão para a minha geração.

Porque você escolheu ser pedagoga?

Na verdade, essa escolha foi por acaso. Como não tinha muita opção, escolhi a pedagogia sem saber direito do que se tratava. Mas, confesso, acabei me apaixonando pelo conhecimento.

Você crê que alguma escola lhe oferecerá emprego?

No momento, tenho certeza que não, pois as pessoas não levarão em conta minha formação acadêmica e, sim, minha identidade. Isso é o que vai pesar sempre em primeiro lugar.

Você acredita que pais tenham medo ou preconceito de deixar seus filhos sob a orientação de uma travesti?

Acho que os pais terão preconceito e não medo, pois existem muitos “professores” que não estão preparados para dar aula e estão lá. E os pais não se importam com isso porque são mulheres ou homens. Mas quando depararem com uma travesti na sala, com certeza não irão aceitar.

Como você pretende mudar essa situação?

Sinceramente não tenho a fórmula. Isso será uma construção que só com o tempo poderei responder.

Como se combate o preconceito?

Acima de tudo tendo noção de seus direitos e, com certeza, com uma boa educação que começa em casa, com os pais, e em seguida com a escola e outros espaços educacionais.

Que lugar de Campinas mais lhe traz boas lembranças?

Campinas é uma cidade de que gosto muito, talvez por isso nunca tenha desistido dela. Há diversos lugares que eu poderia elencar como boas lembranças, mas vou ficar com a Francisco Glicério tomada na Parada do Orgulho GLBT. Acho que é uma boa lembrança para mostrar que estamos aqui, juntos, como todas as pessoas diferentes, ou nem tanto, e também como moradores desta cidade linda.

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