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PERSONA

Por Eduardo Gregori
editor@espacogls.com

Eleições 2008

Espaço GLS entrevista Deco Ribeiro, homossexual, ex-presidente do grupo E Jovem e candidato a vereador por Campinas pelo PCdoB


Porque você decidiu se candidatar?
Porque já passou da hora de um representante da comunidade gay fazer parte do Governo. Eu sempre atuei pela visibilidade e pela defesa dos direitos de gays, lésbicas, travestis, transexuais e bissexuais, sobretudo jovens, e sei que temos qaue estar sempre tratando com vereadores, prefeitos, governadores, secretários, ministros... Temos que ficar sempre tentando sensibilizar essas pessoas e quase implorando para que nos reconheçam e apoiem nossas demandas. Chega, né? É nossa hora de decidir o que é bom pra gente. O que faltava era o apoio de um partido de verdade, comprometido em mudar o mundo. E isso eu só encontrei no PCdoB, que não só se abriu para discutir internamente a questão GLBT como fez questão de lançar um candidato aberta e assumidamente gay, o único dessa eleição.

A sua saída da presidência do E-jovem tem a ver com a candidatura?
Não, também foi algo que já tinha passado da hora. Quando eu fundei o E-JOVEM, há sete anos, eu não tinha 30 anos ainda. E o ideal do grupo sempre foi dar voz e visibilidade ao jovem GLBT. O que aconteceu foi que houve um encontro nacional em julho (o E-JOVEM é uma rede nacional de juventude GLBT) e eu não me candidatei à reeleição. O atual presidente, Chesller Moreira, tem 26 anos e é transgênero, isto é, ele é gay mas se monta como a drag queen Lohren Beauty. A vice dele é a Aira Corerato, lésbica de apenas 18 anos. Ambos de Campinas. Mas existem mais dez diretores, de todas as regiões do Brasil - todos entre 15 e 20 e poucos anos. Tava na hora da juventude tomar posse.

Qual é a sua plataforma?
Bom, de imediato precisamos fazer algo quanto à violência que os gays estão sofrendo no centro, ali em volta do Sucão. A praça em si até que é tranquila, mas nas ruas próximas já ocorreram vários ataques este ano - tudo indica que causados pelo ódio a homossexuais. Então temos que resolver isso. E como? É preciso que essa população seja reconhecida pelo poder público como uma população que existe, que é vulnerável e que tem direito à segurança. É preciso que a Guarda Municipal patrulhe aquela área à noite e que os guardas sejam treinados para lidar com e respeitar a comunidade GLBT.
Tenho um projeto que não só torna o ensino do combate à homofobia obrigatório na guarda, como exige o teste e a eliminação de GMs homofóbicos.

Outro ponto importante do meu mandato será a Educação. É na escola que tudo acontece. Ali que o jovem se descobre gay pela primeira vez - e onde sofre as primeiras discriminações. Se a escola se propõe a construir a nfutura sociedade, como podemos deixar que ela reproduza o preconceito, a indiferença, a violência? Temos que atuar junto a professores, funcionários, pais e alunos na criação de um ambiente escolar que respeite os alunos gays.

Temos várias outras propostas, mas, em resumo, a idéia é trabalhar em sintonia com a prefeitura para avançar no reconhecimento que já alcançamos. Por exemplo, a prefeitura já apóia a Parada, o Centro de Referência GLBT. Mas pode apoiar mais. E eu vou cuidar disso.

Miltiância e política convivem em harmonia ou são duas arenas diferentes?
Claro, são arenas diferentes. A política está lá representando o povo - mas se o povo só aparece pra votar e some por 4 anos, os políticos ficam à vontade pra pintar e bordar às nossas custas. Já a militância funciona para colocar os políticos de volta no rumo certo, no rumo do que a comunidade deseja - e é aí que entra a harmonia. É precio certa harmonia para que haja um diálogo entre militância e política. Afinal, queremos que os políticos entendam quais são nossos interesses. Me incomoda muito uma militância que só pensa no conflito, que não consegue atrair a simpatia dos políticos para passar e efetivar propostas importantes. Uma militância assim não consegue atrair nem a simpatia da própria comunidade que defende.

Militância e política são duas arenas definitivamente diferentes, que podem conviver em harmonia e que devem ser ocupadas por mais e mais gays, lésbicas, bissexuais, transexuais e travestis (principalmente!). Por quê? Porque as ações da militância e da política definem o rumo de nossas vidas. Você vai deixar que estranhos mudem a sua vida sem a sua participação?

O que a população GLBT de Campinas pode esperar deste novo político?
Eu tenho trabalhado há quase dez anos pela população GLBT sem ser político. E isso não vai mudar. Quem me conhece sabe que eu não abaixo a cabeça para os poderosos, que eu falo o que tem que ser dito e cobro respostas. E é exatamente isso o que farei, seja criando novos projetos que dêem conta dos nossos anseios, seja fiscalizando a prefeitura, pra ver se ela está cumprindo o que já foi aprovado.

Qual será o seu principal foco de atuação?
Eu sou gay, jornalista, educador e represento a população GLBT no Conselho Municipal de Saúde. Então estão bastante claros os meus principais interesses: Combate à homofobia, Comunicação e Cultura, Educação e Saúde. Na Câmara, eu não vou tratar só de gays. Eu vou levar um olhar gay a diversos assuntos e áreas de Campinas.

O movimento pautará as suas ações ou você tem projetos próprios?
Até meus projetos próprios forma pautados pelo movimento. Porque é o lógico. Eu não vou acordar um belo dia e resolver lutar pela criação de um Conselho GLBT, que fiscalize as políticas públicas GLBT da cidade, se esse não for o desejo do movimento gay. Mas sendo esse o desejo da comunidade, eu abraço o projeto como se fosse meu. Eu assinei a carta-compromisso do E-JOVEM (a mesma que o Dr. Hélio assinou) e sei que as propostas ali foram desenvolvidas por mais de 500 jovens de Campinas e outras cidades do Brasil. Agora esses projetos são todos meus também.

O que você pretende fazer para deter a crescente onda homofóbica que se abateu sobre Campinas?
É o que eu disse antes: é preciso um reconhecimento imediato de que nós existimos e estamos ameaçados. É preciso articular as ações governamentais já existentes para aumentar a eficiência. O Centro de Referência GLBT já faz um Mapa da Violência GLBT de Campinas, mas é preciso que esse mapa chegue à Secretaria de Segurança e sirva como referência ao patrulhamento comunitário da Guarda. Isso é o básico. Depois, é trabalhar na criação de uma cultura de combate à homofobia, com mais visibilidade À população GLBT, mais educação para a diversidade nas escolas, maior aplicação e fiscalização da lei anti-homofobia municipal (que já existe, mas é pouco aplicada) etc.

De que maneira você contribuirá para que a cirurgia de adequação sexual para transexuais através do SUS seja efetivamente realizada em Campinas?
A área da saúde é uma área que acompanho de perto e posso assegurar que a cidade será um dos primeiros centros a dispor dessa cirurgia. Simplesmente porque aqui se encontram alguns dos melhores centros de pesquisa e clínica médica do país. Ainda que a implantação da cirurgia ainda dependa de decisões federais e alguma implantação estadual (na Unicamp, por exemplo), nada disso adianta se as travestis e transexuais não forem tratadas com respeito desde que entram pela primeira vez num postinho de saúde no seu bairro. E é nisso que vou trabalhar. Porque muitas dessas trans sentem a necessidade de fazer mudanças em seus corpos ainda na adolescência, mudanças que afetam sua saúde e são realizadas de forma clandestina porque ninguém foi capaz de entendê-las e aceitá-las pelo que são.

Você pensou projetos que contemplem a cidadania das travestis? Quais são eles?
Eu acho muito positivo visibilizar a travesti. Mostrar que ela existe, que ela não é uma vampira que só sai à noite. Gostei muito de saber que alguns órgãos da prefeitura, ao contratarem funcionários, ao se depararem com dois candidatos igualmente capacitados e um deles é travesti, contrata a travesti. Isso ocorre muito na Saúde, por exemplo. Temos que extender essa política, não acha? E dar bolsas para que as travestis estudem, se capacitem para ocupar esses empregos.

A traveti adolescente também é um foco importante: tanto meus projetos na Educação quanto na Saúde têm como foco o GLBT adolescente - e, desses, a travesti é prioritária, sempre. Porque ela está lá, quebrando so padrões de gênero na cara de todo mundo. E recebendo as primeiras pedradas, daquela mesma sociedade que as leva pra cama na calada da noite...

De que maneira você contribuirá para que o CR GLTTB de Campinas tenha mais visibilidade para a comunidade e para a própria cidade?
Primeiro, é preciso inseri-lo em definitivo no organograma da prefeitura. Hoje ele funciona por pura boa-vontade do prefeito. Outro prefeito mais homofóbico pode acabar com o CR numa canetada. Pretendo apresentar um projeto logo na primeira semana que fixe o CR na estrutura municipal - ou até o promova a uma Coordenadoria GLBT, como existe a da Juventude.

Além disso, é preciso divulgar mais o CR e equipá-lo com mais pessoal. É preciso que ele trabalhe em sintonia com outras secretarias e com a comunidade. Pretendo ampliar a verba do CR e propor a criação de mum Conselho Participativo da População GLBT que englobe o CR, todas as secretarias, o movimento gay e membros da comunidade GLBT. Essa galera já se reúne pra organizar a Parada, por que não o ano todo? Gay não é só Parada.

Que diálogo você pretende ter e que ações você proporá para a população lésbica?
Antes de mais nada, é preciso ouvi-las. Da minha vivência de quase uma década com lésbicas e com o movimento de lésbicas, sei que elas se importam muito com sua visibilidade, sua saúde e o direito ao próprio corpo. Ou seja, é preciso reconhecer que são mulheres que amam outras mulheres. Por exemplo, muitas jovens lésbicas que procuram ginecologistas ouvem dos médicos que elas não tem o que fazer ali, pois "não fazem sexo". Algumas são enviadas a psicólogos, para se tratarem do "lesbianismo". Isso é de uma violência inadmissível. em poucas situações uma mulher está mais vulnerável do que numa visita ao ginecologista - e ainda ouvir uma barbaridad dessas?? É preciso uma formação continuada de profissionais de saúde, de professores, de toda a rede de servidores que trabalham com atendimento público.

De que maneira você atuará na questão da prevenção de DSTs/Aids?

Essa é uma questão delicadíssima. Recente pesquisa conduzida em Campinas, com o apoio do E-JOVEM, constatou índices altíssimos de infecção por HIV na cidade. Muitos deles são jovens, que não desenvolveram a doença ainda. O que só aumenta o risco. Devemos então levar essa questão aos mais jovens, às escolas. Pretendo liderar a implantação do programa SPE (Saúde e Prevenção nas Escolas), do Governo Federal, em Campinas e unir educação e saúde, voltada à juventude.

Felizmente o CRT DST/AIDS faz um ótimo trabalho e eu pretendo garantir que esse trabalho continue, com as verbas e a autonomia necessárias ao bom funcionamento das iniciativas (como a publicação do fanzine voltado a adolescentes ou o Bloco da PRevenção que desfila no Carnaval e na Parada).

Sua primeira candidatura é o início de uma carreira política duradoura?
Vou repetir o que já disse lá em cima: um político é um representante do povo. Então, enquanto a população GLBT entender e me der a honra de representá-la, estarei sempre à disposição. Mas minha luta pelos interesses da comunidade continuaráo, dentro ou fora do governo. Afinal, diferente dos outros candidatos, que podem jurar apoio aos gays na hora da eleição e virar as costas depois, eu sou gay. E não tenho como (e nem quero!) fugir disso.

De que maneira você contribuirá com a Parada de Campinas e atividades do Mês da Diversidade Sexual?
Ah, esse é o maior evento de rua da cidade. Nenhuma outra manifestação leva tantos campineiros às ruas quanto a Parada. É óbvio que ela precisa de mais dinheiro, de mais estrutura e, principalmente, de mais boa-vontade política. É preciso que todos os envolvidos saibam - desde o gestor (o prefeito, o secretário) até o servidor (o policial que fecha a rua, os funcionários que montam o palco) - que estão realizando um grande evento para a cidade de Campinas e não apenas "um favorzinho pros gays". E isso se faz com mais apoio - seja financeiro, seja em declarações públicas. E um vereador comprometido com a população GLBT pode garantir esse apoio, pode fiscalizar se tudo está sendo realizado a contento, pode articular mais apoio. Campinas não tem nem ao menos uma Frente de Combate à Homofobia na Câmara ainda. Realmente, pelo jeito, falta um gay lá!

Se tiver mais alguma coisa a dizer... é só escrever
Há uma fome mais funda que a fome: a fome de ser. De ser reconhecido e respeitado pelo que se é. Essa é a fome que fez com que eu saísse candidato.

Nessa reta final, nessas últimas semanas de campanha, é essencial trabalhar para matar não só a nossa fome, mas a de todos os nossos amigos e familiares. Guarde meu número - 65050 - e divulgue entre todos que você conhece. Consiga que todos ao seu redor votem num candidato que sofre na pele, diariamente, da mesma dor sua. É um de nós lá. E a gente pode. Não só pode, como merece.

Deco Ribeiro 65050
PCdoB - Vereador
pelo vermelho do arco-íris!

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