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PERSONA

Por Jorge Marcelo Oliveira
marcelo.oliveira@yahoo.com.br

Rúbya Bittencourt

Paulo Balderramas, ator e diretor de teatro dá vida a Rúbya Bittencourt, uma drag queen conhecida por seu humor ácido. Uma humorista de carteirinha, Rúbya não tem papas na língua e por não ter rabo preso com nada é autêntica como ninguém. Rúbya volta a coluna Persona numa entrevista mais densa e reveladora.

Muitos gays e muitas lésbicas vivem sua sexualidade unicamente na noite, assumindo-se, paquerando, namorando e transando, sem medo de serem discriminados. As apresentadoras dos shows nos palcos das boates são formadoras de opinião. Você acredita que elas sabem da responsabilidade que elas assumem quando estão munidas com um microfone nas mãos?

Eu não posso falar por todas as apresentadoras, porque não conheço o trabalho de todas, mas posso falar da Gretta Star, Silvetty Montilla, Nanny People e de mim, claro. Assim como eu, as outras citadas têm a idéia da responsabilidade de falar para multidões. Às vezes uma frase mal colocada num show dá um reboliço que vocês nem imaginam. Hoje em dia, nas boates o público é muito misto e não podemos falar especificamente para uma classe. Tem tanta coisa errada que eu morro de vontade falar, mas é o meu ponto de vista. Eu sou muito briguenta. Quando vou assistir aos shows da Silvetty, morro de rir e ela não compra briga de ninguém, não coloca em questão nenhum assunto e quando acaba o show eu penso: “Eu poderia fazer assim... fazer o público apenas rir!” Já tentei, mas não consigo (risos).

Depois de mais uma década da estréia de “Priscilla, a Rainha do Deserto”, filme responsável pelo “boom” das drag-queens no mundo, incluindo no Brasil, como você analisa este mercado? Ele ainda é atraente ou a decadência é inevitável?

Ser drag queen hoje em dia, é como ser ator. O mercado está difícil para ambos. Tem atores maravilhosos trabalhando de garçon. Tem drags maravilhosas que não alcançam a simpatia do público. Eu nem penso que esse mercado está decadente. Ser drag queen, para mim, é sinônimo de diversão e depois que o público heterossexual descobriu o nosso trabalho, estamos ganhando mais, sendo mais valorizadas pela data agendada. Só que uma menina faz 15 anos apenas uma vez na vida e as boates GLS estão abertas e nos dando emprego há décadas, com cachê menor, óbvio, mas com grande rotatividade.

Campinas sempre foi (e continua sendo) bastante criticada por ter uma noite gay fraca e repetitiva. O que você acha disso?

Acho que é culpa do público e não dos donos das boates ou festas. O público de acostumou a ir onde está mais barato ou de graça. Não posso falar de um passado muito distante, pois estou aqui há 7 anos, mas eu lembro que qualquer lugar cobrava-se portaria. A The Club tinha uma fila imensa e todos pagavam pra entrar. Em conseqüência disso, o público tinha festas maravilhosas. A Double Face, durante os 14 anos que existe, sempre cobrou portaria. Depois que o Massivo veio pra cá e começou com essa palhaçada de “nome na lista”, “até tal hora é free”, etc, as outras casas tiveram que contra-atacar e o resultado é uma noite com menos lucro, fazendo os proprietários cortarem todo o glamour que a noite outrora proporcionava.

Como você vê os bares e casas noturnas freqüentadas majoritariamente por gays e lésbicas, mas que não querem ser conhecidas como casas de “gays” ou “lésbicas”?

Ah, meu Pai... eu acho que quando fazem isso é porque a identidade do proprietário ainda está dentro do armário. Ou então o proprietário tentou de tudo pra fazer aquele lugar pegar e por último, abre uma casa gay-moderna-não assumida, querendo fisgar uma parte do mercado que está carente de novidade, afinal ele precisa pagar o IPTU do prédio, né?

O brilho da noite deslumbra muita gente. De uma hora para outra, gente que não tem onde cair morta no dia-a-dia, vira celebridade da noite, unicamente porque batem cartão nas casas noturnas, vivem entrando como “VIPS” e tomam água da torneira do banheiro, porque os R$ 2,00 que têm na carteira, é para pegar o ônibus de volta para casa. O que você pensa sobre isso?

Penso que pessoas que ganham pouco também têm o direito de se divertirem, mas o termo VIP não funciona mais como antigamente. É diferente você ser VIP e entrar FREE. Agora, as pessoas que “se sentem” celebridades porque não pagam portaria de uma casa, deviam rever seus conceitos de fama, porque não há nada mais medíocre que alguém chegar na hostess e PEDIR um VIP. Se ela for importante, a própria hostess fará questão de tirá-la da fila e oferecer a entrada gratuita.

Recentemente foi publicado no Espaço GLS um artigo do Neco Almeida - do Jornal Abalo - comentando sobre a baixa qualidade dos espetáculos de drag-queens, principalmente pela queda de bilheteria das casas - pelo excesso de figuras que não querem pagar a entrada, por que se consideram VIPS. Como você encara esta questão? E, na sua opinião, quem realmente é VIP?

Vixe... Acabei respondendo essa junto com a pergunta de cima (risos). Mas o Neco foi muito feliz nessa matéria. A baixa qualidade de shows se deve ao fato de não existir mais um “diretor artístico” nas casas. Existe um “agendador”. Diretor artístico é o Sérgio Kalill. O resto é bicha amigo do dono que marca quem ele gosta.

As Paradas do Orgulho de gays, lésbicas e travestis têm crescido muito em todo o país e Campinas não fica atrás. Você foi a apresentadora oficial das últimas três Paradas na cidade. Conte-nos como tem sido esta experiência? E você continua no comando da Parada de Campinas deste ano?

A experiência foi bárbara. Adorei. Esse ano não vou apresentar porque uma pessoa da própria ONG que organiza o evento (Grupo Identidade) escreveu algumas coisas que não gostei e que eram mentiras. Vou dormir no domingo pra repousar a pele que eu ganho mais.

Como você vê a militância pelos direitos dos homossexuais em Campinas? O que você acha dos grupos existentes?

Não tenho contato com nenhum grupo existente aqui por pura ignorância da minha parte. Às vezes fico sabendo de coisas boas que acontecem, mas quanto menos coisa ficar sabendo melhor, porque as ONGs estarão trabalhando pela causa e não pela mídia.

Você já foi vítima de alguma fofoca bem maldosa? Como você reage nestas horas?

Nossa Senhora Aparecida, e como... mas fofoca é uma coisa até que saudável, porque quando é esclarecida aumenta seu círculo de amizades e faz com que aqueles que não gostavam de você, passem a gostar. No início eu falava mais no camarim e pagava por isso. Atualmente só entro no camarim 10 minutos antes de soltar o show e depois vou pro balcão beber minha cerveja.

Quais são os projetos profissionais de Rubya Bittencourt para o futuro?

Não sei até quando irá esse “futuro”. Todo início de ano eu penso em parar e retomar com minhas atividades teatrais, mas a agenda vai ficando lotada e eu não posso me dar ao luxo de parar de trabalhar porque eu pago a faculdade de um amigo, loiro, alto, olhos azuis...


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