PERSONA
Por Marcelo
Oliveira
marcelo.oliveira@yahoo.com.br
 |
Lena Freitas
A ativista e bibliotecária Lena Freitas é um ícone
do movimento lésbico em Campinas. Adoradora de pizzas, drinks
e bares em companhia dos amigos e também, fundadora do MOLECA
- Movimento Lésbico de Campinas, ela fala conosco sobre o cenário
da militância lésbica em Campinas. Lena também passa
a assinar a coluna Menina
de Azul, aqui no Espaço GLS
Porque alguém vira militante pelos direitos dos homossexuais?
Essa pergunta pode ter milhares de respostas. Pode ser que a pessoa
tenha se cansado do preconceito e queira responder à altura;
por revolta; por dor; por tédio; para ter o que fazer, por um
monte de razões. Independente das razões pessoais, esse
trabalho é importante e é ótimo que haja interessados
em realizá-lo.
Quais são as principais dificuldades que as lésbicas
enfrentam em Campinas?
Acho que poder& iacute;amos elencar várias dificuldades das
lésbicas que residem em grandes centros urbanos como Campinas.
O centro urbano faz com que as pessoas não se metam tanto na
vida alheia pois é um espaço onde a individualidade é
muito valorizada. Além disso, nos centros urbanos encontram-se
inúmeros órgãos públicos e ong's defensoras
de direitos. Mas isso não quer dizer que as pessoas desses locais
aceitem e compreendam outras sexualidades que não sejam a hétero.
A grande maioria não compreende mesmo. E também não
aceita (não vamos nos enganar...). Mas hoje tende a respeitar
mais. E, no centro urbano, com as milhões de tribos que existem,
os homossexuais em geral sofrem menos. Dentro de nossa comunidade enfrenta
maiores dificuldades as lésbicas mais masculinas e os gays mais
femininos. Além de sofrerem mais agressões morais, enfrentam
grandes dificuldades no mercado de trabalho. Se forem pobres, então.....
Essa questão faz com que até as/os outras/os homossexuais
recriminem o comportamento fora do padrão hétero. Quem
não consegue seguir o padrão tem sido maltratado tanto
pela sociedade heterossexual quanto pela homossexual, por incrível
que possa parecer. A auto-negação é a nossa grande
doença íntima.....
Como surgiu a idéia de criar o Moleca? E quais são
as atividades que o grupo organiza?
O Moleca foi criado em 2000 com a finalidade de aglutinar mulheres
para discutir sua homossexualidade e fazer coletivamente "alguma
coisa" ; para melhorar sua vida em sociedade. Eu era do Grupo Identidade,
que ajudei a fundar também, e naquele momento não estávamos
conseguindo a participação de muitas outras lésbicas.
Algumas apareciam, mas logo sumiam. Achei que essa situação
iria melhorar se houvesse um grupo específico, somente de mulheres.
E assim foi. Hoje em dia o Moleca realiza, basicamente, as seguintes
atividades: reuniões semanais, curso anual de direitos humanos,
mostra de arte bi-anual, participações em fóruns
e eventos, como o 08 de março e as Paradas.
Quais as mudanças que você percebe na vida das lésbicas
desde o surgimento do Moleca, em Campinas? Quais foram as grandes conquistas
e, se houve, quais foram as grandes derrotas?
A existência do Moleca e a realização de suas
atividades é, por si só, uma grande vitória, socialmente
falando. Esse espaço a gente vai cavando e aumentando, mas ele
também está sendo criando pela própria sociedade
e pela comunidade homossexual. O Moleca faz parte da militância,
a qual faz parte da comunidade homossexual, que faz parte da sociedade
brasileira, e assim por diante. Esse todo está em constante movimento,
e um movimento para melhor, na minha opinião. Nesses anos de
ativismo eu percebi grandes mudanças. Não há dúvida
que somos mais livres e mais felizes, não há a menor dúvida.
As Paradas são enormes, mostramos mais coragem, mais orgulho
mesmo; as leis estão sendo aprovadas, e isso mundialmente; as/os
h omossexuais e bis e trans estão falando mais livremente; as
sociedades conseguem debater conosco.....É claro que há
muito a caminhar.....a lei da Parceria ainda não foi aprovada
no Brasil.......ainda não temos leis que penalizam nossos agressores........muitos
homossexuais e travestis são mortos país afora.....
Há muito a se fazer. Mas muita coisa mudou nos últimos
20 anos.
Como as lésbicas estão organizadas no resto do país?
Em geral as lésbicas se organizam em grupos municipais, que
acabam reunindo-as regionalmente. Não há muitos no país,
geralmente um por estado. Nos estados mais populosos e industrializados
há mais que um grupo lésbico nas capitais e grandes cidades.
Há também os fóruns e agremiações
nacionais, como a Liga Brasileira de Lésbicas (LBL), a Associação
Brasileira de Lésbicas (ABL) e o Seminário Nacional de
Lésbicas (SENALE), este último muito forte e representativo,
unindo todos os grupos e interessadas.
Você foi a primeira mulher assumidamente lésbica a dar
uma entrevista para o Programa da Marília Gabriela, na Rede Bandeirantes.
Conte-nos um pouco como foi esta experiência, principalmente as
reações no dia seguinte, incluindo a opinião da
sua família.
Infelizmente eu não sou aquele tipo de pessoa descolada na
frente de uma câmera ou de um microfone. Ainda hoje tenho grande
dificuldade em lidar com essa "comunicação para o
grande p&uacut e;blico". E foi bem assim que eu fui entrevistada.
Fiquei super nervosa, tive uns brancos, meu coração saindo
pela boca.... Mas achei fundamental para o movimento uma lésbica
aparecer na televisão sem ser alvo de piadinhas, em um programa
sério. E senti, nos dias posteriores, que tinha sido super importante
para as lésbicas. Muitas me cumprimentavam pelas ruas, felizes
pelo acontecido. Para quem viu, teve um grande significado - significou
tirar a lésbica do escuro, do limbo, do esconderijo que a maioria
quer que nós fiquemos. Significou dar uma voz, uma cara normal,
um sorriso às lésbicas. Depois que o nervosismo passou,
eu percebi o quanto tinha sido importante. E, particularmente, foi o
início do diálogo com a família. Eles viram e vieram
comentar comigo. Isso também foi muito positivo.
É bastante comum ouvirmos queixas dos grupos da cidade sobre
o desinteresse dos gays e lésbicas da cidade na discussão
de qualquer assunto mais sério sobre sua cidadania. Que atrativos
a militância oferece para ter mais participantes?
Na maioria das vezes, só dá importância à
militância quem já participa dela. Quem consegue realizar
um projeto e sentir a alegria que isso proporciona. Mas o trabalho da
militância é um trabalho de formiguinha... De muito trabalho
e pouco/lento resultado. É uma delícia... Mas é
terrível também. A gente trabalha o dia inteiro e nas
horas livres aparece um monte de reunião, de documentos para
elaborar, de contas para fazer... E daí vai. Não é
muito atrativo, não. Mas há momentos simplesmente maravilhosos.
Ver uma lei ser aprovada, um projeto realizado, o carro de som da Parada
sendo pago... Tudo isso é muito, muito bom. Agora, é verdade
que a maioria das pessoas não quer ouvir a nossa conversa. As
pessoas não estão acostumadas ao debate político...
Não há, ainda, uma cultura do debate, da discussão
adulta. Para nós que nos acostumamos a isso, essas conversas
são extremamente prazerosas... Para a maioria, é briga.
Há também o triste fato das pessoas não se interessarem
por discutir seus direitos, como se isso fosse estragar o prazer de
sua noite. A verdade é que a gente se acostuma à vida
que tem, e falar dessa vida incomoda, pois causa instabilidade e insegurança.
A militância tem esse papel meio chato, mesmo, de tocar nas feridas
sociais... Mas também propõe mudanças. Mas essas
mudanças não ocorrem da noite para o dia... A gente fala
de mudanças que ocorrerão, verdadeiramente, nos próximos
anos, ou, até, nas próximas gerações. Mas
se a gente não fizer nada, vai demorar mais.
Alguns grupos organizados do país sofrem a acusações
de serem reféns dos partidos políticos da esquerda. Se
isso é verdade, como você analisa esta questão?
É uma questão controvertida. Muitos de nossos primeiros
ativistas homossexuais estavam ligados a partidos de esquerda - e muitos
ainda são hoje em dia. São homossexuais com grande bag agem
política, e foram/são extremamente importantes para o
movimento. Também há o fato de que a ideologia de esquerda
sempre foi "a" única ideologia que nos incluía,
embora não completamente, e muitas vezes só demagogicamente.
Mas a "direita" sempre nos excluiu. A ideologia de direita
nos quer calados, escondidos e, até, mortos. Mudanças
desse cenário estamos vendo somente na atualidade. Mesmo assim
sempre achei que os grupos homossexuais não deveriam estar ligados
a partidos, pois são lutas e caminhos diferentes. Os movimentos
sociais não podem se atrelar partidos, pois independem deles
por sua própria natureza. Então, ao mesmo tempo em que
temos que estabelecer parcerias e conseguir o comprometimento dos partidos
e de outros movimentos com a livre orientação sexual,
devemos estabelecer o limite dessas parcerias para não nos descaracterizarmos,
nem lutar por outros objetivos que não sejam nossas prioridades
e bandeiras.
Qual o prognóstico de futuro que você poderia fazer
para a realidade das lésbicas da cidade?
A tendência é melhorar, sem dúvida. Há
todo um movimento em busca do respeito à diversidade, do respeito
às minorias. Mas é importante frisar que todas e todos
têm um papel a cumprir na modificação dessa realidade.
Não podemos mais aceitar desde os grandes atos discriminatórios
até as pequeníssimas agressões morais, esperando
que o movimento, os políticos e os tribunais nos protejam. A
realidade não muda sozinha, do nada. E cada um tem sua parte
nisso.
Você tem arrependimentos sobre sua decisão de ter se
tornado militante?
De jeito nenhum. Aprendi, no mínimo, a ser cidadã e
a ter menos medos e angústias em relação à
minha homossexualidade. Foi (e é) uma experiência pra lá
de gratificante. Tão importante que posso dividir a minha vida
em pré e pós-militância. Mas essa sensação
não é somente minha. O trabalho coletivo, social, tem
esse poder e realmente modifica as pessoas. Acontece com todos que se
envolvem.
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