Maria Angélica Fonseca
Acolher, ouvir e orientar a mulher tem sido o trabalho da psicóloga Maria Angélica Fonseca. Com 25 anos de carreira, ela coordena o Centro de Referência e Apoio à Mulher, serviço mantido pela Prefeitura de Campinas que dá suporte emocional e jurídico a mulheres vítimas de violência doméstica.
“A mulher que sofre violência perde a auto-estima e fica muito fragilizada”, diz. Ao deixar o expediente no centro de referência, Maria Angélica parte para a Companhia da Pessoa, espaço que acolhe mulheres e homens que buscam equilíbrio entre corpo e cérebro. Esse trabalho a colocou como uma das maiores autoridades brasileiras em transexualidade.
Há 16 anos, a psicóloga atendeu Bianca Magro, primeira transexual brasileira a ser operada no País pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “Quando me pediram para atender a Bianca, eu quis um tempo. Não sabia o que era transexualidade. Esse receio me fez entrar de cabeça no assunto”, lembra.
Qual é a atuação do Centro de Referência e Apoio à Mulher?
Maria Angélica Fonseca – Acolhemos mulheres vítimas de violência relativa ao gênero, ou seja, maridos que inferiorizam suas esposas pelo fato de serem mulheres. Trabalhamos com uma equipe multidisciplinar que cuida do social, do psicológico e do jurídico. A equipe do centro também vai às ruas para conscientizar as mulheres de que elas não precisam viver este drama.
Que tipos de violência a mulher pode sofrer dentro de casa?
Psicológica e física. A psicológica pode ser ameaça, humilhação ou depreciação. Um exemplo é quando um marido chama a esposa de gorda, de feia ou de burra, principalmente na frente de outras pessoas. Outra forma é minar o desenvolvimento intelectual, impedindo que a mulher estude ou trabalhe.
Como estão os casos de violência contra a mulher?
Tenho acompanhado com preocupação o aumento do número de casos. A violência sempre existiu, mas era abafada. Hoje, há uma maior exposição porque as mulheres estão falando mais. Isso é bom, pois ela só supera a violência quando fala e procura ajuda.
Existe uma classe social em que a violência contra a mulher é mais latente?
A violência doméstica não escolhe credo, classe, cor ou classe social. Ela está presente em todas as camadas da sociedade.
Por que o homem ainda é tão violento?
O homem é historicamente criado como ser superior à mulher. Para reforçar a idéia, ainda existem mulheres que se submetem a ele. Na posição de superior, o homem crê que a mulher existe para servi-lo e que ele não pode ser contrariado. Apesar disso, há homens que não seguem este caminho e que valorizam a mulher, tratando-a de igual para igual.
Por que muitas mulheres não denunciam os maridos?
Por medo ou por ignorância. Há mulheres que não percebem que são vítimas de violência. Elas simplesmente não enxergam isso e ainda acham que são culpadas pela violência do marido. Por exemplo, quando são forçadas a manter relações sexuais com seus maridos, isso é uma violência. É um ciclo de violência.
Como funciona esse ciclo?
Na primeira fase, a mulher acredita que acalmando o marido ela acaba com a ameaça. Na verdade, é uma questão de tempo. Na segunda fase ocorre, de fato, a violência. Na terceira, o homem pede desculpas e cria uma falsa esperança de que não será mais violento. A quarta é o período de calmaria. O ciclo pode se repetir por anos se a mulher não procurar ajuda.
De que maneira a mulher vence a violência doméstica?
A meta é romper o ciclo de violência. Para isso, ela tem que entender que não é culpada e pode ter uma vida feliz. Falar do assunto é muito importante, nem que seja com uma amiga ou alguém de confiança. Ela precisa saber também que existem órgãos na cidade, como o Centro de Referência, o SOS Ação Mulher e a Delegacia da Mulher, que vão cuidar dela.
A senhora tem um trabalho com transexuais reconhecido nacionalmente. Quando resolveu atender esse público?
Há 16 anos, uma ONG me indicou para atender Bianca Magro, até então um rapaz que se sentia mulher. Eu pedi um tempo para dar a resposta porque nunca tinha ouvido falar em transexualidade. Aceitei e, no começo, foi difícil porque eu não conseguia ver uma mulher na Bianca. Via traços femininos e masculinos, mas não uma mulher. Quando eu entendi que um transexual é um homem ou uma mulher em corpo errado e que precisa ser readaptado, enxerguei a Bianca mulher e me apaixonei pelo assunto.
Como a senhora vê a transexualidade?
A transexualidade é cerebral e domina o corpo. O cérebro comanda as emoções, determina o físico. Se uma pessoa quer ter características físicas do sexo oposto, ela tem que usar hormônios. Nos transexuais, o próprio cérebro informa ao corpo para desenvolver algumas características opostas.
Qual a diferença entre travesti e transexual?
As travestis convivem bem com seus traços femininos e masculinos; os transexuais, não. O indivíduo transexual vive um dilema, porque psicologicamente ele ou ela pertence a um gênero e seu corpo é do gênero oposto.
O que há de igual e diferente entre transexuais masculinos e femininos?
Ambos ainda são vítimas de muito preconceito. Para o homem transexual é um pouco mais difícil por causa do número maior de cirurgias, como a extração das mamas e do útero. A diferença entre ambos diz respeito ao que eles esperam da readequação. Enquanto para a mulher transexual o importante, do ponto de vista físico, é ter uma vagina, para o homem, a retirada das mamas e o fim da menstruação são um grande alívio. O homem transexual não está muito preocupado em ter um pênis.
Como é feito o acompanhamento psicológico de um transexual?
São dois anos de terapia para as pessoas que querem passar pela cirurgia de readequação. Nesse período, o terapeuta tem que diagnosticar se a pessoa é realmente transexual ou não. A cirurgia é um caminho sem volta, então, não pode haver arrependimento.
De que forma o indivíduo transexual encontra ajuda em Campinas?
No Centro de Referência GLTTB (Gays, Lésbicas, Travestis,Transexuais e Bissexuais), que é um centro mantido pela Prefeitura, e na Companhia da Pessoa. Realizamos encontros mensais para discutir o assunto.
Clique
aqui e sugira um entrevistado