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PERSONA

Por Sammya Araújo
editor@espacogls.com

Ele nunca teve papas na língua e não é agora, aos 51 anos, que vai economizar na polêmica. Pioneiro na luta pelos direitos dos homossexuais numa provinciana Campinas dos idos de 1980, após 20 anos de plumas e paetês o cabeleireiro José Reinaldo Perinotto deixou de ser travesti: desceu do salto e tirou o silicone para apostar num grande e malsucedido amor. Por oito anos, a mulher que ele diz ser sua verdadeira essência “hibernou”. A maturidade encerrou o balanço e trouxe a improvável decisão de ressuscitar Pamela Abdul Ramach, nome que consagrou sua versão feminina.

Com orientação médica, Perinotto já se prepara para as cirurgias e os hormônios. A virada é radical, mas não surpreende quem o conhece. De recolher na própria casa soropositivos excluídos dos serviços públicos de saúde, passou para a militância organizada. Em 1994, criou a Associação dos Gays e Travestis de Campinas, que, sem suporte político, não vingou. Mas lançou a semente. Nesse processo, apanhou da polícia, sofreu humilhações. Deu a cara a tapa, mas enfaixava os seios para trabalhar em salões estrelados.

Ainda hoje o cabeleireiro colabora com entidades de apoio a doentes de aids e arregaça as mangas quando uma boa causa aparece-lhe na frente. Exalta o luxo e o brilho, mas não poupa as colegas de vida “fácil”, a descompostura das manifestações gays e a desunião entre a “classe”.

Você fez história em Campinas numa época em que as travestis sofriam muita perseguição. Como era?

José Reinaldo Perinotto – Vinha de todo lado. Moleques passavam e abriam os extintores de incêndio em cima das travestis. Policiais levavam a gente até o Pico das Cabras, em Joaquim Egídio, e lá nos largavam sem roupas. Uma vez, furtei um lençol em um sítio para me cobrir e não ser presa por atentado ao pudor na volta a pé para Campinas.

Como agiu contra essa situação?

Eu tinha uma casa perto da rodoviária, onde nos reuníamos e fundamos a primeira associação de gays e travestis de Campinas. Foi algo bacana, mas terrível também. Tive minha casa baleada porque contrariava interesses.

Foi agredido?

Fui espancado por policiais, ameaçaram me matar. Numa dessas, apanhei tanto que o silicone que tinha aplicado nas nádegas quatro meses antes foi parar no pé. Ainda hoje tenho esse pezinho de elefanta!

Por que se tornou travesti? Por quanto tempo viveu assim?

Sempre achei as mulheres maravilhosas, o corpo, o jeito. Comecei a tomar hormônios aos 13 anos e pus próteses de silicone nos seios com 23.

E o que o levou a deixar de ser travesti?

Foi por causa de um amor. Apaixonei-me por uma pessoa e achava que assim ela ia ficar comigo. Quando tirei meus seios, senti-me decepada. Mas não permaneci com essa pessoa.

Porque só decidiu voltar a ser travesti agora, depois de oito anos?

Com minha experiência, é o momento certo. Eu vi o que acontece de ambos os lados, o ser gay, o ser travesti. Nesse tempo, também pude mostrar para a sociedade que, antes de tudo, sou um cidadão. E agora tenho um projeto de vida, com um projeto social envolvido, para voltar a ser o que sempre fui: uma linda mulher. Idosa!

E sem problemas com isso...

Nenhum! Aliás, tenho uma família ótima, que me apoia. A única coisa que minha mãe pede é para não usar uma peruca loira porque, ficando velho, eu me pareço com uma tia.

Você vai passar outra vez por uma transformação física bem radical. Como será?

No rosto já fiz dez procedimentos, incluindo nariz, minilifting e bioplastia. Para mexer no corpo, o médico me mandou emagrecer. Depois vem o tratamento hormonal e as próteses, acho que ainda este ano. Mas dessa vez, vou fazer com um médico de São Paulo, porque o daqui pedia para eu ir à noite no consultório. Senti-me discriminado.

Como cabeleireiro, já trabalhou travestido?

Totalmente vestido de mulher, não. Era obrigado a enfaixar meus peitos. A homofobia era muito forte. À noite, botava o cabelão.

E o que fazia a Pamela na noite?

Ia ver minhas amigas e trabalhar em projetos sociais. Também fiz shows em boates de Campinas, Rio de Janeiro, São Paulo.

Que projetos?

No Programa DST/AIDS de Campinas e na Casa Luz de São Paulo, por exemplo. Trabalhei com pessoas maravilhosas, como a doutora Sílvia Bellucci, do Centro Corsini. E já tive em casa cerca de 30 soropositivos, cuidados por mim. Meu sonho hoje, além de voltar a ser travesti, é ter um asilo homossexual.

Já se prostituiu?

Não, apesar de ficar nas ruas com minhas amigas. Aliás, uma vez fiz um programinha com um figurão. Ele era muito bonito e pensei que podia ajudar nas minhas causas. E ajudou!

O que você pensa sobre a militância gay atualmente. Houve avanços?

As passeatas gays não são mais meio de manifestação, mas de repúdio social. Virou uma avacalhação, uma exposição de todo tipo de comportamento que ainda não é normal. Nós temos 500 anos de Brasil, não moramos na Europa. E mesmo lá existe homofobia. Isso vai acabar quando passarmos a nos respeitar.

O que falta?

Falta o encontro consigo. Uma pessoa, quando se encontra, não se vende, não se droga, não fica jogada em lugar algum. Ela luta, acorda cedo e vai a campo. Sempre houve espaço para quem tem caráter decente. Também seria ideal se os homossexuais fossem unidos. Mas o gay não gosta da travesti, a travesti não gosta do gay, uma confusão que aumenta o preconceito.

Como vê a situação das travestis em Campinas hoje?

A sociedade deveria ter um pouco mais de carinho e respeito, porque tudo o que é conversado pacificamente se torna um bem. Mas fazem de tudo para tirá-las de uma rua para outra. Ninguém quer ter o problema à porta. A nossa metrópole ainda é muito provinciana.

Onde entra o poder público nisso?

Infelizmente, nessa situação, é falido. As coisas só têm melhorado há pouco tempo.

O que tem mudado?

As travestis estão sendo mais bem tratadas. Você acredita que para ser atendida como homem em alguns postos de saúde a travesti precisava raspar a cabeça? Isso não existe!

Travestis mais velhas não são comuns de se ver, são?

Não, somos sobreviventes. A maioria se acaba na falta de oportunidades, na noite, com as doenças. Mas eu sou consciente. Acho gostoso envelhecer e colher os frutos do meu trabalho.

E quais são eles?

Como as “filhinhas”, as novas travestis, que de alguma forma aprenderam algo comigo. Travesti não é só aquela pessoa má que fica na rua.

E o que é ser travesti, afinal?

Ser travesti é liberar o que a sua alma tem de melhor, é se transformar e colocar as fantasias para fora. E olha que somos fortes. Eu diria que no nosso corpo já existe uma grande mulher e é preciso um grande homem para poder mostrá-la.

E o amor, onde entra na sua vida agora?

O maior de todos é Deus. O resto são corpos. A cultura homossexual faz com que as pessoas sejam promíscuas. Dizem que o amor está próximo da gente, só que não consigo achar. Mas sou bem resolvido, moro com uma cachorra maravilhosa, a Lauren, e um gato lindo, o Ted.

 

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