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PERSONA


Por Eduardo Gregori
editor@espacogls.com

Jorge Marcelo Gomes de Oliveira, um dos ativistas GLTTB mais militantes de Campinas anunciou na última terça-feira (13/09) que está deixando o Identidade. Membro do grupo desde 2002, era o coordenador de administração e finanças e viu o Identidade crescer, ganhar prêmios e esvaziar. E foi com ele que tive um papo sério.


Porque você está deixando o Identidade?

Acabou a pilha. Cheguei ao meu limite. Estou cansado. São várias as coisas que eu poderia elencar. Entrei para o grupo em Julho de 2002. Fui eleito Coordenador de Administração e Finanças em Novembro daquele ano. Fui reeleito em Novembro do ano passado. Durante todo este período, eu me dediquei com muita paixão. Mas, como toda paixão, um dia ela começa a perder o gás!

A saída era inevitável?

Não pensava em sair até a semana passada. Mas faz um tempo que eu sentia um grande desgaste, mas achei que tirar férias seria uma boa alternativa. Contudo, depois do final de uma reunião dominical no começo do mês, percebi que estava ultrapassando o limite.

Você leva alguma mágoa nesta saída?

Hum... Se eu falar que não, estaria mentindo. Um pouco de mágoa sempre fica. Sabe aquela idéia utópica que todo mundo é seu amigo, que todo mundo torce por você ou que todo mundo fala a sua língua... Utopia. Isso não existe. Estava na minha cabeça. Erro meu. Contudo, é uma mágoa pequena e daqui a pouquinho passa. Não sou de ficar guardando rancor. Já tive duas experiências assim na minha vida, que sem saber direito, guardei mágoa de dois amigos queridos. Nos dois casos, levei anos para me resolver com eles (e no caso de um deles, nem sabia que eu estava tão machucado). Prometi não iria repetir esta situação novamente. Além do mais, no caso do IDENTIDADE, não aconteceu absolutamente nada tão sério que tenha me aborrecido a tal ponto de eu guardar algum rancor.

A posição do grupo sempre era igual ao que você pensava ou em alguns assuntos era antagônica?

Sozinho, o ser humano já está em conflito. Quando se junto com outro, ambos podem entrar num duelo. E quando num grupo, pode surgir uma guerra. E isso é altamente saudável. Somos seres em eterna evolução. Quem não questiona nada se aliena, fica sugestionável e facilmente enganado pelo outro. No grupo, sempre havia embate. Isso é importante, pois nos colocava a discutir e nos fortalecer. Assuntos antagônicos poderiam surgir até na hora da compra de um pacote de café. Mas isso não significa que não podemos aprender a lidar com estas questões de uma forma mais madura. Além do mais, como um bom aquariano e eterno otimista, tenho certeza que tudo na vida pode ser resolvido (menos na hora da morte, mas se eu ainda tiver jeito, vou tentar adia-la). Claro que algumas vezes, nos deparamos com dificuldades tão complicadas que se tornam intransponíveis. Acredito que minha saída do grupo também tenha a ver com isso.

Como você lidava com os antagonismos?

Sempre deixo minha marca pessoal em tudo que eu me proponho fazer. Os mais apressados adoram me chamar de “grosseiro”. Contudo, ao contrário do que eles dizem, sou “enfático”! (e odeio grosseria!). Digo o que penso para quem quer que seja. Nunca tive medo de assumir minhas posturas (sejam elas para os associados do grupo, sejam elas para Secretários do Governo passado). Isso assusta, é claro. A grande maioria das pessoas é tão hipócrita e tão falsa – gente que somente dança conforme a música, que me considera algum lunático. Neste ponto, eu tive vários choques, pois se tem uma coisa que eu simplesmente detesto, é gente que fica sempre em cima do muro. Gente que fica eternamente na espera do vento. Se ele soprar para a direita, ela vai. Se ele soprar para a esquerda, também. Eu já sou um furacão. Já chego e faço estrago sem medo de ser aceito ou não (Uma vez jogaram búzios para mim e falaram que sou filho de Xangô e Yansá. Não entendia nada sobre isso. Depois que me explicaram, vi que aquilo tinha sentido e adorei a revelação!).

Na sua opinião, porque as pessoas não estão mais interessadas em participar dos grupos?

Nos meus três anos de militância e numa estrutura de grupo, que organiza reuniões temáticas todo o domingo, consigo fazer uma pequena classificação das pessoas que procuram o IDENTIDADE. Existem aqueles que têm dificuldades em freqüentar bares ou boates gays ou lésbicos (repressão, timidez, medo e outros fatores do tipo) e precisam de um local para encontrar seus semelhantes. Outros vão para arrumar namorado (a) . Outros recebem a informação sobre o tema que o grupo vai discutir, anotam o dia e vão para a reunião – satisfeitos com a discussão, não sentem mais vontade de voltar. Outros, gostam tanto, que voltam – acabam indo a todas as reuniões e aos poucos de interessam em se associar ao grupo, pois entendem que aquele ambiente é importante para sua vida. E, finalmente, existem aqueles que, passam por alguns dos processos já citados, ficam e querem fazer alguma coisa pela causa. São estes que se tornam militantes. Mas, saiba que este número é muito pequeno.

Não se esqueça que tem aquela enorme legião de gays e lésbicas, que tem medo de assumirem (por “n” motivos) e desta forma, JAMAIS colocariam sua cara a tapa para defender absolutamente nada, nem para reclamar do preço abusivo do pão francês, e menos ainda sobre a sua orientação sexual. E tem também aqueles (a grande maioria) de gays, lésbicas e travestis, não quer nada com nada. Quer farra. Quer unicamente dançar o último Drag-hit na boate. Quer unicamente carne e cerveja no churrasco do final de semana e nada mais. Já ouviu aquela desculpa: “o mundo é assim mesmo e quem sou eu para tentar muda-lo?” Ou ainda “minha sexualidade não é bandeira, por que eu vou levanta-la?” Ou senão, “no meio social o qual e vivo, discriminação não existe”. Assim como as travestis que vivem como profissionais de sexo nas esquinas e não pensam em nada mais (porque a vida delas também foi bem desgraçada e em muitos casos, só restou esta tão discriminada profissão a exercer), a não ser fazer o seu aqué básico com alguma maricona bem rica, pagar a diária para cafetina e guardar dinheiro para ir para a Europa.

Falar o que para estas pessoas? Que na hora de ser agredida numa praça pública e morta, como o adestrador de cães, Edson Néri, em 06 de Fevereiro de 2000, por um grupo de skin-heads, nenhum deles perguntou, antes de espancar o rapaz até a morte, se ele era o cabeleireiro, dentista ou a “européia” mais badalada da cidade. A morte veio por causa da sua orientação sexual (ou se fosse uma travesti, por causa da sua identidade de gênero). Mas, você sabe muito bem que é muito mais fácil ser alienado e despolitizado do que questionar qualquer coisa “pronta” no mundo? Dá menos trabalho!

Como você vê o esvaziamento de membros do Identidade?

Aqueles que trabalham pelo grupo continuam – alguns com menos empenho (as alegações são as mesmas, trabalho, estudo, vida particular, etc) ou com menos compromisso, do que outros. Eu vejo que algumas pessoas, assim como eu estou hoje, perderam o gás. Mas vejo também outras que assumiram que são irresponsáveis, pois se comprometeram com obrigações muito importantes (sabendo que não dariam conta) e simplesmente deixaram de fazer. São estas as figuras que sabotam o grupo, pois uma vez que aceitaram executar uma função, o mínimo que o grupo espera, seja que esta função seja executada. Mas, enfim... Quanto a novas pessoas, como eu já coloquei na resposta anterior, muitas vão uma vez e não voltam. É um processo cíclico inevitável em qualquer grupo de militância deste país.

Como você analisa uma situação como a do Identidade, ganhando prêmios e ao mesmo tempo não tendo verba para manter sua sede?

Neste momento, você deveria fazer esta mesma pergunta para os associados do grupo que dizem que o IDENTIDADE não é (apenas) ONG, e sim, movimento social, que não precisa de espaço para ser reunir, que não precisa de espaço para se articular, que não precisa de espaço para se organizar, que não precisam de espaço para administrar seus documentos e o pior, que não precisa de espaço para atender os casos de discriminação que surgem pelo menos uma vez por semana. Este é um ponto nevrálgico de conflito no grupo.

Contudo, é bom analisar que a grande maioria dos grupos de militância pelos direitos dos GLTTB do país também não tem sede própria. Vivem de projetos para sua sustentabilidade ou das contribuições voluntárias da comunidade. E aí, como já falei antes, a comunidade homossexual brasileira não está preocupada com os seus direitos. O povo quer festa, badalação e muito sexo para se divertir. E nada mais.

Quando ao fato do IDENTIDADE ganhar prêmios, isso nada mais é do que o reconhecimento de um árduo trabalho desenvolvido por todos e todas no grupo, que, apesar de todos os pesares, acreditam num ideal de uma vida diferente, menos excludente e menos injusta. Infelizmente estes prêmios não vieram acompanhados de dinheiro para a sustentabilidade do grupo.

E também, não há ideal neste mundo que não precise de ajuda do capitalismo – por mais que isso doa de entender. Caso contrário, sempre vai ficar aquela sensação incompleta, de que falta alguma coisa. Mas está é uma discussão muito complexa, que não vou me aprofundar.

Qual a marca que você deixa no grupo?

Acredito que minha passagem pela história do IDENTIDADE tenha sido importante. Mas não consigo ainda ter dimensão do tamanho disso, até porque, ainda não parei para questionar. Tenho certeza que fiz o melhor trabalho possível, com total dedicação, sem pensar se eu era voluntário ou não, se eu estava ganhando dinheiro ou não (até por que a única vez que eu ganhei alguma coisa foi nos 12 meses de 2004 que executei um projeto de Sustentabilidade).

Raramente eu disse não quando alguém me pediu alguma ajuda. Nem que para isso, eu tenha me prejudicado.

Outra coisa que eu acredito que tenha sido importante, foi uma melhor comunicação com a imprensa, pois, acabei assumindo a Assessoria de Imprensa do grupo, função que não tem nada a ver com minha Coordenadoria de Administração e Finanças (para ser mais exato, esta função nem consta no estatuto do IDENTIDADE), pois eu acredito que somos muito fracos de marketing, temos dificuldades de interlocução com nossa população e pouca gente sabe as conquistas que o Movimento Homossexual Campineiro conseguiu para o nosso segmento.

Do ponto de vista financeiro e ideológico, o que dificulta tanto a vida de um grupo?

Meu período de grupo não me deu approach suficiente para te dar uma resposta exata. O que posso te dizer é que ideologia é uma coisa e vida real é outra. Descobrir o segredo de como juntar as duas, respeitando suas diferenças, aprendendo a conviver entre, sem se cooptarem, é a resposta de U$ 1 milhão, que todas as ONGs do país deveriam pensar.

Mas uma coisa eu aprendi: os militantes do país devem ser mais politizados, mas não devem deixar que QUALQUER partido político interfera na composição de sua estrutura. A não ser, que sejam entidades que surjam do partido. Mas, aí, a forma que ela irá se organizar será outra.

ONG é uma coisa. Movimento social é outra e partido político é outra bem diferente. Entender o que seja cada coisa é importante para saber como lidar com suas idiossincrasias.

O que você fez nestes três anos que mais te deu prazer?

Tantas coisas... Participei e ajudei a organizar as três últimas Paradas do Orgulho LGTTB de Campinas. Acompanhei as discussões de implantação de (alguns) projetos do Orçamento Participativo, do segmento homossexual, que teve, entre outras conquistas, a inauguração do Centro de Referência GLTTB, que nos moldes que foi criado, é inédito no Brasil. Estive presente em manifestações, sejam elas em porta de bares ou boates, sejam elas em praças públicas, sempre em repudio a atos de discriminação, preconceitos ou descaso do serviço público pela falta de medicamentos para HIV/AIDS. Estive em contato com Secretários, dos mais diversos setores da Prefeitura Municipal de Campinas (e isso foi uma grande escola, pois nada melhor do que conhecer as estruturas do poder para tentar entender como ele funciona). Representei o IDENTIDADE nos mais diversos eventos, sejam em Encontros, Seminários, Fóruns e Oficinas. Ministrei aulas sobre a questão da homossexualidade em Universidades, Colégios e Escolas Públicas e Privadas. Não posso me esquecer que ajudei na organização do I Encontro de Travestis e Transexuais da Região Sudeste, coordenador pela Janaina Lima (minha querida amiga, que veio da militância), que foi extremamente importante para a história das TTs de Campinas (e me deixou muito emocionado de ter podido participar). Também não posso me esquecer que no dia 31 de Agosto, estive presente na votação do reconhecimento do Dia 29 de Agosto, como o Dia da Visibilidade Lésbica de Campinas, no Plenário da Câmara Municipal (este evento acabou sendo o último que participei enquanto militante do IDENTIDADE!). E, entre outras coisas que poderia escrever neste espaço, ajudei na organização da parte administrativa do grupo, de uma forma até então inexistente em sua história. Ah! Também não posso esquecer de tanta gente querida que eu conheci neste período. Ótimos companheiros de grupo, de outros grupos da cidade, do estado e do país. Inclusive alguns viraram meus amigos. Mas o importante é bom esclarecer, que todos, de uma forma ou de outra, me ajudaram em todas as coisas que eu participei, organizei ou simplesmente dei palpite.

O que você não fez e que gostaria de fazer? E porque não fez?

Através de uma conversa com o Paulo Reis (amigo querido - anterior a militância), pensamos num Seminário de Formação de Novos Militantes. O projeto foi escrito. Foi aprovado pelo Programa Estadual DST/AIDS, mas até o momento, por questões burocráticas, não conseguiu ser desenvolvido. Gostaria de poder ter participado da organização deste evento.

Como você analisa o movimento GLBT de Campinas?

Forte. Ousado. Combativo. Corajoso. Persistente. Feito por gente séria, que acredita num ideal de vida diferente àquele que nos foi destinado. Eu me orgulho profundamente de poder ter ajudado um pouquinho nesta história. E desejo, do fundo do meu coração, que ele cresça cada vez mais e que outras conquistas sejam conseguidas. Não estarei num grupo, mas estarei atuando sempre que for necessário, pois uma vez militante, sempre militante.

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