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PERSONA


Por Eduardo Gregori
editor@espacogls.com

Cláudia Wonder

Ela é uma verdadeira maravilha. Artista, ser humano, ativista e dona de uma reputação que nem todos os adjetivos seriam capazes de descrever. Sempre fui tiete confesso, mas só tomei coragem de falar com ela em um recital de Edson Cordeiro, em São Paulo. O tempo passou e finalmente consegui entrevistar esta pessoa que é um orgulho e um exemplo para nossa comunidade. Senhoras e senhores: Cláudia Wonder

Bissexual, transexual, metrossexual, travesti, homo, lésbica... Hoje em dia são tantas as definições. Você se encaixa em alguma delas ou não se adequa a padrões?

Sou um ser humano a procura de sua felicidade. Me sinto uma pessoa andrógina, ou seja, sou homem e mulher em um mesmo corpo e espírito. Segundo a sociedade sou uma transexual, que assim seja.

Cláudia Wonder nasceu Cláudia ou levou um tempo para você descobrí-la?

Claudia Wonder nasceu Marco Antonio Abrão, em São Paulo, e foi descoberta na adolescência.

Você é de uma geração na qual a comunidade GLBT ainda nem sonhava em se organizar e por isso era muito vitimizada pelo preconceito. Como foi viver neste tempo de barbárie anti-GLBT?

Fui presa várias vezes sem ao menos saber porque aquilo estava acontecendo. Fui estuprada e muitas vezes enxotada de lugares. Fui comparada aos mais perversos marginais simplesmente por ser diferente das outras pessoas. Isso me causou grande revolta e fiz de minha revolta o motor para lutar contra essa barbárie. Hoje, quando olho para trás, vejo que minha luta contra a discriminação homossexual não foi em vão e me sinto feliz.

E como você a compara com os dias atuais?

Não tem comparação, mas ainda falta muita coisa a ser feita.

O que ainda há para os GLBTs conquistarem?

Igualdade em todos os sentidos e por todos os segmentos sociais. A começar pelas igrejas que tanto nos condenam.

Você é uma artista, isso de alguma forma lhe ajudou para ser aceita pelo público e pela sociedade, ou você é vista como uma artista maldita e underground?

Claro que a arte foi o caminho que encontrei para lutar contra a hegemonia homofóbica. Sempre tive em mente que com um bom trabalho poderia não somente ser aceita, como também, de uma forma indireta, estaria diminuindo o preconceito contra os homossexuais como um todo. Consegui que isso acontecesse com muito trabalho e persistência e, hoje tenho o respeito da maioria das pessoas que me conhecem. Quanto a ser considerada maldita e underground não é uma questão de ser trans ou não, isso se deve ao estilo trabalho artístico que faço, sempre voltado à vanguarda e não a cultura de massa. Já como escritora e colunista é diferente.

A sua arte é transgressora, o que você quer dizer para o mundo quando se apresenta?

Quero dizer que não precisamos ser uma xerox de outros artistas e, que só com a provocação é que se muda uma sociedade, um modo de pensar. Transgredir para progredir, é isso.

E na G Magazine, que visão do mundo você quer passar para seus leitores?

A minha visão do mundo.

Estar conectado ao mundo é uma necessidade nos dias de hoje. Você é uma pessoa que busca informação? De que maneira? que tipo de informação?

Sim, eu busco a informação como a maioria das pessoas buscam hoje em dia, não mais que o "normal". digamos assim. Nos jornais, revistas, internet, radio e TV, mas isso já está incorporado no meu cotidiano há muito tempo, faz parte do meu estilo de vida.

Você concorda que grande parte dos GLBTs está ficando para trás pela preguiça de acesso ao estudo e pela consulta apenas a internet como fonte de aprendizado?

Não sei se esse atraso é um privilégio unicamente dos GLBTs. Acredito que o povo brasileiro está ficando para trás por falta de acesso ao estudo e, não é por preguiça não, é por falta de incentivo a cultura por parte dos nossos dirigentes e por falta de "grana" mesmo. A internet se tornou o meio mais acessível, só isso.

Para você, qual a importância de uma Parada do Orgulho GLBT?

As paradas são da maior importância em todos os sentidos. Tanto pela visibilidade, quanto pela manifestação política, pela afirmação da nossa cultura e pela festa, que atrai a maioria dos simpatizantes.

E o que você diz sobre as pessoas que vão para as paradas com "n" outras intenções, menos aquela que é lutar pelos direitos?

Nem todo mundo tem consciência política, a grande maioria dos brasileiros não sabe o que é isso. E no caso da parada, se o cara for lá só pela diversão, ou pela cassação é válido.Porque ele estará, com sua presença, dando mais visibilidade e aumentando em número, a força contra a discriminação.

Em tempos de luta pelos direitos civis e sociais, porque travestis ainda escolhem o caminho da prostituição como profissão?

Em primeiro lugar eu quero aproveitar sua pergunta para esclarecer um fato; Não é a maioria dos travestis que se prostituem. Essa é a parte mais visível porque estão nas ruas. Digo isso porque conheço uma infinidade de trans que trabalham em várias outras atividades, mas infelizmente como as pessoas não conhecem, acreditam que todas as travestis se prostituem. Os motivos que levam uma travesti se prostituir são muitos e bem complexos. Muitas não são aceitas pela família e, como não têm referência, acabam nas ruas, outras é por preguiça ou por falta da tal da consciência política. O brasileiro é muito acomodado quanto aos seus direitos. Por isso muitas trans ainda buscam a prostituição como forma de vida. Na Europa a realidade dos travestis europeus é completamente diferente, só se prostitui quem quer mesmo. Conheci trans que trabalhava como garçonete como trans engenheira nuclear. É uma questão de referência e da realidade do país onde se vive. Lá eles respeitam a cidadã transexual, aqui a realidade é bem outra. Mas as tras brasileiras devem tomar consciência e começar a lutar pelos seus direitos, tanto no estudo quanto no trabalho e, não mais acreditar que a prostituição é o único caminho que tem para viver.

O que você tem a dizer para as meninas que sonham em se montar, bombar e ganhar a vida nas ruas da Europa?

Que o glamour que estão buscando é falso e que devem procurar outro meio de vida. Ninguém merece ser puta, isso não dignifica ninguém. Como você mesmo disse os tempos são outros e devemos lutar pelos nossos direitos e, não fazer exatamente o que a sociedade homofóbica quer de nós; ficar nas esquinas na mais completa miséria moral e sujeita a todo tipo de escárnio.

Qual a sua opinião sobre o atual governo em relação a políticas para os GLBTs?

Nada a declarar, qualquer coisa que dissesse seria redundante com o que todos pensam, GLBTs ou não.

Você crê que o Projeto de Parceria Civil seja implantado algum dia no Brasil?

Sim, o caminho para a plena cidadania não tem volta. A menos que caiamos de novo em algum tipo de regime totalitário, mas nisso eu não quero acreditar.

Se for, você pretende se casar?

Vou perguntar ao meu namorado (risos)

Quais políticos merecem seu aplauso? E quais merecem sua vaia?

Vaia, muitos merecem, você sabe. Aplaudir, eu não vou porque a história me ensinou que posso me arrepender.

Defina Claudia Wonder

Até hoje não consegui, você quer arriscar? (risos)



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