PERSONA
Por Eduardo Gregori
editor@espacogls.com
Antônio
Trasferetti
Enquanto o papa Bento XVI reforça a postura conservadora da Igreja
Católica sobre temas atuais como o uso da camisinha, divórcio,
união entre pessoas do mesmo sexo, entre outros, um padre em
Campinas trabalha para manter de pé a ponte que construiu entre
a rigidez da doutrina e a luta pela cidadania dos excluídos,
entre eles os homossexuais. José Antônio Trasferetti defende
a modernização do catolicismo, religião que, segundo
ele, não tem condições de aprovar ou legitimar
comportamentos que surgem na sociedade moderna.
O currículo
do religioso é vasto. Foi ordenado padre em 1983. Um ano depois,
iniciou a carreira de professor na Pontifícia Universidade Católica
de Campinas (PUC-Campinas). Morou na Itália, onde fez doutorado
em Filosofia e Teologia e, ao retornar ao Brasil, coordenou o mestrado
de Filosofia da PUC-Campinas, onde atualmente ocupa a direção
da mesma faculdade.
Há quatro
anos, ele dirige a Sociedade Brasileira de Teologia Moral, entidade
que reúne teólogos de todo o País. Trasferetti
acaba de lançar o livro Teologia, Ética e Mídia,
trabalho que contou com a parceria da professora Maria Lima, da Universidade
Federal do Rio Grande do Norte. Um de seus trabalhos mais polêmicos
foi a criação da Pastoral Homossexual, que coordenou entre
1995 e 1999, na Paróquia São Geraldo Magela, na região
do Distrito Industrial de Campinas (DIC). Nessa época, aconselhou
e levou a doutrina católica a gays, travestis e prostitutas da
periferia da cidade.
O que levou
o senhor a formar uma pastoral para homossexuais?
José Antônio Trasferetti - Em 1995, o tema da Campanha
da Fraternidade foi A Fraternidade e os Excluídos. Como homossexuais,
travestis e prostitutas são excluídos pela sociedade,
resolvi trabalhar com eles. Estudei a homossexualidade para entender
mais de perto os problemas que eles enfrentam. Fazíamos reuniões
nas quais eles contavam seus problemas e dramas pessoais. Também
fazíamos trabalho de orientação sexual e prevenção
a doenças sexualmente transmissíveis.
Como a Igreja
Católica encarou esse trabalho?
Foi um desafio, pois a questão da sexualidade é muito
complexa, ainda mais para a Igreja. Foi difícil para a comunidade
que não sabia como lidar com o tema homossexualidade. Também
foi difícil para os próprios gays e para mim. Procurei
buscar um equilíbrio entre a doutrina católica e a cidadania
homossexual.
O senhor
celebrou missas para gays e prostitutas. Como foi a experiência?
Foi muito boa. Muitos homossexuais admiravam o fato de um padre
estar no meio deles. Diziam que nunca um representante da Igreja Católica
os havia procurado.
Com tantas
mudanças na sociedade, o senhor acredita que a Igreja deveria
se modernizar?
Eu defendo mudanças e trabalho para que elas aconteçam.
A Igreja olha com muito interesse o meu trabalho. Digo que deveria existir
bom senso entre o que prega a doutrina e a caridade pastoral, de acolhimento
ao indivíduo.
Com tantas
transformações da humanidade, por que a Igreja se mantém
conservadora?
A Igreja não tem condições de aprovar ou legitimar
comportamentos que surgem na sociedade moderna. O conservadorismo tem
como objetivo não facilitar que esses novos comportamentos ganhem
força.
A Igreja
Católica tem perdido fiéis sistematicamente. No Brasil
dos anos 50 os católicos eram 95% da população.
Hoje, o número caiu para 73,5%. Como o senhor analisa essa mudança?
A sociedade moderna tem hoje liberdade de escolha que não
tinha há 50 anos. Atualmente, há religiões de mercado,
ou seja, que curam uma doença específica ou que resolvem
problemas financeiros. O brasileiro também é daquele tipo
que não segue apenas uma religião, ele mistura todas.
O papa lançou
recentemente um documento que, entre outras coisas, condena o casamento
entre pessoas divorciadas e a união de indivíduos do mesmo
sexo. Qual a sua opinião sobre este documento?
A mídia de certa maneira descontextualizou o documento. Em
seus textos, o papa reafirma os ensinamentos da religião. Quando
ele fala do valor da família, está reforçando algo
que já existia há muito tempo. Antes de criticar o texto
as pessoas deveriam estudá-lo.
Mas o senhor
concorda com o que o documento prega?
Sim. Porém, acho que um padre deveria ter discernimento entre
o que o texto diz e a realidade que ele tem em sua paróquia.
Um padre não deve julgar e nem ter preconceito.
O texto
do papa reprova o uso do preservativo. O senhor concorda com isso?
A Igreja Católica defende a fidelidade dentro do matrimônio.
Eu sei que na prática as coisas são bem diferentes. As
pessoas têm que se informar sobre prevenção a doenças
sexualmente transmissíveis, mas a decisão de usar ou não
a camisinha é pessoal. O católico deve levar em conta
o que prega a sua religião. Eu defendo o uso do preservativo
como último recurso. Entre transmitir o vírus HIV e usar
a camisinha, fico com a segunda opção.
A Igreja
criticou o presidente Lula por defender o uso do preservativo. Há
uma falta de sintonia entre governo e Igreja?
Sim, e já há algum tempo. O governo brasileiro tem
seguido um rumo diferente da Igreja nesta questão. As divergências
estão entre a moral pública e a moral católica,
que são bem diferentes uma da outra.
Sandy e
Júnior não vão mais cantar para o papa. Na sua
opinião foi um veto do Vaticano ou incompatibilidade na agenda?
Talvez tenha sido um conjunto de contratempos. A questão
da agenda, as campanhas de incentivo ao uso de preservativo que eles
fizeram e também porque, na visão de muitos católicos,
Sandy e Júnior não representam a juventude brasileira.
Eles são ricos e têm sucesso, não são a imagem
do jovem brasileiro.
Se o senhor
tivesse a chance de encontrar o papa, o que diria para ele?
Que ele trabalhasse com equilíbrio entre a doutrina e a caridade
pastoral.
Uma pesquisa
revelou que o Brasil tem a menor proporção de padres do
mundo católico. Qual a sua opinião sobre isso?
Não concordo que o número de padres esteja diminuindo
no País. Acredito que a população brasileira esteja
crescendo rapidamente e, por isso, o número de padres não
está conseguindo atender à demanda.
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A Lagoa do Taquaral é um lugar lindo para a reflexão
e prece. Se a pessoa busca a liturgia, convido para a missa que celebro
nas noites de sábado, a partir das 19h15 na Comunidade Sagrada
Família, na Vila 31 de Março.
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