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PERSONA Por Tiago
Duque
Olá pessoal,
tudo bem? Como foi sua trajetória até se tornar uma Conselheira Municipal dos Direitos da Mulher? Comecei a atuar na militância de Lésbicas, Gays, Travestis, Transexuais e Bissexuais em Campinas em 2002, quando fui eleita Coordenadora de Mulheres do Identidade – Grupo de Ação pela Cidadania de Lésbicas, Gays, Travestis, Transexuais e Bissexuais de Campinas. Foi um processo empoderador muito intenso, já que o ato de me assumir como lésbica estava inevitavelmente conectado a esta militância. Ou seja, o andar de mãos dadas, beijar, demonstrar afeto por uma outra mulher em qualquer espaço “brotou” naturalmente deste processo, assim como o ato de ir às ruas “batendo panela” para lutar pelos meus direitos de cidadã. Acho que neste aspecto a militância é a melhor escola para qualquer um/a que queira vivenciar algo tão enriquecedor em sua vida. No ano de 2005, já com as articulações que estávamos realizando, viemos a saber do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher, criado em 1992 e que nunca havia tido representantes lésbicas em seu quadro. Achamos que seria um espaço importante para estarmos presentes, participamos dos eventos de caráter formador e, posteriormente, das eleições. Resultado? Régis, que naquela época ainda se proclamava como mulher lésbica, e eu, fomos eleitas com o maior número de votos na eleição. Como é formado o CMDM (Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres) e quais são os seus principais objetivos? O CMDM é formado por representantes de movimentos sociais, sindicatos, universidades e do poder público. Os objetivos são: fiscalizar o cumprimento das leis federais, estaduais e municipais concernentes aos direitos das mulheres, indicar políticas públicas de igualdade de gênero, promover articulações com outros conselhos municipais, acompanhar, opinar, sugerir e deliberar sobre projetos de lei que visem ampliar e assegurar políticas públicas das mulheres, encaminhar denúncias relativas à violência contra a mulher, denunciar quando o poder público não cumpre a LDO (Lei Orçamentária). Como você explica o expressivo número de votos que você, enquanto mulher lésbica, obteve? Primeiro, como fruto da visibilidade que conseguimos dentro dos diferentes espaços de articulação, e segundo, dos diálogos com estas mulheres, o que resultou na compreensão do quão importante é a questão do debate sobre diferentes orientações sexuais da mulher e todas as implicações que daí advêm. Quais foram as suas contribuições para este Conselho Municipal? Antes de tudo, o de trazer a reflexão sobre a lesbianidade para um espaço como este e o de colocar a questão da defesa dos direitos de nós, mulheres lésbicas e bissexuais, na agenda do dia. Um outro fato importante foi a realização de um debate em março deste ano sobre a questão do abortamento legal, com a presença do Dr. Aloísio Bedone, da UNICAMP. Menciono este evento em específico por se tratar de um tema fundamental na luta de tod@s nós, mulheres e homens, e por ter sido uma atividade que mostrou como muitas pessoas estão conscientes desta luta, pois contatamos mulheres de outros conselhos, como o de Saúde e Assistência Social de toda região de Campinas e conseguimos garantir a presença de muitas delas. Hoje, quais são os principais desafios para o CMDM? O principal é o de manter-se vivo, pois, apesar de ser uma entidade cuja manutenção dependa da prefeitura deste município, o prefeito tem demonstrado pouquíssima vontade política em relação a nós, como por exemplo, no que concerne à verba destinada a este conselho: desde que tomamos posse como conselheiras, já requisitamos suporte financeiro para vários itens, desde transporte para outras cidades para participarmos de eventos fundamentais para nossa formação como conselheiras até disponibilização de uma linha telefônica. Se este conselho tem realizado atividades de qualquer caráter que seja, isto se deve, única e exclusivamente, ao esforço e dinheiro tirado dos próprios bolsos das mulheres que o compõem. Se um conselho municipal existe somente para “inglês ver”, ou seja, cria-se uma entidade para depois deixá-la à sua própria sorte, então tudo não passa de um grande engodo. Fica patente que nosso trabalho só é mantido vivo devido à nossa vontade de luta e nossa capacidade de articulação. O que você ainda pretende conquistar junto a este importante espaço democrático? Estamos em um momento muito especial dentro deste Conselho, pois existe a possibilidade de incluirmos a participação de transexuais nele.Tudo isto se deve ao fato de Régis, que antes se identificava como mulher lésbica, vir a se descobrir como homem transexual, o que provocou uma reflexão sobre a presença dele no nosso conselho. Caso a participação dele seja realmente aceita, este conselho será o primeiro do Brasil a ter uma formação como esta, o que considero um avanço enorme, já que estaremos dissociando o fator biológico da questão, que acaba sendo o grande divisor de águas. Acredito que a luta pelos direitos de mulheres nesta sociedade tão desigual é assumida tanto por mulheres como por homens, como por travestis e por transexuais. Existem muitas pessoas feministas, conscientes das lutas das mulheres, independente de suas identidades de gênero, então por que não aceitarmos este fato e lutarmos junt@s? Você se considera uma feminista? Por quê? Sim. Desde há muitos anos venho acompanhando as lutas de grupos feministas e vejo que muit@s de nós bebemos destas fontes (o próprio movimento homossexual, assim chamado na época, está fortemente embasado no feminismo). Existem bandeiras que são essenciais dentro do feminismo, como por exemplo, a da luta contra as desigualdades sociais, contra a mercantilização dos corpos das mulheres, pela autonomia sexual, pelo abortamento legal, pela paridade política, entre outras. Como militante lésbica e feminista, assumo todas estas bandeiras e as defendo, tendo consciência do significado de cada uma delas. A cidade de Campinas possui muitas mulheres militantes e comprometidas politicamente? Como você analisa o movimento feminista em nossa cidade? Campinas é
uma cidade que possui uma influência da religião católica
muito forte e, como era de se esperar, o movimento de mulheres também
recebe uma grande dose desta influência, apesar de saber que estamos
num Estado laico. Não deixando de considerar o aspecto positivo
que qualquer crença possa ter em nossas vidas, é inegável
que o a religião católica exerce uma carga opressiva gigantesca
sobre nós, notadamente as “minorias” (as aspas se
devem ao fato do termo “minoria” se referir a mais de 50%
da população). Apesar disto, existem núcleos de
mulheres que realizam trabalhos importantíssimos na cidade de
Campinas, alguns deles se auto-denominando parte de “movimento
de mulheres” e outros de “grupos feministas”. A diferença
acaba pairando sobre questões mais controversas como a legalização
do aborto, por exemplo, a qual é defendida por grupos feministas,
mas não pelo movimento de mulheres. Novamente, o fator religioso
“determina” esta diferença. Contudo, acredito nos
trabalhos desenvolvidos, mas também creio que o avanço
nas idéias é fundamental para todas as lutas. Deixe uma mensagem para os leitores e leitoras do Espaço GLS. Acho que existe
um certo preconceito em relação a palavras como “militância”
e “política”. Experimentem militar, façam
parte de grupos, participem. Lembro-me que sempre tive muita curiosidade
nestas atividades, mas não me imaginava militante, carregando
a bandeira, sendo conselheira municipal, e no entanto, num dado momento,
me vi fazendo tudo isso e sem espanto ou choque. E mais, me vi repensando
vários conceitos e entendendo que as lutas estão aí,
e, hoje, já não vale mais a idéia de “o que
decidirem, por mim, está bem”. Se existem tantos mandos
e desmandos, é porque existe a nossa apatia também. Por
isso, mãos à obra!! Pessoal, gostaram?
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