Rodrigo Braga
Rodrigo Braga é um dos militantes mais ativos em Campinas. Foi com ele que conversei para o Espaço GLS
Porque você virou militante de um grupo GLBT?
Começou difícil! Imagina o que vem pela frente. Eu me tornei militante pouco tempo depois de sair do armário. Quando me mudei de Brasília para Campinas, fui fazer algumas disciplinas de cinema na UNICAMP, como aluno especial e conheci alguns gays, entre eles esta pessoa que me entrevista e outro amigo, Paulo Reis. Eles me mostraram a noite campineira e o Paulo já fazia parte do (Grupo) Identidade, acho que desde sua fundação em maio de 1998. Isso era 1999 ou 2000, não sei ao certo. O Paulo estava na organização do I Encontro Paulista LGTTB (que na época devia ser GLBT), que aconteceria em Campinas. Eu fui um dia neste encontro, numa sala do Hotel Opala Avenida e fiquei morrendo de vergonha, com medo que alguém falasse comigo ou que me fotografassem. Saí de fininho, mas algumas coisas que ouvi lá e a energia daquele povo nunca saíram da minha cabeça. Meses depois, o mesmo Paulo me disse que o Identidade estava meio caído, que as reuniões já não aconteciam mais e que as oportunidades de fazer programas de rádio e tv sobre sexualidade estavam pintando, mas não havia militância para dar conta do recado. Eu estava em crise, procurando uma bandeira, uma luta, algo que me motivasse a sair da cama todos os dias e resolvi encampar essa. Convidei meu namorado na época, uma amiga/chefe da escola de inglês onde eu trabalhava, este amigo que me entrevista e fomos pro grupo. (Nós) Nos tornamos coordenadores logo no primeiro ano, fomos convidando mais pessoas e daí em diante a coisa encarnou. Acho até que não me solta mais. Acabei me construindo alguém muito diferente do que eu era com a militância e sou muito mais feliz com o que ela me trouxe. Entrei para achar uma paixão e encontrei bem mais que isso. Estou na militância porque quero uma transformação social ampla e profunda, mas também porque encontrei pessoas que amo e admiro. Adoro passar tempo com elas, pensar o mundo junto delas. É claro que a militância também abre muitas portas profissionais e confere poder a quem se embrenha nela, mas certamente foi a família que constituí no Identidade e a partir dele que mais me acende.
O que sua família acha da sua decisão?
Família é um grupo de pessoas e no caso da minha, um grupo bastante heterogêneo. Meus irmãos e meu cunhado são meus grandes incentivadores. Sempre dando força, opinando, perguntando como vão os trabalhos do Identidade. Com meus pais já é outro papo. Minha mãe não apóia, mas também desistiu de criticar. Com meu pai nunca tive muito papo. Acho que ele entende muito pouco da minha vida, mas é um cara que, a partir do silêncio, encontra alguma forma de me respeitar. Meus familiares mais distantes reagem das mais diversas maneiras, uns apóiam, outros fazem cara de paisagem quando surge o assunto, mas nenhum me atormentou até o momento.
Qual a bandeira que os bissexuais defendem quando entram na militância?
Em geral, acredito que os bissexuais defendem as mesmas bandeiras que as lésbicas, travestis, transexuais e gays. Mas há muita dificuldade de inserção de bissexuais na militância. Por um lado, creio eu, porque muitos bis encontram formas de viver e serem aceitos socialmente escondendo suas práticas e amores homo e explicitando suas facetas hetero. Outro fator que mantém bis afastados da militância é que boa parte dos ativistas ridicularizam bissexuais, fazendo chacota, dizendo que na verdade se trata de um bando de pessoas indecisas, que ainda não conseguem se assumir como gays ou lésbicas. Se houver alguma bandeira mais evidente talvez seja a de buscar reconhecimento por um tipo de afetividade e de identidade que não são nem homo, nem hétero.
Como é a rotina de um grupo organizado?
Varia muito. O Identidade tem mais de 40 filiados, mas um grupo de cerca de 20 pessoas que participam mais ativamente. Somos divididos em 9 coordenadorias e tomamos decisões coletivamente. Não me lembro do Identidade ter votado para decidir alguma questão, mesmo as mais polêmicas. Sempre discutimos o quanto for necessário até que haja consenso. Procuramos nos ver pelo menos uma vez por semana, em reuniões administrativas, ou temáticas. Assistimos filmes juntos, fazemos atos, organizamos, junto com outros grupos da cidade, o Mês da Diversidade e da Visibilidade Lésbica, fazemos vídeos, damos palestras, desenvolvemos um programa de prevenção às DST/AIDS com a população de travestis e garotos que se prostituem no centro da cidade e no distrito de Nova Aparecida. É uma loucura! Recebemos demandas de escolas, movimentos sociais e de pessoas que precisam de defesa em casos de discriminação e tentamos nos organizar para atender tudo o que aparece. È claro que não damos conta. Somos voluntários. Todos trabalham ou estudam e muitos de nós fazemos as duas coisas e militamos sempre que possível.
O Grupo Identidade tem gays, lésbicas, travestis, transexuais e bissexuais. Como se dá esta convivência?
É deliciosa e conflituosa como tudo na vida, ou quase tudo. Acho que uma das maravilhas do Identidade é ser um grupo misto. Todos nós podemos nos humanizar muito quando exercitamos a convivência com a diferença. Claro que não há um ser humano igual ao outro, mas numa sociedade que tenta nos homogeneizar o tempo todo, nos tratando sempre como estatísticas, com “massa”, precisamos fazer um contraponto. No Identidade, todas as pessoas são tratadas como indivíduos com historias de vida complexas, desejos diversos, e capazes de contribuir para a transformação da sociedade.
Estamos juntos tanto nas lutas que identificamos como gerais e também caminhamos juntos quando a briga é para garantir direitos de um segmento.
É possível a existência de grupos militantes sem vinculo com partidos políticos?
Não creio, porque os partidos políticos, numa “democracia representativa” como a nossa, são as instituições que reúnem, ou ao menos deveriam reunir todas as lutas. Nós LGTTB, estamos mais focados nas bandeiras da diversidade sexual, do combate à homofobia, mas pelo menos no Identidade, procuramos entender, apoiar ou encampar as lutas de outros movimentos, e reconhecemos que os partidos aglutinam estas lutas. Os partidos podem ser vistos por muita gente como um espaço deteriorado, mas não há outro instrumento através do qual possamos organizar as lutas e ocupar os postos no Estado. Se os partidos têm problemas, precisamos buscar transformá-los. O Identidade não é partidário, mas dialoga com os partidos e com as pessoas que os compõem. No grupo existem algumas pessoas filiadas a partidos e a maioria que não se organiza em partido algum. Há vínculos e vínculos. Deve haver grupos de militância mais atrelados a partidos, mas o Identidade segue independente, pensando plataformas do que reconhecemos como “de esquerda” e pautando a luta LGTTB para os partidos que quiserem dialogar conosco. Sempre dizendo aos partidos o que eles devem fazer com relação aos LGTTBs, não o contrário.
Como é a relação do Grupo Identidade com a prefeitura de Campinas?
Com alguns órgãos da prefeitura é excelente, com outros é terrível. Encontramos no Programa Municipal de DST/AIDS um parceiro incrível. Além de desenvolvermos o trabalho de prevenção que citei antes, temos no Programa um interlocutor atento, disposto a escutar, propositivo e crítico. Eu acho um exemplo de governabilidade. Também temos estabelecido boas relações com a EMDEC, SETEC e outras áreas da Secretaria de Saúde como o pessoal do SAMU e de algumas unidades básicas. Já com a Secretaria de Cultura, por exemplo, é o contrário. Temos dificuldade para que nos recebam, não atendem nossos pedidos, raramente participam das reuniões que chamamos, nunca sabemos se podemos contar com o que se comprometem a fazer. Mas temos percebido que é assim com muita gente. A reclamação com relação a esta secretaria é geral. Acho que são incompetentes e têm má vontade e ficam se escondendo atrás da desculpa da falta de verba. A comunidade LGTTB tem 70.000 reais garantidos pelo Orçamento Participativo que devem ser destinados pela Secretaria de Cultura para um Programa Anual de Afirmação da Cidadania Homossexual, mas não vemos a aplicação de toda esta verba a cada ano e a Secretaria de Cultura sempre lança suas prestações de contas, dizendo que aplicaram tudo.
Campinas foi a primeira cidade do país a criar um Centro de Referência Homossexual, nos moldes do existente? Como você avalia este serviço?
Foi sim. Em 2001 a militância LGTTB da cidade (formada por integrantes dos grupos Identidade, MOLECA e Aos Brados) conseguiu aprovar no Orçamento Participativo da cidade a constituição deste serviço. Foi o primeiro Centro de Referência LGTTB a fazer parte do organograma de uma prefeitura, estado ou da federação. Depois surgiram outros, mas o projeto de Campinas foi pioneiro. Pena que ele nunca chegou a ser como nós tínhamos imaginado e projetado. Faltou e falta investimento e teve uma época em que eu achava que era só isso que faltava. Pensava que a equipe era pequena, que a verba era muito curta. Acho que estes aspectos complicam o serviço, mas não tenho dúvidas de que há um sério problema de gestão também. Em 2001, pensamos o CR como um propositor de políticas públicas, um pedaço da municipalidade em estreita relação com a população, especialmente com os LGTTBs, um exemplo de serviço, funcionando com o povo e pelo povo, mas o que vejo é mais um órgão moroso e pouco atuante.
O que você pensa sobre a ABGLT (Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Transgêneros)?
Sempre pensei pouco sobre a ABGLT e penso cada vez menos. Acho importantíssimo que haja uma organização nacional que reúna os grupos do país e faça parte do diálogo entre os movimentos e os governo, especialmente em âmbito federal. Com o governo Lula, esta associação tem promovido avanços que são inegáveis, mas pra mim está longe do ideal de movimento que eu imagino. É claro que as limitações da burocracia estatal e a resistência de muitos setores conservadores, homofóbicos e machistas de nossa sociedade têm que ser considerados, mas o que mais me afasta da ABGLT é que não reconheço nos discursos e nas ações um compromisso com uma transformação mais profunda. Parece que lutamos pra conseguir criminalizar a homofobia, estabelecer bases legais para a união civil entre pessoas do mesmo sexo e ampliar os debates sobre diversidade sexual. Tudo que pode ser conseguido e vai ser conseguido sem a subversão de uma ordem em que alguns têm muito e muitos têm pouco. Se bem que nem reformas como a criminalização da homofobia nós conseguimos ainda.
No Identidade decidimos não disputar os rumos da ABGLT. Preferimos depositar nossa energia e recursos numa esfera de atuação mais regional.
O que você achou da 1ª. Conferência GLBT que aconteceu em Brasília no começo de Junho?
Não estive lá. Alguns membros do Identidade foram, como convidados e observadores, porque decidimos não brigar por espaços como delegados. A Conferência teve sua importância, foi a primeira organizada pelo governo federal, mobilizou muita gente pelo Brasil afora, mas ainda é cedo pra saber que resultados concretos ela trará. Vamos ver se os ministérios vão ampliar e acelerar suas ações e se o Lula de boné e bandeira na mão vai se traduzir em algo mais do que uma bela imagem. O Programa Brasil Sem Homofobia, que a Conferência deveria analisar, criticar e transformar, é uma carta de intenções e programática muito boa e está saindo do papel, mas precisamos ter sempre em mente de que não é o bastante. Algumas pessoas fizeram críticas à Conferência porque presenciaram mais uma vez a baixeza que a luta identitária pode alcançar. Gays dominando, lésbicas, travestis e transexuais cavando espaço. Legítimas lutas, mas não as que estou com vontade de fazer agora.
Como você vê a questão dos gays que se assumiram e depois foram presos no exercito brasileiro?
Não tenho dívidas de que este caso expressa as práticas homofóbicas do exército brasileiro. Mesmo que tenham incorrido em condutas passíveis de condenação pelas regras do órgão ao qual estão ligados, não tem como dissociarmos as motivações homofóbicas que guiaram o julgamento dos seus superiores.
Como você vê a relação das casas noturnas com os gays da cidade?
Vejo como uma relação de bastante cumplicidade. De um lado um público que aprendeu a se divertir de um jeito e rala pra comprar esta diversão e do outro pessoas com mais capital, que ralam pra oferecer aquele tipo de diversão e acumular o máximo de capital que puderem. Não tem segredo algum.
As Paradas do Orgulho mudaram a visão da sociedade em relação aos homossexuais? Como você encara esta questão?
As Paradas visibilizaram LGTTBs e suas bandeiras. Já há alguns anos, organizadores da Parada de Campinas têm se questionado sob o caráter e as funções sociais que este evento desempenha. Não tenho dúvidas de que é importante ver pessoas demonstrando afetividade, trocando beijos e abraços, ocupando as ruas sem medo de sofrerem repressão de qualquer ordem, empunhando cartazes, faixas e bandeiras, sentindo que não estão sozinhos. Uma festa sim, que subverte o cotidiano. Durante a organização, muitas são as reuniões, muitas são as pessoas envolvidas, muitas são as pessoas sensibilizadas, muito preconceito de burocratas, parceiros e apoiadores caem por terra. Mas acho que existe um potencial subaproveitado. Talvez as paradas pudessem se constituir em intervenções urbanas que produzissem modificações na cidade que perdurassem mais ou então pudessem ser programadas para exigir de autoridades algumas manifestações que achamos pertinentes. Imagina a Parada terminando não em uma praça com shows e banheiros químicos lotados, mas na frente da casa do prefeito e fosse entregue um documento que exigindo que a prefeitura viabilizasse os encaminhamentos jurídicos da Lei Municipal Anti-discriminatória, que até hoje não funciona porque não temos onde encaminhar os casos. Ou então, imagina todas as Paradas do Brasil acontecendo ao mesmo tempo e cada uma delas responsável por conseguir o comprometimento de um parlamentar da respectiva região para que votasse a favor e pressionasse para aprovação do PLC-122, que criminaliza a homofobia. São apenas idéias, difíceis de realizar, mas que demonstram o subaproveitamento político que estava falando.
Você é um dos organizadores da Parada do Orgulho de Campinas. Fale sobre esta experiência.
A Parada sempre foi a tarefa mais penosa da minha experiência como militante. Todo ano, quando ela se aproxima eu começo a fazer juras de que será a última vez que irei me envolver na organização. É como se envelhecesse uns 10 anos com o processo de construção desta manifestação. Como já estou nessa há 6 anos...faça as contas do desgaste. Ano que vem estarei fora mesmo, porque já assumi compromissos para o primeiro semestre de 2009 fora de Campinas. Mas esta experiência não trouxe somente cansaço, também aprendi muito, construí laços de confiança com pessoas incríveis e em alguma medida, conseguimos manter a Parada de Campinas bem organizada, tranqüila, divertida e combativa.
Finalizando, quais as conquistas e perdas que você tem sendo militante?
A militância foi das melhores coisas que já me aconteceram. Não consigo enxergar perdas. Se não estivesse militando, poderia estar fazendo outras coisas que também acho prazerosas, como escrever e dirigir vídeos e filmes ou dedicar-me ainda mais à pesquisa, mas sentiria falta da luta e das pessoas. Procuro então fazer filmes que estejam ligados à militância e pesquisar sobre diversidade sexual. Junto várias fomes com a vontade de comer.
Clique
aqui e sugira um entrevistado