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PERSONA

Por Eduardo Gregori
editor@espacogls.com

Entre fevereiro de 2007 e agosto do ano passado, homossexuais brasileiros viveram momentos de confronto diante do assassinato de 13 pessoas no Parque dos Paturis, em Carapicuíba, cidade distante 94 quilômetros de Campinas. No início de dezembro, um retrato falado do suspeito dos crimes foi feito pela polícia. Em declaração ao jornal O Estado de S.Paulo, o delegado Paulo Fernando Fortunato, que passou a ser responsável pelo policiamento da área, disse na época estar convencido de que se tratava de um “serial killer” com “ódio” de homossexuais e disposto a “limpar o parque”. A homofobia, que teria motivado as mortes, não está distante do cotidiano dos homossexuais campineiros. Na cidade, são comuns casos de violência contra travestis. Muitos terminam em morte.

Diante de cenário tão sombrio que não se resume, evidentemente, aos assassinatos de Carapicuíba, os homossexuais de Campinas vêm revidando. Não com agressões, mas com a conscientização da sociedade e a criação de grupos e órgãos de defesa da população de gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros (GLBT).

Um dos ativistas que mais se destacam neste trabalho é Paulo Mariante. O advogado de Pelotas (RS) radicou-se em Campinas em 1994, fundando aqui o Grupo Identidade, Organização Não-Governamental (ONG) de defesa dos direitos GLBTs.

Qual é a análise que o senhor faz sobre o assassinato dos 13 homossexuais, no Parque dos Paturis, em Carapicuíba?
A homossexualidade é uma condição que coloca o cidadão numa situação de vulnerabilidade. Tal realidade já era reconhecida pelo Programa Nacional de Direitos Humanos de 1996. Muitas vezes, essas pessoas vivem sua orientação sexual de forma clandestina, o que acaba contribuindo ainda mais para que sejam vítimas de violência por parte de homofóbicos. Ao procurarem locais de encontros sexuais com desconhecidos, podem tornar-se vítimas da violência, algo que parece ser a hipótese mais provável para os crimes ocorridos no Parque dos Paturis. Por outro lado, observo que há lentidão e ineficiência policial com o efetivo combate à violência praticada contra a comunidade GLBT.

Por que os homossexuais brasileiros ainda se expõem tanto ao perigo?
Pela homofobia ainda existente na sociedade, que em nada estimula os homossexuais e bissexuais a assumirem publicamente sua orientação, e os torna mais suscetíveis a chantagens, extorsões e outras formas de violência. Eles têm verdadeiro pavor de terem suas vidas expostas. Tenho plena convicção de que uma redução do preconceito e da discriminação contra essa população teria grande influência para que mais pessoas vivessem com mais tranquilidade a sua sexualidade.

Em Campinas, a situação é igual ou diferente de Carapicuíba no que diz respeito ao risco?
Não acredito que Carapicuíba seja uma cidade mais perigosa do que Campinas para os homossexuais. E se observarmos as notícias de crimes que vitimaram a população GLBT em nossa cidade, veremos que as respostas das autoridades foram tão ineficazes quanto as de Carapicuíba.

E os frequentes ataques a travestis que ocorrem na cidade?
As travestis e transexuais são certamente a parcela da população GLBT mais visada pela violência homofóbica. Enquanto gays e lésbicas podem ocultar, ou ao menos tentar manter em sigilo sua orientação sexual, no caso das travestis e transexuais a condição é absolutamente explicita. Embora uma parcela significativa da clientela das travestis, que são profissionais do sexo, seja de “homens casados e pais de família” que as procura por livre e espontânea vontade, uma parte deste mesmo extrato social exerce contra elas atitudes de preconceito e de intolerância, que pode chegar muitas vezes aos assassinatos. Para piorar a situação, as forças de segurança acabam muitas vezes violando os direitos dessas pessoas.

De que maneira o homossexual supera ou evita um ato homofóbico?
Nem sempre é possível evitar um ato homofóbico. Mas ao menos é possível superar tais situações, principalmente não se acuando ou se amedrontando em vista das agressões, e buscando organizadamente a punição dos agressores.

Em que parte da cidade o preconceito ou os atos homofóbicos são mais latentes?
A homofobia não está localizada em certas regiões da cidade ou em determinadas classes. Trata-se de uma opressão de origem ideológica e cultural, oriunda do patriarcado e da heteronormatividade, ou seja a heterossexualidade como norma imposta e obrigatória socialmente, e que não ocorre apenas em alguns segmentos sociais.

De que maneira a vítima de preconceito por orientação sexual pode se defender?
A primeira questão é estar tranquila de que sua homossexualidade não é algo errado que justifique uma atitude hostil por quem quer que seja. O segundo passo é buscar pessoas que tenham presenciado a atitude discriminatória e possam testemunhar num eventual processo, e, finalmente, procurar uma instituição pública ou do movimento social que possa lhe dar alguma assistência jurídica.

Quando um gay é vítima de homofobia em Campinas, quem ou que instituição ele deve procurar?
Temos em Campinas o primeiro órgão público do Brasil voltado ao atendimento a essa população, que é o Centro de Referência GLTTB. O centro tem por obrigação atender e dar andamento a essas denúncias. Mas também há grupos organizados do movimento. No Identidade, sempre damos assistência jurídica às pessoas que nos procuram por terem sido vítimas de alguma violação. Nosso e-mail é identidade@identidade.org.br e estamos à disposição para ajudar.

 

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