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Por César
Povero
cesar_povero@hotmail.com
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Um chá para
Oscar & Virginia - Foi um rio que passou em suas vidas
Se não fosse o preconceito, o mesmo que condenou Wilde e que não compreendeu
Woolf, não os libertou da incompreensão. Preconceito este que não os deixou
viverem suas possíveis e verdadeiras vidas, suas verdadeiras histórias
de amor, interrompidas por linhas mal escritas com grotescos garranchos
daqueles que julgam...
Talvez assim, fosse possível de se imaginar...
A jovem Virginia, num tranqüilo fim de tarde em Londres, aos seus 18 anos,
enquanto Oscar, com 59 - se não tivesse partido - teriam se encontrado.
A jovem intelectual, descobrindo a literatura e o amor, teria procurado
encontrar o famoso e polêmico literato e dramaturgo. Ele veria nela seu
passado de incertezas, descobertas e juventude e marcariam um chá, assim
que ela o abordasse, se apresentando como uma fã. Chegariam juntos, vindos
de lados opostos e com pontualidade britânica, num chá das cinco.
Conversariam sobre arte, amor e literatura, é claro. Ele passaria toda
a sua experiência e alegria, mas talvez as obras de Virginia não seriam
as mesmas.
As badaladas do Big Ben mergulhariam no som de suas palavras. Suas idéias
mergulhariam em suas mentes e estilos tão adversos. Suas obras mergulhariam
da mesma forma na história, talvez por mais tempo, talvez não. Entre biscoitos
e fatias de um bolo inglês, mergulhariam nas xícaras de chá para molharem
suas gargantas tão ressequidas de tantas palavras e idéias trocadas. Mergulhariam
seus lábios no sabor amargo do chá preto. Muito doce, mesmo sem cubos
de açúcar se comparado ao amargo sabor do preconceito e da exclusão.
Moral da Nossa História ou de Nossa História Sem Moral
O que podemos concluir das vidas conturbadas de Wilde e Woolf é que os
conceitos pré-definidos sempre destruíram e continuam destruindo o que
encontram pelo caminho. Desde que o mundo é mundo existem relacionamentos
entre pessoas do mesmo sexo, denominados por uma infinidade de “codinomes”.
Depois de já ter sido considerado doença, mesmo assim presenciamos cenas
grotescas onde se faz presente e atual o discurso de Wilde no ano de 1895,
provavelmente, pessoas que se acham muito modernas e descoladas ainda
não saibam que estão atrasadas em alguns séculos. Seria muito difícil
ceder ao talento de tantos homossexuais, com tamanha sensibilidade e que
já idolatramos: cantores, compositores, poetas, atores, estilistas, pintores,
etc. É bem curioso pessoas apedrejarem quem nem ao menos conhecem e ao
mesmo tempo adoram um pôster de um ídolo do qual sabem tão pouco de sua
vida íntima ou sexual.
Muito cruel é sabermos que o amor que não ousa dizer o nome é depois de
tanto tempo algo ainda tão presente na vida de tantas pessoas que não
podem dizer um simples nome, pessoas que às vezes estão do nosso lado,
em nossa família, em diversas outras profissões, religiões e grupos.
O mais absurdo é vivermos numa época onde pagamos para assistirmos crimes
e sangue no cinema, ficções bem próximas de nós, mas repudiamos diferentes
formas de amor, só porque não é a nossa, que foi formatada por uma sociedade
que condena, queima na fogueira, mata, exclui e difama tantas pessoas
por engano no decorrer de nossa história e que, por isso, não deveria
ser digna de crédito.
Já que até a justiça é cega, o que podemos esperar de uma sociedade? Cabe
a mentes mais abertas tentarem fazer com que – neste mês – exatos 111
anos depois, uma frase não seja ainda tão momentânea.
“O Mundo zomba desse amor e às vezes expõe alguém ao ridículo por causa
dele.”
A jovem e alegre Virginia sairia da casa de chá, sorrindo e cheia de esperança,
pensando na amizade que havia feito. Caminhando pelo meio da rua, solfejaria
uma canção distante que nunca viria a conhecer.
“Era dia de carnaval
Carregava uma tristeza
Não pensava em outro amor
Quando alguém que não me lembro anunciou:
Trazendo alvorada
Meu coração conquistou
Ai, quando vi você passar
Senti o meu coração apressado
Todo o meu corpo tomado Minha alegria voltar.”
Foi um rio que passou em minha vida - Paulinho da Viola
* César
Póvero é ator, dramaturgo, roteirista - cursando rádio,
TV e multimídia
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