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| Liquidificultura Por César
Povero
O 4º travesseiro Vivemos uma fase de grande interatividade, ou seria globalização? Uma geração multimídia, talvez? Esse fenômeno faz com que fiquemos cada vez mais exigentes, a grande concorrência nos proporciona opções, aquecendo ainda mais o mercado. No mundo das artes não seria diferente. Um produto artístico que é criado, apresentado ao público e comercializado, passa a competir, também. Torna-se bem mais difícil de ser julgado em um mercado mais amplo e sensível. Essa interatividade citada no início faz o mesmo com a arte e as mídias. Um grande exemplo disso é “Hoje é dia de Maria”, que une teatro em linguagem e técnica, cinema em fotografia e enquadramentos, e TV como veículo. Onde quero chegar é na peça “O 3o Travesseiro”- me recuso a chamar de espetáculo - apresentada em Campinas no último dia 28 de janeiro, já pela segunda vez na cidade. Houve uma grande decepção do público com a peça, por causa do cancelamento da apresentação no dia anterior e pelo não comparecimento de alguns atores nas casas noturnas que apoiavam a produção e que tinham como certa a presença dos mesmos. Minha grande decepção foi com a peça em si. É lamentável que em uma peça GLS, o público seja 99% G, revelando já o preconceito dos campineiros. Revelando também a tamanha carência de opções de lazer voltadas para o público gay. Os textos de divulgação a respeito de “O 3o Travesseiro” definem como algo ágil, realista, com efeitos de vídeo clipe e com uma hora e meia de duração. A interpretação segue uma linha realista, assim como a direção. O excesso de realismo fez com que eu me sentisse realmente assistindo um episódio de Malhação com temática homo. Realista, porém não convincente em atuações mornas. Um assunto pesado pode ser tratado com humor em alguns momentos, mas no caso tudo se perde em opostos exageros. O cenário não é realista como a atuação e a direção. A peça é toda fatiada por cansativos blecautes, onde sofás, poltronas, entre outros são arrastados enquanto projeções de imagens, nada ágeis, são exibidas mostrando o que os atores poderiam contar no palco. As imagens seriam muito mais úteis se ilustrassem apenas os cenários e evitassem aquela enxurrada de blecautes que faz lembrar peças de formatura de escola. O realismo não é aproveitado e muitas soluções que dão agilidade em um espetáculo, passam longe. Isto é, não ocorre nem uma coisa nem outra. Foi difícil enfrentar algo tão óbvio, tão clichê por duas horas e não uma hora e meia, como o proposto. Uma encenação novelesca que naufraga entre cenas de melodrama e apelações de “besteirol”. Como espetáculo gay ou GLS é bem insatisfatório, os beijos são tímidos e não convencem, alguns são camuflados quando um se deita sobre o outro no chão, escondendo os rostos. O mais estranho é que no possível clímax da história onde o triângulo amoroso, que faz jus ao nome se concretiza, a nudez é somente feminina revelando um próprio machismo ou preconceito da produção. Se não bastasse, a relação hetero prevalece no final, como se houvesse um castigo dos deuses. O pior foi ver o elenco ser ovacionado de pé. O estranho é que a mocinha da estória, Beatriz, não me passou em nenhum momento que tinha algum sentimento pelos personagens Marcus e Renato, ela só parecia querer sacanear o tempo todo, com duplas intenções, duplos olhares e muita vulgaridade. Não sei como alguém pode se comover com aquele desfecho. Fiquei muito decepcionado com a falta de exigência do público, mais do que a falta de total qualidade da peça. É terrível a conclusão do quanto a maioria se contenta com pouco. Em pensar que é a quarta peça mais assistida em São Paulo, segundo algumas notas de divulgação. O pior é saber que o texto para teatro foi desenvolvido com o apoio do autor do livro e que a produção levou anos para levantar o projeto. Vale comentar também que falta um pouco de noção do público em saber como se comportar em um teatro, uma grande parte se manifestava euforicamente por causa de um beijo fraco entre dois homens ou porque um deles aparecia de sunga. Aplausos em cena aberta interrompiam a peça somente porque uma personagem parava de virar copos de água na boca e passava a virar a garrafa devido às noticias do filho. Esse tipo de comportamento vem acontecendo com pessoas que passaram a conhecer teatro a partir do programa global “Sai de Baixo”. Às vezes as manifestações do público me lembravam muito os interativos shows de transformistas ou os suspirantes shows de go-go boys. Precisei correr para
o bar, foi a solução depois de me sentir em um “Sai
de Baixo” (Gay). Outra opção seria pedir um quarto
travesseiro para se dormir na platéia. * César
Póvero é ator, dramaturgo, roteirista - cursando rádio,
TV e multimídia
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