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| EDITORIAL Somos todos
marginais! Na década de sessenta, a escritora francesa Simone de Beauvoir escreveu em seu livro intitulado “O Segundo Sexo” que “ninguém nasce mulher: torna-se mulher”. Com esta obra ela colocou em debate a idéia da construção social/cultural do gênero feminino e masculino. Desta forma, também podemos afirma que ninguém nasce bicha, sapatão, veado, lésbica, gay, traveco, lésbica, bissexual ou travesti: torna-se! A nossa identidade de gênero e o nosso papel sexual são socialmente construídos, aprendidas e apreendidas ao longo da vida. Na medida em que vai se socializando, a criança vai aprendendo a identificar e a reproduzir o papel sexual reservado ao seu sexo biológico. Pois é, desta maneira, que a programação social prevê que os indivíduos tenham uma identidade de gênero masculina ou feminina e, conseqüentemente, exerçam o papel reservado a um ou outro gênero. Assim, os indivíduos vão reconhecendo o eu e o outro, aquele diferente de mim onde eu inscrevo todas as marcas das diferenças daquilo que me constitui como sujeito, onde eu sou o normal e o outro o anormal. Quando Beauvoir nos diz que não se nasce, mas torna-se, ela está nos dizendo que somos o resultado do processo histórico-cultural da sociedade em que vivemos, colocando por terra o conceito de naturalidade do gênero masculino e feminino. Desta maneira, concluímos que tanto a normalidade quanto a diferença são históricas, social e culturalmente construídas. E é no corpo que expomos publicamente aquilo que somos, a nossa intimidade. Numa sociedade massificada como a nossa, pertencer a um grupo social punks, gays, patricinhas, executivos, etc., nos dão um conforto psicológico, mas ao mesmo tempo exige-nos a incorporação de signos – roupas, gestos, dialetos, etc – que nos remetem ao coletivo, onde a nossa individualidade é marcada pela performance pessoal, onde a qualquer momento é possível medir o ineditismo de nossa singularidade e individualidade. Desta forma existem muitas maneiras de viver e vivenciar os gêneros e a nossa sexualidade, embora a sociedade em que vivemos vai nos dizendo a todo o momento que existe “apenas um modo adequado, legítimo, normal de masculinidade e de feminilidade e que a única forma sadia e normal de sexualidade é a heterossexualidade. Afastar-se desse padrão significa buscar o desvio, sair do centro, tornar-se ex-cêntrico. A partir dos anos 60, o movimento de liberação homossexual, sobretudo a partir da eclosão mundial da pandemia de AIDS e principalmente com as Paradas do Orgulho GLBT que este ano colocou mais de 2.500.000 pessoas nas ruas da cidade de São Paulo e mais de 25.000 em Campinas, vizibilizam essas novas identidades sexuais “ex-cêntricas”, que passam não só a ganhar importância nestes tempos pós-modernos, como, mais do que isso se constituem como um novo centro de atenções. Se é através do olhar que determinamos o que é normal e anormal, mas, a emergência e visibilidade conquistadas por gays, lésbicas, travestis, transexuais e bissexuais colocam em xeque as noções de centro, margem e fronteira, transferindo-nos da posição de marginalizados para a posição central da discussão acerca da diversidade sexual humana, pois, assumimos publicamente a diferença como o seu lugar. Não queremos ser iguais a ninguém, queremos sim ser iguais a nós mesmos. Por isso, bradamos, respeitem a diversidade, pois como diz um dos personagens da terça insana, se o mundo fosse baseado exclusivamente no preconceito, seria muito chato.
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