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| EDITORIAL Vida noturna, vida fácil? Juliano Silveira Todo gay, por mais que haja exceção, gosta da noite, seja para mostrar a cara, para caçar, viver a sua sexualidade dentro do dark, espairecer a cabeça ou simplesmente se divertir. Justamente por esta cultura inconsciente de noite, desde os anos 90, com a explosão do underground – nós estávamos lá sim! – milhares de estabelecimentos e empresários instantâneos resolveram investir de cabeça neste público que muitos consideram de bom gosto, gastadores natos e necessitados de ambientes específicos para sua diversão. Verdade? Talvez, com umas pitadas de folclore. Desde a minha primeira saída noturna, principalmente na cidade de Campinas já vi muitos estabelecimentos investirem no tal pink-money. Bares, boates, saunas, label parties e por aí vai. Talvez a mídia tenha uma certa parcela neste fenômeno, haja vista a Parada do Orgulho de São Paulo, uma das maiores do mundo. Impressiona mesmo a possibilidade de arrebatar todo esse público que se mostra, que está aí para lutar por seus direitos e ser o que são e da forma que são. Para quem está de fora é muito prático: encontra-se um espaço, decora-se – sem ter noção do no décor que é hype - de forma simples, já que as luzes e o som darão uma outra cara aos buracos e rachaduras nas paredes, muito drag-hits, bebidas a um preço relativamente camarada e pronto, está feito o ambiente que trará do dia para a noite centenas de gays ávidos por diversão e novidade. O que muitos não pensam é que este mesmo gay não está nem aí pra isso já que nos dias de hoje, cultura e informação são acessíveis a qualquer um e a qualquer momento, como o Orkut por exemplo, que pode proliferar campanhas contra ou a favor - ou até mesmo endeusar ícones. De fato, não existe nada melhor do que o boca-a-boca para disseminar informações do mundinho tão cheio de códigos e iconografias próprias. Muitos empresários não se atentam a esta categoria de informação o boca-a-boca e insistem em subestimar a capacidade de assimilação de seu público alvo. A cena gay depende única e exclusivamente do público que a cerca, diferentemente da cena hétero, que vai pela mania, pelo momento, pois os ambientes são múltiplos e variados, sempre em mutação. Um estabelecimento hétero tem uma vida programada: abre tal dia mas com data marcada para seu fechamento. Com algumas exceções, basta lembrarmos do Palicari aqui em Campinas. Ou até mesmo a Pacha Brasil, sensações de momentos específicos na cidade. Já sensações da cena gay como a extinta The Club teve seu tempo de duração justamente por falta de investimento ou até pelo momento de decadência dos super-clubs. Caso contrário, estaria lá até hoje, como a Double Face, por exemplo, ou até mesmo o Open Bar, que por mais que o tempo passe, têm seu público, seu fundamento e principalmente seu estilo. E estilo é algo que não pode faltar definitivamente a um espaço voltado para o público GLS (assim mesmo, no sentido de mercado). Hoje, em Campinas, temos espaços de certa forma variados, que por incrível que pareçam reúnem tipos de públicos específicos. Dificilmente quem freqüenta a Subway, um ambiente voltado para o ver-e-ser-visto possa freqüentar a Delux.e, que tem um estilo underground voltado para o hype com um público mixed, assim como quem freqüenta a Dont Stop, num estilo voltado para a jogação, para a diva do palco e por aí vai. Temos espaço para mais um ambiente na cidade? Talvez. Este ambiente não seria algo sem estilo ou características próprias. Teria que ser algo inusitado, especifico para tal momento. Como o Livre Bar, por exemplo, que não é o primeiro bar GLS da cidade, não é inusitado, mas o momento que vive é como se fosse, pois o Livre Bar teve a sorte de ser inaugurado num momento em que o público estava absurdamente carente de um espaço para um chill-in desencanado. Um outro bar agora seria interessante? Sim, com certeza, mas com proposta e estilo bem diferentes do habitual. Não vejo hoje na cidade esta mentalidade à frente do habitual, já que propostas com certeza não devem faltar, mas visão, é para quem tem e não para diz ter. O público está cada vez mais ciente do que quer e procura. Ninguém precisa dizer que tal ambiente é bacana ou não, pois a atitude leva a própria conferência do espaço: “Não é legal, não volto mais”. E é aquela tal história, o boca-a-boca multiplica a informação, o que conseqüentemente detona num vai e vem absurdo que nenhum flyer bem diagramado ou promoções desesperadas trazem de volta um público insatisfeito e além disso, os locais existentes na cidade já possuem seu público, fidelizado por suas propostas. Falta a Campinas o
surgimento de empresários com visão de negócio e
conscientes da vontade e características do público com
o qual irá trabalhar. Hoje em dia ninguém sai de casa puramente
por uma luz de estrobo ou um drag-hits gritando na pista sem ter por trás
uma proposta fina, diferente, cheia de estilo, conforto e atendimento
a superar as expectativas. O empresário que acha que ganhar a vida
com a noite é fácil se ilude por inteiro e fica ali, sozinho,
no seu estabelecimento, dançando seus drag-hits, rezando para que
uma noite ou outra seu público apareça e lhe agradeça
pela iniciativa.
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