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| EDITORIAL Afinal, o que querem os jovens gays? Por Deco Ribeiro É difícil trabalhar com adolescentes homossexuais. E, quando eu digo trabalhar, estou me referindo a atuar com e para esses jovens, lutando para garantir seus direitos a uma cidadania responsável e plena – que é o que eu faço. Mas é difícil. Primeiro, porque esse assunto é tabu. Muita gente se esquece que a homossexualidade começa na adolescência e ainda insiste em fingir que gays e lésbicas brotam do nada aos 21 anos, já assumidos e sem problemas. Bobagem. É justamente a partir dos 10 anos que os pré-adolescentes gays começam a se perceber diferentes e a se tornar vulneráveis, em todos os sentidos. Desde a uma maior chance de ser infectados pelo HIV até a sofrerem abusos sexuais os mais diversos. Esse aliás, é mais uma das dificuldades de se trabalhar com esse público: muitos consideram que toda e qualquer aproximação maior com adolescentes gays é motivada por um interesse sexual. Então, quem se aproxima acaba taxado de pedófilo. Muitas pessoas que poderiam ter um trabalho legal com adolescentes não o fazem com medo de serem discriminados dessa forma. O argumento daqueles que acusam é patético.Pra que trabalhar com adolescentes? Basta trabalhar pelos direitos dos GLTTBs que os jovens já estarão contemplados por tabela...” Não é bem assim. Existem necessidades e desejos bem específicos dessa população que acabam não abordados pelo movimento gay em geral. Como a situação deles na escola, por exemplo. Ou no seu relacionamento com a família. Meninos gays sofrem 6 vezes mais violência na escola que meninas lésbicas – mas ninguém dá a mínima. Três adolescentes gays se matam por dia no Brasil. Alguém estuda isso? Não que eu saiba. Como se diverte um jovem GLTTB? Em Campinas, eles ficam no Sucão. Expostos a agressões, às vezes dos próprios garçons do bar. Mas fazer o quê? Eles não podem sair nas baladas gays noturnas e não há nenhuma matinê onde eles possam se soltar, dançar, beijar na boca. Será que eles vão precisar sempre falsificar RG pra entrar nas boates dos adultos? E é seguro para eles fazer isso? Claro que não. Custa criar espaços para que eles possam socializar, sem a venda de álcool e supervisionados? “Ah, isso é incentivar a pedofilia...” Bullshit. Bobagem. Mas peraí... até que existe um fundo de verdade nessa bobagem toda. Realmente, não faz sentido que adultos fiquem lutando pelos direitos dos jovens, de uma forma paternalista. Não acredito em trabalhar para o jovem, mas com o jovem – é o que chamamos de protagonismo juvenil: eles mesmos se levantando, tomando as rédeas de seu destino e fazendo acontecer. Mas cadê? O Grupo E-jovem, que eu criei, trabalha há três anos em Campinas tentando despertar essa consciência revolucionária nos jovens gays. Ganhamos prêmio e tudo. Mas cada dia vemos mais jovens no Sucão e menos jovens participando de discusões e atividades em prol de si mesmos. De que adianta criar espaços para esse debate, se essa juventude não ocupa esse espaço? A prefeitura de Campinas convocou uma conferência para que os jovens discutissem diversidade sexual, semana passada, no Salão Vermelho. Eram eseprados mais de 100 adolescentes. Foram 15. Outro exemplo: ir pular na Parada todo mundo quer – mas quando é pra participar de todo o proceso de construção, quem aparece? O que me deixa menos mal é saber que essa apatia afeta os jovens como um todo. Mas o que será que aconteceu? Onde estão os caras-pintadas? Felizmente há exceções. Mas a galerinha que decide se envolver sente muito o peso da responsabilidade e, pior ainda, o descaso de seus próprios colegas que não estão nem aí. Será que os jovens gays, lésbicas, travestis, transexuais e bissexuais estão tão sem esperanças que não acreditam mais nem em si mesmos? Bom, a gente é idealista e vai tocando o barco. Só não dá pra remar sozinho uma balsa com todo o povo do Sucão dentro, né? Que tal cada um pegar no remo também? Até pra ajudar a mostrar o caminho, aonde se quer ir. Procura-se adolescente gay que queira ser o herói de sua própria história. Podemos oferecer ajuda, e estamos dispostos a isso, mas cabe ao jovem saber o que quer. E lutar por isso. Deco Ribeiro é
jornalista, fundador do Grupo
E-jovem de Adolescentes Gays, Lésbicas e Aliados (www.e-jovem.com)
e autor do livro “Garotos Invisíveis – Adolescentes
gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais”
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