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DIVINO

Por Tiago Duque
duque_tiago@hotmail.com

Emo, sim senhor!

“O normal e o estigmatizado não são pessoas,
e sim perspectivas que são geradas em situações sociais durante os contatos mistos,
em virtude de normas não cumpridas que provavelmente atuam sobre o encontro.”
Erving Goffman

Nunca gostei de rock, mas aprendi a conviver. Um dos meus irmãos é guitarrista de uma dessas bandas de garagem. Já faz anos que o barulho lá em casa rola solto e alto nos finais de semana. Gente muito animada e cheia de sonhos, garotos com perfil bem machão, com aquelas suas vestimentas escuras e afeições mal encaradas. Eles nunca aparecem sorrindo nas fotos e se apresentam sempre com uma imagem que revela uma idade superior a qual realmente possuem. As letras trazem, quase sempre, uma “mensagem pesada”, mas, segundo os depoimentos do meu irmão, que o deixa leve, mesmo com caveira, faca, sangue e monstros estampados na camiseta escura, ou às vezes na própria pele.

Talvez seja a estética dos roqueiros relacionada com o estereótipo de “deseducados e desviados” que os fazem ser vítimas de muitos preconceitos. E isso me dá uma sensação de que eles precisam se mostrar fortes e rudes. Na minha opinião, nada é mais triste do que se mostrar o que não se é. Porém, entendo que isso faça parte das inúmeras maneiras que temos de darmos conta de nós mesmos, ainda que isso seja muito triste. Mas, mais triste é quando essa defesa toda de não revelarmos quem nós somos de fato começa a gerar também preconceitos e distanciamentos em relação a outros grupos estiguimatizados. Um exemplo é o que parte dos roqueiros têm feito com os emos. Parece que os adolescentes que curtem emocore (uma vertente do punk rock) têm sofrido ameaças e agressões em espaços urbanos freqüentados por roqueiros mais tradicionais.

Os emos são muito diferentes daqueles que vi crescer na garagem de casa. Eles se beijam em via pública, meninos e meninos, meninos e meninas, meninas e meninas, não importa. Usam roupas pretas, mas, misturadas com outras coloridas. Aparecem com pircing, tênis e meias pretas rasgadas. Os meninos usam lápis preto nos olhos e possuem enormes franjas no cabelo. As meninas, muitas vezes, pintam suas madeixas de vermelho ou verde. Eles e elas usam cintos e acessórios inspirados na década de 80. As estampas são menos agressivas, com direito a ursinhos, sapinhos, cachorrinhos e criancinhas estampadas nas camisetas. Curtem uma letra mais sensível (as chamadas “melosas”) e até choram quando cantam. Tudo surgiu nos anos 80 em Washington, EUA, e espalhou-se pelo mundo. Aqui em Campinas facilmente os encontramos pelo centro da cidade, sempre de mochilinhas com chaveiros coloridos e de mão dadas. Uma graça!

Conversando com quem entende melhor de música do que eu, me disseram que a maior parte dos emos não estão preocupados em estudar o que ouvem, nem mesmo em compreender a importância do que cantam, e ainda, estão longe de fazer com que o seu estilo de vida seja inspirado politicamente no que escutam. Disseram-me que a estética fala mais alto do que som, o que parece favorecer as críticas de que este estilo passará rápido como mais um modismo capitalista.

No entanto, o que mais me encanta nos emos é o fato de serem, a maioria, adolescentes. É uma tribo urbana juvenil, e todos sabem: gente nova nas ruas quase sempre renova nossas imagens e espaços urbanos, resignificam nossos caminhos. Em especial, neste caso, mudam a maneira simbólica de vermos a nós mesmos, então, muitos roqueiros se defendem e os agridem. Parece ser o mesmo movimento daqueles gays que não suportam ver as lésbicas freqüentarem “seus” bares e boates; travesti então, nem pensar!

O estigmatizado também têm a tendência de estigmatizar, porque o estigma nos protege muitas vezes de nós mesmos, daquilo com que nos identificamos e ao mesmo tempo daquilo que nos repudia. O estigmatizado traz com sigo uma, ou muitas, negações de regras sociais às quais não queremos abrir mão. Muitas vezes, essas regras já não possuem mais nada de concreto, mas insistimos em acreditar que são elas que nos torna quem somos. Por isso, ele é uma ótima provocação ao desafio da mudança que somos sempre capazes de realizar, seja internamente ou socialmente. Não é á toa que uma das mais belas orientações bíblicas nos pede para tirar o cisco do nosso próprio olho antes de apontar o olho do outro. Ou mesmo a maneira como a sabedoria popular nos alerta para sentirmos o nosso próprio rabo, que está sob nós, antes de conferirmos o rabo de algum alheio.

Neste sentido, reconhecer o quanto a identidade emo provoca o preconceito dos roqueiros é o mesmo que identificar o quanto cada um é semelhante ao outro. Esta resistência em aceitar a semelhança na diversidade está explícita também, como disse, na dificuldade de muitos gays dividirem a pista de dança com lésbicas ou travestis.

Por isso, reforcemo-nos nossas identidades e nossos estilos, porque no fundo, nos identificamos, mesmo sendo diversos. E, não devemos nos temer, nem nos agredir, por causa disso. Viva os emos! Viva nós!


Tiago Duque é teólogo leigo, socioólogo formado pela PUC-Campinas e Coordenador de Articulação com Movimentos Sociais do Identidade - Grupo de Ação pela cidadania LGTTB.

 



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