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DIVINO

Por Tiago Duque
duque_tiago@hotmail.com

Primeiro os que mais precisam

A Daphnne, uma amiga "muitu loca", levou-me para um espaço de arte. Como é próprio de quem é "muitu loca", ela tem corriqueiramente me apresentado novas formas de ver e experimentar o mundo.

Assim que entrei no local, percebi o quanto ele era sagrado, porque fazia memória a uma história identitária de um povo. Logo pensei: que legal, a prefeitura ter apoiado a criação desse espaço. Mas, em um ápice de perda da minha ingenuidade, resolvi perguntar: "- É um espaço público?" Ela respondeu-me baixinho: "- Tornou-se, pois eles ocuparam". Então, depois desta resposta, fiquei ainda mais feliz no ambiente. O que antes era entulho e lixo, tornou-se importante espaço cultural e democrático! Evidentemente não revelarei onde é, pois pode chamar a atenção das autoridades municipais e tudo voltar a ser como era antes.

A ocupação de espaços público`s por populações marginalizadas não é bem vista por muita gente, mas reconheço: sou fã de quem resolve ocupar e transformar os locais. Afinal, como dizia um outro "muitu locu" amigo meu: "se faltam para alguns é porque sobra para outros".

Contudo, sei que há muitos que não suportam ver o povo se organizando, nem mesmo se mobilizando para grandes transformações. Há aqueles, inclusive, que nem imaginam que esses espaços de sociabilidade dos pobres podem ser revolucionários. Existem também aqueles que, talvez pautados no medo de ver o sujeito que está à margem ocupar o lugar que deveria ser de todos, oprime, desmoraliza, segrega, criminaliza e exclui. Penso que sejam esses últimos que estejam tomando algumas decisões em cargos públicos que contrariam a máxima do nosso prefeito e sua administração: "Primeiro os que mais precisam".

Explico: aqui em Campinas o departamento responsável por parques e jardins retirou vários bancos da praça Carlos Gomes no final de 2005, em preparação para as santas festividades natalinas, para serem reformados e pintados. Qualquer LGTTB mais ligado nos pontos de "cassação" da cidade sabe que nessa praça é um ótimo lugar para encontrar alguém. Também é ali, do lado oposto ao pequeno lago artificial, que permanecem as mulheres profissionais do sexo. Elas costumam encontrar seus clientes no horário comercial, durante todos os dia`s da semana. O curioso é que foi exatamente e exclusivamente nesse lado da praça que a maioria dos bancos foram retirados para a pintura e reforma, mas, não foram devolvidos. Os poucos que lá ficaram, estão velhos; a reforma não contemplou-os!

No mesmo período do ano passado cheguei a observar a situação ridícula da Guarda Municipal impedindo evangélicos fundamentalistas de gritarem, com as suas bíblias em mãos, atrás da catedral metropolitana: "- O final dos tempos está chegando! Convertam-se!". A justificativa foi de que aquela região era recém "revitalizada"! Como se a presença de religiosos não fosse sinal de nenhum tipo de vida!

Não pensando nestes fatos isolados, soube que os "manos" do Hip Hop não podem mais treinar no paço municipal aos sábados e domingos à tarde. Os heterossexuais enamorados também estão proibidos de enfeitarem os gramados da prefeitura municipal no horário do almoço, pois, a segurança do local não permite mais cenas de carinho sobre o gramado e diante do prédio público.

Mas essa nossa forma campineira de "melhorar" o centro da "terra de Carlos Gomes" não pára por aqui. A prefeitura municipal fechou a fachada do antigo Cine Windsor, lacrado devido, segundo ela, seus responsáveis não pagarem impostos e por não combinar com o projeto de revitalizaç&at`ilde;o do centro (devido a exibição de filmes pornográficos e a prática da prostituição em seus corredores e banheiros). Funcionários Públicos construíram um muro de madeira para proibir que os moradores de rua pudessem dormir protegidos da chuva embaixo da marquise do nosso querido "Cinemão". "A medida foi tomada pelo bem da segurança pública", disse à imprensa o Sr. Francisco de Lagos, coordenador de Comunicação e Secretário interino de Cultura, Esporte e Lazer do município. Meu Deus, por favor, alguém pode dizer a esta autoridade que muros não protegem ninguém?

Isso tudo me fez lembrar o que li no texto "Fortaleza LA", de Mike Daves, publicado no livro "Cidade de Quartzo - escavando o futuro de Los Angeles", onde o autor descreve a absurda e cruel tentativa dos americanos daquela localidade, há algumas décadas, em tentar "limpar" a cidade provocando a saída de todos os pobres e miseráveis da rua. Como? Foi criado o banco a prova de "vagabundo". Isso mesmo! Ele era em forma de barril, assim não haveria a possibilidade de nenhum mendigo deitar-se nele para passar a noite ou prolongar um descanso matinal.

"Por isso cuidado, meu bem, há perigo na esquina!". Refiro-me ao perigoso discurso do médico prefeito e outras autoridades públicas, de que isso tudo é em nome das "famílias de bem" de nossa cidade. Talvez há um equívoco que precisamos estar atentos. ` Isso tudo pode favorecer apenas as "famílias com bens" desta nossa Campinas. E, então, se torna claramente visível que o slogan da atual administração pública esconde tristes pretensões e muitas más intenções.

Apesar disso tudo, o Natal vem aí! Então, proponho, antes de passearmos pelas praças públicas enfeitadas, o seguinte questionamento: para onde foram aqueles que mais precisam? Conforme a resposta que daremos a esta pergunta, sugiro que devamos sair das praças centrais, iluminadas e "revitalizadas", e irmos atrás deles. Afinal, não é esse o sentido último do Natal?



Tiago Duque é teólogo leigo, socioólogo formado pela PUC-Campinas e Coordenador de Articulação com Movimentos Sociais do Identidade - Grupo de Ação pela cidadania LGTTB.

 



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