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DIVINO

Por Tiago Duque
duque_tiago@hotmail.com

Ser gay em tempos de novelas

Eu não tenho TV. Faz muito tempo. Hoje, por opção, mas já foi uma questão de necessidade. Preferi a máquina de lavar e enxaguar (em 10 vezes sem juros, é claro). Mas, não tem como ficar longe das telinhas. Todo o mundo comenta o que passa nela.

A minha opção não é religiosa. Não assisto porque leio mais. O meu namorado aderiu. No entanto, nossos amigos heterossexuais há muito tempo vem nos contado sobre os casais gays das novelas. Dizem que lembram da gente, porque na falta de outros casais gays assumidos na vida real eles associam a nós que estamos mais próximos. Mas, que nada, eles (os personagens) não tem nada a ver com a gente. Nem com a maioria dos casais gays do país. Somos mais sexuados, graças a Deus!

Este nosso tempo de dar visibilidade a casais gays certinhos e nada sexuados nas novelas da TV confunde e exclui muita gente. É como se fossemos aceitos por sermos discretos. Detesto ser cobrado a ser mais “discreto”. Isso me faz lembrar aqueles caras que saem com agente pela “net”, passivos em sua grande maioria, mas deixam claro logo de início: “Não sou e nem curto efeminados”.

O que mais me surpreende é que estes estereótipos enganam até juízes! Haja vista o caso do pobre jogador Richarlyson (heterossexual assumido), que foi obrigado, junto com todos nós, a ouvir oficialmente via processo judicial que futebol é jogo viril e, por isso, não homossexual. Pode?

Mas, o que mais me surpreendeu nos últimos dias foi um padre do México, o Juan Martínez. Mesmo sem assistir nossas novelas (eu imagino), preparou um retiro para orientar homossexuais católicos a se re-orientarem, afirmando que "A atração pode durar muito tempo, mas a atividade sexual pode ser perfeitamente superada". Então a defesa é para que continuemos discretos sexualmente, mas bem certinhos na doutrina: sem sexo. Nada mais novelístico do que isso!

O pior foi o ocorrido na cidade de São Pedro, aqui no interior paulista. Fofocaram-me que um coroinha foi filmado mantendo relações sexuais passivas dentro da igreja, de fronte do altar, apoiado de quatro em um dos bancos próximos ao oratório de Nossa Senhora, com direito a tchauzinho para a câmera e tudo. O vídeo foi parar no Youtube. Você já imaginou o que a cidadezinha sentiu em ver as imagens? Caso fossem novelisticas, não teria problema nenhum.

Ah, mas nem tudo está perdido. Segundo depoimento de um dos responsáveis por mais uma novela com a presença de casais gays em sua trama, que deverá estrear nos próximos dias, o tão esperado beijo gay poderá ser transmitido aos santos lares brasileiros. Bem, na verdade segundo suas próprias palavras, talvez não seja um beijo gay, mas uma “bitoquinha”. Claro que não será na Globo! Refiro-me a Record. Oras, mas não seria ela do “Senhor Jesus”?

Enfim, com Cristo ou sem Cristo, na igreja ou na TV, há muito que beijar, digo, mudar. Vocês não acham? E como se o beijo, e o sexo, fosse assim, digamos, tão abomináveis por Deus. Ai meu Deus!


Tiago Duque é Teólogo Leigo e Sociólogo formado pela PUC Campinas, mestrando em sociologia pela UFSCar e militante do Identidade – Grupo de Ação Pela Cidadania de Lésbicas, Gays, Travestis, Transexuais e Bissexuais

 



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