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DIVINO

Por Tiago Duque
duque_tiago@hotmail.com

Corpos Antenados

O meu corpo “Está preso no meu espelho, assim como preso no tempo, e apressa-se no sentido da revelação.” James Baldwin, no livro “Giovanni”

Durante uma visita a um sebo encontrei um livro intitulado “Giovanni”. Quem o escreveu foi James Baldwin, importante escritor negro dos Estados Unidos. Logo vi que ele tratava, naquelas páginas, de um dramático romance homossexual escrito na década de cinqüenta! Comprei, evidentemente.

Somente depois de alguns anos de tê-lo na minha estante, é que pude lê-lo. Em uma das páginas, encontrei o seguinte registro do personagem principal, no florear de sua juventude, diante de sua primeira relação sexual homossexual:

“Estávamos ambos despidos e o lençol que usávamos como coberta encontrava-se amarfanhado aos pés da cama. O corpo de Joey era moreno, estava suado, mostrava-se a mais bela criação que eu vira até então... Acima de tudo, no entanto, eu sentia um medo repentino. E veio de dentro de mim a compreensão: ‘Mas Joey é um menino!’. Percebia repentinamente o vigor de suas coxas, de seus braços, de seus punhos flexionados e soltos. De repente, o vigor e a promessa e o mistério daquele corpo faziam-me ter medo”... “De modo preciso, eu queria conhecer aquele mistério e sentir aquela força”... “A própria cama em sua doce desordem, proclamava torpeza.”

No decorrer da história, entregue corporalmente a seus desejos afetivos e sexuais, o mesmo personagem relata uma outra experiência homossexual: “Ele me puxou para si, pondo-me em seus braços como se entregando o corpo para eu carregar e vagamente puxou-me para baixo, para aquela cama. Enquanto tudo em mim gritava ‘não!’. Ainda assim a totalidade suspirava ‘sim!’.”

A corajosa entrega aos desejos corporais que todos sabemos que podem ser muito mais do que carnais, nos traz a oportunidade de problematizar muitos conceitos, dentre os quais, alguns religiosos. Neste sentido, podemos falar, por exemplo, de “ressurreição” e “reencarnação”, conceitos ligados diretamente às corporalidades. A ressurreição nos coloca diante de nossa vida como sendo a única e exclusiva oportunidade de tornarmos o que somos, enquanto a reencarnação nos apresenta uma realidade de existência que está pautada na possibilidade de experenciar outras vidas. Mesmo crendo na ressurreição, não posso deixar de citar uma das mais belas orações reencarnacionistas que já ouvi:

“O homem não é matéria, não é corpo carnal, não é cérebro, não é célula nervosa, não é glóbulo sangüíneo, não é soro sangüíneo, não é célula muscular, nem é o conjunto de tudo isso. Conhecei bem a Imagem Verdadeira do homem: o homem é Espírito, é Vida, é Imortalidade. Deus é a Fonte Luminosa do homem e o homem é Luz Imanada de Deus. Não existe Fonte Luminosa sem Luz, não existe Luz sem Fonte Luminosa.”

Na Seicho-No-Ie, onde se ora o trecho acima, ouvi de um líder que nosso corpo é antena. Segundo as práticas espirituais desta expressão religiosa a minha postura corporal é fator primeiro para uma boa oração. Sentado na ponta da cadeira, com as pernas e os pés juntos e as palmas das mãos justapostas, uma na outra, diante do nariz, exatamente a um centímetro dele, auxiliado à coluna ereta, disseram-me que me faço em plena sintonia com a “Imagem Verdadeira” que é Deus.

Isso tudo me fez pensar que, os corpos antenados, podem nos aproximar de Deus sim, mas também de nós mesmos. Afinal, se somos “Luz Emanada de Deus”, e Ele é “Fonte Luminosa”, mais próximos Dele e de nós, aos poucos conseguiremos nos “ver face a face” como dizia São Paulo: “Agora vemos como em espelho e de maneira confusa; mas depois veremos face a face. Agora o meu conhecimento é limitado, mas depois conhecerei como sou conhecido” (1 Cor. 13, 12)

Assim, cuidemo-nos para que não terminemos nossos dias com esses nossos corpos entregues a terríveis questionamentos como o do personagem de Baldwin nas últimas páginas de sua história, ou pelo menos, quiçá demoremos o máximo de tempo possível para atingirmos esta mesma situação:

“O corpo no espelho obriga-me a voltar a olhá-lo. E olho meu corpo, que está condenado à morte. É magro, duro e frio, encarnação de um mistério. E eu não sei o que se move nesse corpo, o que ele procura.”

Entendo que, antenados, devemos procurar nos aproximar cada vez mais de Deus e de nós mesmos, de nossos desejos, daquilo que somos de fato, homossexuais ou não. Depois, sem nenhuma contradição, cuidar muito bem do nosso corpo. Assim, poderemos amar, porque ficar somente em nós é muito pouco. É preciso também nos distanciar de nós mesmos e ir muito além. Outras imagens de Deus estão aí para serem contempladas, amadas e respeitadas. Este movimento de ir e vir em nós, e nos demais, parece um paradoxo, mas, é um importante caminho para o encontro com o Sobrenatural. Neste aspecto os reencarnacionistas e os que crêem na ressurreição não discordam. Por isso, mesmo com medo e inseguros, jamais devemos deixar de amar, no entanto, cuidemos para não pecar como o jovem personagem de Baldwin, que exclamou no meio da tormenta de uma paixão: “... nunca mais quero amar com outra coisa além do corpo”.



Tiago Duque é teólogo leigo, socioólogo formado pela PUC-Campinas e Coordenador de Articulação com Movimentos Sociais do Identidade - Grupo de Ação pela cidadania LGTTB.

 



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