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DIVINO

Por Tiago Duque
duque_tiago@hotmail.com]

Árvores douradas ou ipês amarelos?

"Sejamos simples e calmos,
Como os regatos e as árvores,
E Deus amar-nos-á fazendo de nós
Belos como as árvores e os regatos,
E dar-nos-á verdor na sua primavera,
E um rio aonde irmos ter quando acabemos ."
Fernando Pessoa (Alberto Caeiro)

Gosto de admirar as árvores. Cada uma traz parte de uma beleza maior, que é a natureza. São ícones de uma criação que não nos cabe nos olhos. Metáfora de nossas próprias vidas, que hora nascem, frutificam e em tempos são podadas ou perdem as folhas, tornam-se humildes.

Existe uma espécie em particular que gosto de admirar nos fins de tarde de inverno. As folhas ficam todas secas, e a luz do sol ao tocar nelas as deixa douradas, brilhantes. Não importa o tempo que eu viver, jamais vou esquecer de uma agradável lembrança. Certa vez, alguém que muito me amava, tirou-me de casa com a garantia de que eu não abriria os olhos enquanto não fosse autorizado. Confiei. Minutos depois estava diante de uma rua inteirinha com árvores douradas. Surpresa de quem ama.

Os ipês amarelos também são objetos de meu prazer. Adoro fotografá-los de um ângulo específico. Coloco-me debaixo deles e levanto o pescoço. Foco as flores e os galhos, em contrates com a cor do céu. Imagem que me ajuda a rezar.

Fico imaginado o ser humano. Sua beleza no inverno. Gostaria que não houvesse escolhas em nossa velhice, só poderia existir dois caminhos: Árvores douradas ou ipês amarelos.

Poderíamos tornar-nos árvores com folhas secas com a missão de refletir e iluminar o mundo, a partir do doce toque da luz de algo muito maior do que nós mesmos. Ou seríamos belíssimos ipês amarelos floridos se perfumássemos todo o nosso redor e causássemos suspiros naqueles que nos olhassem com admiração.

Mas sei que a "melhor idade" (falar "terceira idade" traz idéia de algo que não é de primeira, que não é da melhor categoria) inúmeras vezes carrega em si momentos ruins, de dor.

Tenho um amigo que diz que nós gays, na velhice teremos apenas os bons amigos, então vive propondo que deveríamos alugar um grande casarão para todos viverem juntos, e com direito a guardar parte da aposentadoria para os michês no final do mês. Ele deve ter suas razões para insistir em tal proposta, afinal não se vê muitos gays idosos por aí.

Um outro amigo heterossexual me confessou ontem que seu tio de 69 anos morreu de depressão. Só com a empregada que foi autorizada por ele a não chamar o médico. A família desconfiava da sua homossexualidade, mas o silêncio prevaleceu nos 69 anos de sua vida. Não sabiam o que fazer com as revistas homoeróticas e vídeos encontrados na casa do tio. Tristeza e solidão.

Lembro-me do documentário "Parágrafo 175" que apresenta algumas entrevistas com idosos gays que passaram pelo tormento dos campos de concentração nazistas. Coisa horrível, vergonhosa, infernal. A imagem dos velhinhos chorando jamais sairá da minha memória.

Há quem diga que gay velho mesmo só em saunas. Mas encontrei um lugar muito alegre e divertido com muitos velhinhos gays. Em uma noite fria (10º) de domingo em São Paulo, passeando pela movimentada Vieira de Carvalho, eu, meu namorado e um jovem amigo resolvemos entrar em um bar sonhado com um chocolate quente. Três senhores cederam-nos os locais, estavam de saída. Olhamos ao redor e deparamo-nos com muitos deles. Fiquei feliz. Eram animados. Todos gays assíduos segundo o jovem atendente que nos serviu.

Não estavam em um velho casarão escondidos e nem economizando dinheiro para os michês. Dividiam a mesma alegria conosco, de um chocolate quente em uma noite fria. Muitos com seus namorados, carinhosos.

Cada um ali refletia algo que era maior do que eles, uma alegria dourada que contagiava o ambiente. Poderia jurar que perfumaram metaforicamente nossa noite, com cores quentes, como o amarelo ouro. Fora dali, na praça da rua vizinha, árvores floridas e outras com folhas secas que se apagavam no meio da noite. Nada era como eles. O ser humano também é capaz dessas coisas, afinal, o próprio Salmo 08 declara: "Deus o fizestes pouco menos do que um deus, coroando-o de glória e beleza".

Cuide-se, para que quando chegar a velhice você possa ser tão gay quanto és em sua juventude. A "melhor idade" pode nos reservar agradáveis surpresas.



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